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Coletivo Mulheres Negras na Biblioteca lança acervo digital

Reunião da iniciativa Mulheres Negras na Biblioteca (MNBT), em 2019 - Guilherme Menezes
Reunião da iniciativa Mulheres Negras na Biblioteca (MNBT), em 2019 Imagem: Guilherme Menezes

Cristina Judar

colaboração para Ecoa, em São Paulo (SP)

10/09/2021 06h00

Além de assegurar representatividade a leitoras negras, contribuir para o deslocamento das margens para o centro do universo literário de escritoras negras, combatendo o racismo e o sexismo que caracterizam a sociedade brasileira: "a gente acredita que ler autoras negras não cabe somente ao povo negro, trata-se de tarefa obrigatória a todos. É preciso reparar!", afirma a técnica em Biblioteconomia e estudante de Letras Carine Souza sobre o coletivo Mulheres Negras na Biblioteca (MNBT), do qual é idealizadora e diretora.

Desde 2016, o projeto segue quebrando barreiras e abrindo caminhos, seja para escritoras, para o público leitor ou para profissionais de diversas frentes pertencentes à cadeia do livro e à disseminação da literatura.

"Já atuamos em mais de trinta bibliotecas presencialmente, promovemos mais de cem atividades, contamos com a participação de mais sessenta autoras negras, participamos de festas e feiras literárias, inclusive da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2018, e, desde o início da pandemia, realizamos atividades on-line que atraíram aproximadamente mil pessoas".

E o MNBT não parou por aí: deu origem a uma iniciativa inovadora e democrática, uma biblioteca on-line que conta com um acervo de aproximadamente 200 livros de autoras negras — entre obras de ficção-científica, ensaios, poesia, biografias e romances nacionais e internacionais.

Essa conquista, além de ampliar os horizontes e oferecer novas possibilidades de acesso e de disseminação da escrita produzida por mulheres que se veem à parte de um sistema literário ainda hermético e excludente, tem servido como um instrumento preciso para avaliar as potencialidades e a abrangência do projeto:

"Tem sido uma experiência muito significativa perceber a dimensão que o MNBT está tomando ao ultrapassar as fronteiras geográficas por meio da Internet. Nas atividades, sempre tem alguém comentando que acompanhava as nossas redes sociais e tinha vontade de participar das atividades; e, agora, isso é possível. Por conta disso, decidimos que, mesmo quando for possível realizar atividades presenciais, também manteremos a realização das atividades on-line".

Sobre os profissionais de Biblioteconomia envolvidos com o projeto, Carine afirma que tanto negros como não negros têm absorvido a ideia do MNBT de forma muito positiva, promovendo uma movimentação antirracista nas bibliotecas. Segundo ela, há vários relatos de ações que estão sendo realizadas contra a invisibilização de obras de autoras negras. "Eles estão buscando informação, tomando consciência e fazendo a parte que lhes cabe para a transformação social. Isso nos dá uma enorme sensação de que estamos fazendo a coisa certa, com mais força".

Quando questionada sobre os aprendizados conquistados nos quase cinco anos do projeto, Carine destaca a importância das iniciativas que nascem no coletivo, unindo ação e estratégia. "Correr por fora dá mais resultado do que só cobrar as instituições. É preciso assumir a nossa responsabilidade social de forma mais prática e estratégica; mudar as coisas pode ser mais simples do que se imagina. Qualquer movimento, por menor que pareça, pode balançar as estruturas da pirâmide social, principalmente se for coletivamente".

E é justamente isso o que o MNBT tem comprovado ao promover transformações por meio de encontros literários, rodas de poemas e bate-papos com educadores. "Nas nossas atividades, não é raro pessoas relatarem que nunca leram um livro. Nós acabamos contribuindo para o aumento de leitores no Brasil. Além disso, quando falamos para um público, seja de dez ou de cem pessoas, e ao menos uma delas entende a importância de se ler autoras negras, acreditamos que estamos vencendo o racismo. Obras de autoras negras contribuem para a desconstrução de estereótipos sobre pessoas negras. A reprodução desses estereótipos causa mortes. Logo, ler autoras negras pode salvar vidas".

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