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Empresas que mudam

Empresas que mudam

Fábrica de MG tem selo de sustentabilidade inédito em gigante de alimentos

Vista da Planta de nutrição especializada da Danone em Poços de Caldas (MG) - Danone/Divulgação
Vista da Planta de nutrição especializada da Danone em Poços de Caldas (MG) Imagem: Danone/Divulgação

Juliana Domingos de Lima

De Ecoa, em São Paulo

08/07/2021 06h00

"Dado o crescente impacto da sustentabilidade no retorno dos investimentos, acreditamos que a base mais forte para os portfólios dos nossos clientes no futuro é o investimento sustentável.". Quem falou isso não foi um empresário hippie ou uma cooperativa de produtos sustentáveis, mas Larry Fink, bilionário americano e CEO da BlackRock, maior empresa em gestão de ativos no mundo.

A percepção de que sustentabilidade precisa ser posta em prática no mundo corporativo tem se espalhado rapidamente pelas grandes empresas ao redor do globo. A francesa Danone incorporou, em 2018, a assinatura "One Planet, One Health". O slogan, no entanto, não é novo. Remete a uma frase de Antoine Riboud, um dos fundadores da empresa nos anos 1970. Riboud já falava em desenvolvimento sustentável e reciclagem nessa época, antes de se tornarem conceitos disseminados no mundo dos negócios.

"Investidores agora avaliam se as empresas estão lidando bem com o risco climático, se isso está incluído no planejamento e se elas têm ações para lidar com o risco de transição — ter uma menor intensidade de carbono na produção, usar energia mais limpa, uma logística mais eficiente. Isso tudo é bom pro ambiente mas também está sendo bom pra reputação e competitividade do negócio", disse a Ecoa o coordenador de programa do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-Eaesp, Guarany Osorio.

Primeiro passo para produção sustentável

A Danone anunciou na última terça-feira (6) ter alcançado três dimensões de produção sustentável (neutralidade de carbono, circularidade da água e zero resíduos para aterro sanitário) em uma planta de Poços de Caldas (MG). A unidade é especializada na fabricação de fórmulas lácteas e suplementos em pó para crianças e adultos e é a primeira da empresa a atingir esse marco.

A Planta de Nutrição Especializada da Danone, em Poços, foi certificada nesses três âmbitos pela empresa de análise em sustentabilidade Carbon Trust. A certificação é revisada e auditada anualmente pela empresa.

"Esta certificação é um reconhecimento prático, porque podemos [até] dizer que nos preocupamos com o planeta, mas temos que agir de acordo", disse a Ecoa Edson Higo, o presidente da Danone Brasil.

Como funciona na prática

O especialista Osorio reforça que o Brasil não possui uma regulamentação de como construir essa meta de neutralidade de carbono. "Qual o padrão, como relatar as emissões, como prezar por integridade ambiental, quanto reduzir internamente [as emissões] e quanto usar de compensação... A gente tem que olhar com um certo ponto de atenção e verificar o grau de transparência que as empresas estão dando pra essas metas. Isso é o mais importante, tanto pra sociedade quanto pros analistas de investimentos", afirmou.

A unidade da Danone, em Poços de Caldas, está em funcionamento desde 2016. Tem 100 mil metros quadrados e conta com 160 trabalhadores. Os esforços para obter a certificação começaram há dois anos, e foram possíveis por se tratar de uma planta recente e pelo tipo de produção que realiza, como explicado abaixo.

Para atingir a neutralidade de carbono

Trocar a matriz de energia para fontes renováveis costuma ser o caminho mais direto para a redução das emissões diretas de um negócio. E foi justamente isso que a fábrica fez com uma mudança para o consumo de energia limpa. Parte dela é gerada na própria unidade, a partir de 1.500 painéis solares que cobrem o estacionamento e passarelas na fábrica. A eletricidade adicional necessária também é adquirida de fontes renováveis, como a eólica. Com isso, a planta reduziu em 90% suas emissões de carbono relacionadas à energia desde 2018.

painéis solares danone - Danone/Divulgação - Danone/Divulgação
Painéis solares no estacionamento da fábrica
Imagem: Danone/Divulgação

As emissões restantes são compensadas pela compra de créditos alocados em projetos de conservação desenvolvidos pela BioFílica, empresa brasileira com foco no manejo e conservação florestal. Certificada como neutra em carbono pela Carbon Trust em junho, a planta precisou atender aos requisitos do padrão PAS 2060, especificação aplicável internacionalmente.

Investir em circularidade da água

Para que isso aconteça, a fábrica não pode extrair água do solo ou dos rios da região. A planta passou, então, a ter suas necessidades hídricas — 4 milhões de litros por ano, segundo a empresa — atendidas por um sistema de coleta e tratamento de água da chuva que garante sua autossuficiência.

captação chuva - Danone/Divulgação - Danone/Divulgação
Sistema de captação de água das chuvas na fábrica da Danone em Poços de Caldas
Imagem: Danone/Divulgação

Vale destacar que, como a planta trabalha apenas com produtos secos, o uso de água não é parte de seus processos industriais. O recurso hídrico é usado para a manutenção dos edifícios, ao abastecimento de banheiros e ao consumo dos funcionários.

Zero resíduos indo para aterro

A reciclagem e a compostagem são responsáveis por recuperar aproximadamente 99% dos resíduos gerados na unidade. A fração final, de 1%, é definida como resíduo perigoso e encaminhada para coprocessamento, um tipo de incineração que aproveita a energia contida nos materiais. As emissões geradas nesse processo são compensadas com a compra de créditos de carbono, alocados em projetos da BioFílica.

Segundo a empresa, a planta não envia nenhum resíduo para aterro desde maio de 2020 e, com isso, obteve o certificado de zero resíduo.

Metas para o futuro

Segundo Sumathi Manjunath, diretora de sustentabilidade da Danone Global, outras fábricas da multinacional de alimentação no mundo — em países como Irlanda e Nova Zelândia — estão seguindo os passos da planta de Poços de Caldas na busca pela certificação tripla.

"Temos uma fábrica na Nova Zelândia com um investimento de R$ 147 milhões para criação de biomassa que reduzirá o impacto das emissões de carbono. Estamos [investindo] de verdade", disse em conversa com Ecoa.

Um dos principais objetivos de sustentabilidade da Danone é zerar as emissões líquidas de carbono em toda sua cadeia de valor até 2050 e de reduzi-las em 30% até 2030. "Teremos outras fábricas indo nessa direção [produção sustentável nas três dimensões], mas neste momento não consigo te dizer quando a certificação tripla vai acontecer", comentou Manjunath.

A maior parte das emissões da Danone vêm da agricultura. Então, uma mudança significativa no negócio como um todo requer ações da empresa que ultrapassem fábricas pontuais. Nos últimos anos, a multinacional lançou projetos para impulsionar a agricultura regenerativa.

As empresas estão realmente numa corrida e se uma empresa no Brasil está colocando uma meta hoje, não é porque ela é obrigada pelo governo. A política pública no Brasil não obriga a empresa a ter, mas ela percebe que não pode ficar parada, que isso é uma agenda de médio e longo prazo e ela vai estar aqui independente de quem seja governo.

Guarany Osorio, coordenador de programa do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-Eaesp

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