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Sim ou não?

Devemos desinstalar as redes sociais do nosso celular?

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Imagem: iStock

Matheus Pichonelli

Colaboração para Ecoa, de Campinas (SP)

08/10/2020 04h00

O documentário "O Dilema das Redes", disponível na Netflix, deixou parte dos espectadores assombrados ao mostrar as engrenagens do funcionamento das redes sociais. Essas engrenagens ficam ainda mais assustadoras quando os testemunhos são feitos pelos antigos engenheiros das máquinas.

O documentário associa o vício nas redes ao vício em drogas. Não por acaso, ambos os viciados são chamados de usuários.
Disponíveis nos aparelhos móveis, as redes acompanham nossos passos, sabem dos nossos desejos, nossos valores e, principalmente, nossos medos e frustrações. Sabem o que nos causa raiva e nos faz passar ainda mais tempo nas redes em busca de recompensa.

Quem se identificou com os relatos se questiona se não seria a hora de deletar as redes. Ecoa conversou com especialistas e levantou os prós e contras dessa decisão.

Sim

As redes sociais atrapalham o sono

Com o acesso facilitado, não é difícil extrapolar os limites de tempo dedicado às redes sociais. Levar o celular para a cama e acessar as redes antes de dormir mantém ligados os circuitos neurais, o que atrapalha a produção de um hormônio chamado melatonina, produzido durante à noite e responsável pela função reparadora do sono diante do brilho das telas. A exposição a textões lacradores ou stories com gastinhos fofos ajuda a explicar a sensação de cansaço pela manhã.

Inimigas da produtividade

Disponíveis a qualquer hora, as redes sociais acabam se tornando uma grande fonte da procrastinação. Levam o usuário a perder a noção do tempo que poderia ser usado no trabalho e nos estudos. Pesquisas mostram que os níveis de atenção e foco das pessoas têm sido muito baixos por causa do smartphone. Ninguém para para ler algo muito extenso e, quando o faz, logo se entedia e volta para as telas.

Perda de conexão com a realidade

Conexões afetivas reais são fundamentais ao bem-estar físico, mental, emocional e até da felicidade. Quem não consegue viver momentos de relacionamento real, como um simples passeio no parque, sem ser interrompido por alguma tecnologia precisa rever os hábitos.

Depressão, ansiedade e baixa autoestima

O excesso de conexão pode levar a imaginar que todas as outras pessoas estão vivendo momentos felizes, menos você. Isso pode gerar frustrações e resultar em depressão e ansiedade. A alta exposição a notícias a respeito da crueldade humana e manifestações de ódio pode afetar também a saúde mental.

Fake news

Além da exposição à luz e aos estímulos do uso excessivo do celular, as redes nos mantém em alerta permanente em relação a notícias falsas, o que exige checagem contínua dos fatos para evitar manipulações de quem conhece suas convicções e valores morais melhor do que ninguém.

Não

Para muita gente, celular é a única fonte de conexão

O aparelho celular é um grande fator de inclusão — e a única forma de se conectar ao mundo digital para boa parte da população. Excluir uma rede social em 2020 significa se isolar das engrenagens sociais do mundo contemporâneo — algo que se mostrou fundamental em uma época de pandemia, que permitiu encontros, conversas e interações.

As redes estreitam os vínculos

Levar as redes para onde vamos e mostrar como estamos, o que fazemos e como fazemos permite estreitar os laços com pessoas em uma época em que a verdade não está apenas no olhar para dentro, e sim para fora. Queira ou não, é importante ser visto e receber feedback do outro para a construção das interações.

Engajamento nem sempre é ruim

Foi por meio das redes sociais que foram abertas muitas possibilidades de criação de novos ambientes culturais e a discussão de temas que não eram pauta antes, como machismo, racismo, feminismo. Existem transformações em curso acontecendo, e muitas pessoas estão hoje mais engajadas e preocupadas em como incorporar essas discussões no cotidiano. Um exemplo é o Carnaval, que levou para a festa discussões sobre assédio e slogans como "não é não". Muitas das campanhas começaram nas redes, que hoje são canais para denúncias de agressões e ofensas que antes não poderiam ser flagradas.

Mais gente opinando

Com a ajuda dos smartphones, as redes colocaram no centro do debate público inúmeros formadores de opinião que, em outros tempos, não estavam no radar da grande imprensa, mas que começaram a informar e se informar, a manifestar, expor ideias e situações graças a esses canais. É uma forma de acessar realidades diversas que não chegariam à maioria dos usuários presencialmente.

Espaço para desabafo

As redes sociais podem ser um canal de compartilhamento e desabafo para quem sofre de ansiedade e precisa de apoio. A possibilidade de dividir situações a qualquer momento cria um ambiente para que se observe com atenção iniciativas de combate à ansiedade e até prevenção do suicídio.

Estímulo à criatividade

O espírito disruptivo do jovem contemporâneo é fruto de uma juventude mais digital. Não é por acaso que grande parte do que se entende como inovador no cenário atual é uma derivação da internet das coisas, que presume que cada vez mais um número maior de dispositivos esteja ligado a uma rede móvel.

Afinidades

As redes sociais estimulam encontros com pessoas e grupos a que não teríamos acesso sem a ajuda dos celulares. As plataformas são ativas neste sentido, sugerindo páginas e publicações a partir do interesse de seus usuários, ajudando de pesquisadores que encontrarem especialistas em sua área até pais de filhos com determinada necessidade específica que se conectam e formam grupo de apoio com outros pais.

Networking

Com as redes em mãos, é possível fortalecer as redes de profissionais que usam essas plataformas para divulgar serviços e produtos entre pessoas realmente interessadas em seus trabalhos.

Bons momentos podem (e devem) ser compartilhados

Compartilhar bons momentos com quem se ama é uma forma de se manter próximos dessas pessoas de maneira ativa e de registrar experiências que ficam disponíveis para a posteridade.

Redes não são culpadas por toda a manipulação do debate

Sim, é verdade que muita gente se incomoda com o tom alarmista das notícias que se espalham nas redes. Mas isso não é novo, já era fartamente difundido em programas de auditório e policialescos, que apelam para chamar a atenção e ampliar a audiência.

Somos capazes de filtrar o que recebemos

É possível usar as redes de modo adequado, filtrando o que pode ou não ser exposto. As pessoas não querem postar qualquer coisa nem querem receber pitacos a toda hora e por isso têm se precavido em contas privadas e uso de ferramentas como "não perturbe". É possível ficar refém da visibilidade, e o bom uso das redes não é automático. Mas que tal, em vez de lutar contra a tecnologia, aprender a lidar com ela?

Fontes: George Pinheiro, médico especialista em Medicina do Sono pela Faculdade de Medicina da USP; Ana Carolina Cubria, psicóloga e doutoranda em teoria psicanalítica; Gustavo Arns, professor da Universidade Positivo, da Pós Graduação em Psicologia Positiva da PUC-RS e fundador da Escola Brasileira de Ciências Holísticas e dos Centros de Estudos da Felicidade; Rapha Avellar, especialista em estratégia digital; Victor Hyago, especialista em comunicação digital

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