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Documentário mostra como consumo de peixe coloca em risco a vida do oceano

Divulgação
Imagem: Divulgação

Camilla Freitas

De Ecoa, em São Paulo

02/04/2021 06h00

Imagens de baleias mortas e encalhadas na praia chocam sempre que aparecem na mídia ou nas redes sociais. É mais chocante ainda quando se descobre que, em seus estômagos, há cerca de 100 kg de plástico. Estaria o nosso consumo de garrafas pet, canudos e sacolas plásticas literalmente destruindo a vida nos oceanos? É o que questiona o filme "Seaspiracy - Mar Vermelho" (2021), novo documentário da Netflix.

Apaixonado pela vida marinha desde criança, o cineasta Ali Tabrizi retirava plásticos das praias e fazia doações para ONGs comprometidas em ajudar na limpeza dos oceanos. Acreditando que o plástico que consumimos é o grande vilão na poluição dos mares, ele decidiu fazer um filme para explicar em mais detalhes essa relação. O resultado da investigação que se vê em "Seaspiracy", contudo, é bem mais chocante do que até Ali poderia imaginar. O longa foi indicado por Leonardo Santos, metade do perfil Vegano Periférico, durante sua participação no festival Hora do Planeta, promovido pelo WWF-Brasil em parceria com Ecoa.

Tudo começa com uma investigação de caça de baleias e golfinhos em uma ilha no Japão. A partir dali, as descobertas levam o cineasta a questionar se a responsabilidade pela destruição dos mares não seria da pesca comercial, ou seja, aquela que é responsável por colocar o peixe nos nossos pratos.

Com o documentário, então, acompanhamos toda a peregrinação do britânico Ali Tabrizi para tentar entender mais como os plásticos vão parar nos organismos dos animais marinhos e até mesmo de aves migratórias. É como se estivéssemos fazendo as descobertas junto com ele. Não dá para piscar, se não, perdemos uma série de informações, entre elas, a de que os canudinhos são responsáveis por apenas 0,03% da poluição dos mares.

Oceano - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Tudo é muito dinâmico e bem explicado. São entrevistados pesquisadores e biólogos marinhos que explicam a importância dos animais marinhos para a manutenção do oceano e como ele é fundamental para a vida em terra firme. É em meio a toda essa busca por respostas que Ali chega à conclusão (não há spoiler, pode confiar) de que as redes de pesca comercial são as grandes vilãs dos mares.

Ali descobre que cerca de 50% de todo plástico no oceano vêm de redes de pesca abandonadas no mar. São elas que, quando arrastadas em grandes extensões pelos navios, acabam por pescar outros animais "acidentalmente" como tartarugas marinhas, tubarões e focas. O documentário mostra, por exemplo, um estudo global que estima que cerca de mil tartarugas marinhas são mortas por plástico todos os anos. Só nos Estados Unidos 250 mil são capturadas, feridas ou mortas por pesca comercial.

Além da "pesca acidental", as grandes redes de navios pesqueiros, quando lançadas ao mar, destroem ambientes marinhos inteiros. Essa destruição é fatal para a preservação do meio ambiente uma vez que, como visto no filme, 93% de todo o CO2 do mundo é armazenado no oceano com a ajuda de vegetação marinha. Perder apenas 1% desse ecossistema é o equivalente a liberar emissões de 97 milhões de carros.

Tubarão-martelo fica preso - Brian J Skerry/ National Geographic Stock/ WWF - Brian J Skerry/ National Geographic Stock/ WWF
Tubarão-martelo fica preso em rede em caso de 'captura acidental', quando pescadores miram uma espécie e acabam atingindo outras
Imagem: Brian J Skerry/ National Geographic Stock/ WWF

Além do impacto ambiental, Ali acaba entrando em uma investigação que o leva ao narcotráfico, tráfico de pessoas, disseminação de novas epidemias como o Ebola, escravidão moderna e fome. Tudo isso tendo a pesca comercial como principal motivação.

O que fazer, então? A resposta pode ser mais simples do que parece. "A única coisa ética a se fazer é parar de comer peixe", comenta um dos especialistas entrevistados para o documentário. Fugindo do perfil fatalista, o documentário traz, ao final, algumas soluções que podem ser adotadas para que se possa reverter toda essa situação. Parar de comer peixe é uma delas.

"Seaspiracy - Mar Vermelho" é, no final, um convite para repensarmos nossos hábitos alimentares. O filme mostra como uma simples escolha sobre o que comer pode afetar não só o meio ambiente, mas também questões de combate à violação de direitos humanos. O documentário é claro: nossas escolhas alimentares (quando se pode ter escolhas) são, sobretudo, políticas. Cabe a nós, então, decidirmos como e o que queremos financiar ao escolher uma receita para o jantar.

A maioria das coisas positivas e negativas que trazem mudança à civilização humana começa com alguém. E uma pessoa não pode fazer tudo, mas cada um pode fazer uma parte. E, às vezes, grandes ideias fazem uma grande diferença. É o que podemos fazer. É o que você pode fazer agora

Sylvia Earle, bióloga marinha, ao documentário Seaspiracy - Mar Vermelho

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