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"Nova" arte contemporânea brasileira é indígena, negra e trans

O artista Jaider Esbell - Henk Nieman/Divulgação
O artista Jaider Esbell Imagem: Henk Nieman/Divulgação

Juliana Domingos de Lima

De Ecoa, em São Paulo

03/09/2021 06h00

Quem quer conhecer a pluralidade da produção de artistas visuais brasileiros em atividade hoje já tem por onde começar. Lançada na sexta-feira (27), na plataforma SescTV, a série "Artérias" traz um rico mapeamento de artistas contemporâneos de diferentes gerações e regiões do país, com foco em não brancos e LGBTQIA+.


Segundo a idealizadora Helena Bagnoli, o nome "Artérias" faz referência àquilo que pulsa e oxigena as artes brasileiras atualmente. Cada um dos 26 episódios de 13 minutos combina depoimentos e imagens de obras de artistas como o criador do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, o pintor Maxwell Alexandre, a ilustradora Yacunã Tuxá e artista multidisciplinar Lyz Parayzo.

Lyz Parayzo - Henk Nieman/Divulgação - Henk Nieman/Divulgação
A artista Lyz Parayzo
Imagem: Henk Nieman/Divulgação

A série foi dirigida por Bagnoli e Henk Nieman e tem produção de Guilherme Werneck e pesquisa de Andrei Reina, que formam equipe da revista Bravo!. Todos os episódios estão disponíveis na íntegra na SescTV e o acesso é gratuito.

Um novo capítulo da arte brasileira

Se a arte tem sido ao longo da história "um instrumento de genocídio e colonização", como afirma a artista e ativista Daiara Tukano em seu episódio, os artistas de "Artérias" mostram que ela também pode ser usada para transformar as dinâmicas da sociedade.

Segundo a diretora Helena Bagnoli, a proposta da série é desafiar o eurocentrismo, o racismo e as hierarquias coloniais ainda presentes no circuito de arte. Em anos recentes, museus pelo mundo têm feito alguns esforços para descolonizar seus acervos, seja pela repatriação de itens roubados de ex-colônias ou pela inclusão de uma maior diversidade de raça e gênero entre os artistas que integram as coleções.

Leia abaixo a entrevista de Helena Bagnoli para Ecoa:

Ecoa - O que mais te chamou atenção na produção dos artistas que estão na série? O que eles têm em comum?

Todos eles têm um trabalho bastante político e estão buscando conquistar cada vez mais espaço com o que produzem, trabalhando para ampliar o alcance e a força dos seus grupos. Todos são discriminados, estão apartados, então o que eles têm em comum é usar a arte que fazem como um instrumento de manifestação política, de conscientização, cada um à sua maneira.

Você vê que estão todos preocupados com as mesmas questões: com o planeta, com o nosso futuro, para onde está indo a raça humana, o que há de ser do Brasil. E trabalham para que todo mundo seja respeitado. O que mais me chamou atenção foi ver como esse grupo tem uma potência absoluta em relação à arte que se produz de modo geral.

Rosana Paulino - Henk Nieman/Divulgação - Henk Nieman/Divulgação
A artista Rosana Paulino
Imagem: Henk Nieman/Divulgação

O que esse panorama revela sobre a arte brasileira hoje? Que rumos ele aponta?

Eles falam muito dessa arte que tem um sentido ancorado na realidade que a gente precisa transformar. Não é simplesmente uma arte pelo belo ou para transformar o olhar estético -- é pra transformar a alma, o jeito de pensar. Eles mostram uma arte contemporânea que tem o papel de catalisar, exprimir e mobilizar o próprio momento histórico, como já aconteceu em outros momentos da história da arte.

Qual a importância de se pensar a representatividade de quem faz arte? O sistema de arte hoje está mais aberto a essas pessoas?

O sistema de arte está sendo obrigado a se abrir, não está concedendo nada. Esses grupos que estiveram à margem até hoje foram trabalhando ali como formiga, dia a dia, ano a ano, ganhando espaço, e hoje o sistema de arte não tem escolha senão encaixá-los. Não se fala mais em arte contemporânea hoje se excluir artistas de grupos identitários. Eles foram lá e abriram as portas. Não tem como não olhar pra eles hoje, até por tudo que eu já disse, uma potência que vem desse lugar, represada há tantos séculos, que é muito poderosa. É uma força realmente transformadora.

Conhecer o trabalho desses artistas pode aproximar as pessoas de outras realidades?

A arte sempre é o melhor instrumento para sensibilizar e abrir a possibilidade de enxergar horizontes mais amplos. Me deu muita alegria fazer essa série porque era uma maneira de levar outras visões pras pessoas. A única forma de entender, respeitar, integrar, é conhecendo. Se você não conhecer outras visões, não tem como mudar a chave.

O que falta para descolonizar a arte brasileira?

O mesmo que falta para descolonizar o sistema sociopolítico inteiro: dar espaço de fato para essas outras vozes, que foram silenciadas até agora. Eu acho que é a única maneira. E isso implica políticas públicas, uma série de questões. E mais uma vez não é bondade nossa dar espaço, mas é resultado de lutas e conquistas [desses grupos]. Nós brancos temos que acordar para isso.

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