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Chamadas de vídeo amenizam efeitos do isolamento para idosos em abrigo

Integrantes do projeto Asas Voluntárias, que criou iniciativa para fazer chamadas de vídeo a idosos em abrigos - Divulgação
Integrantes do projeto Asas Voluntárias, que criou iniciativa para fazer chamadas de vídeo a idosos em abrigos Imagem: Divulgação

Natasha Bin

Colaboração para Ecoa, de Miami (EUA)

20/04/2020 04h00

Ela apareceu na tela já dizendo "Por que vocês não vêm aqui? Estou com saudades!". Dona Áurea da Costa, 87 anos, é moradora da Casa São Vicente de Paulo, em São Bernardo do Campo (SP), instituição que abriga mais outros 61 idosos. Sem muito jeito com a tecnologia, ela soltou o riso tentando se enquadrar na tela do celular, enquanto recebia a ligação de duas desconhecidas, a produtora de eventos Miriam Rebelatto e esta repórter.

Por vezes respondendo aquilo que não era perguntado, mas sim o que ela entendia (culpa do áudio!), ela contou histórias da infância, do tempo em que a comida era feita com banha de porco e da saudade que ela tem de receber visitas e das festinhas "com coxinha e bolinho de queijo" que os voluntários organizam no abrigo.

Com o início da quarentena, a rotina de Áurea e seus colegas na Casa São Vicente de Paulo, em São Bernardo do Campo (SP), mudou. As visitas e as ações foram suspensas, assim como os passeios que os idosos faziam semanalmente. Para amenizar os efeitos do novo cenário, os integrantes do projeto Asas Voluntárias criaram a iniciativa "Alô, Vovôs", que promove bate-papos por vídeo com os moradores do abrigo.

A ideia das videochamadas foi sugestão de um dos voluntários, o advogado Douglas Sales. "A maior ausência que eles têm não é financeira, de bens ou de coisas materiais, mas sim de um abraço, de uma atenção, de um carinho. Então, pensei que a tecnologia tem que ser a favor no sentido de fazer uma visita, para não abandonar eles nesse momento".

As chamadas acontecem diariamente, seguindo uma escala montada pela organização do projeto. O voluntário faz uma ligação por vídeo para o celular do abrigo e o funcionário que atende leva o aparelho para o idoso que estiver mais próximo. Segundo Kaline Barros, fundadora do projeto, a regra é não falar de coisas ruins ou tristes. "Não estipulamos um limite de tempo. Há velhinhos que falam mais, outros menos. O importante é distrai-los e alegrá-los". Após a ligação, os voluntários são encorajados a compartilhar a as impressões sobre a experiência com os demais integrantes do grupo de voluntariado.

Chamada para o futuro

Como a participação só exige um telefone celular e alguns minutinhos, muitos voluntários são estreantes e nunca tiveram contato com os habitantes do abrigo, mas isso não é impedimento para a conversa fluir.

O contato com outras pessoas é ótimo para a memória e a criação de vínculos. Muitas vezes os idosos são pessoas que tiveram vínculos rompidos ou tiveram diversas dificuldades na vida. E muitos deles não têm a aceitação de estar em uma instituição. Então, falar com gente diferente e que traz assuntos diferentes, é muito positivo para eles.

Cinthia de Souza, psicóloga responsável pelo abrigo

Para a profissional, as conversas trazem uma perspectiva de futuro. "Se a gente pensar em um idoso que está institucionalizado, o futuro deles é a morte. Mas quando você os coloca para conversar com pessoas de fora, você cria um outro futuro. Você faz planos, combina visitas, festejos."

A fundadora do projeto de voluntariado, confirma: "Todo mundo que conversa com eles, eles pedem para que depois que a quarentena acabar, ir lá fazer uma visita presencial. Eles querem continuar com esse contato", diz Kaline.

Espanto e alegria

As primeiras chamadas causaram espanto. "Eles diziam 'nossa, lembraram da gente? Não deixaram a gente de lado!'", relembra Cinthia de Souza, psicóloga responsável pelo abrigo. A tecnologia também foi uma novidade, já que os idosos não estavam acostumados a receber chamadas em vídeo. Na ligação da qual a reportagem de Ecoa participou, o áudio e o enquadramento do vídeo foram os dois principais obstáculos, mas nada que impedisse o bate-papo. "A gente conversar pessoalmente é melhor, mas eu gosto. É bom falar com vocês", disse a Dona Áurea.

Há mais de três anos praticando o voluntariado, Miriam não só aprovou a iniciativa virtual, como convidou amigos e familiares para serem voluntários. "Foi uma experiência nova para mim e faz um bem muito grande para a gente. Não custa nada, então dá para fazer sempre", disse. A voluntária até já se comprometeu a mandar salgadinhos para a turma do abrigo.

Para a psicóloga, as videochamadas ajudam a mudar a visão que a sociedade tem sobre a vida em uma instituição e a diminuir o isolamento social que já existia mesmo antes da quarentena. "O distanciamento criou um isolamento ainda maior. Eles ficaram ainda mais distantes da sociedade e a iniciativa é importante justamente para reintegrá-los. As pessoas precisam ver que eles estão bem e que não são pessoas tristes. Eles querem saber como está a vida de quem está do lado de fora". A casa, conhecida na região como Jardim dos Velhinhos do ABC, conta com o apoio da prefeitura e de doações para o funcionamento.

Entre os assuntos das ligações, estão coisas do cotidiano: histórias de vida, lembranças, comida, passeios, até tarefas do dia a dia, como cuidados com a horta do abrigo.

A orientação é não falar sobre temas relacionados à pandemia ou assuntos que tragam algum tipo de angústia. A ideia é trazer entretenimento.

Cinthia de Souza

Os voluntários seguem a orientação à risca e alguns bate-papos incluíram até apresentações musicais, contação de histórias e participação de crianças.

Chamada para o bem

Para quem nunca se aventurou em uma iniciativa de voluntariado, receio é um sentimento presente. "Na ligação que fiz na Páscoa, eu chamei no vídeo uma amiga que sempre teve muita vontade de ser voluntária, mas não tinha coragem por ter medo de sofrer com a história da pessoa", conta o voluntário Douglas. O resultado do empurrãozinho foi positivo. "Minha amiga agradeceu e disse que precisava dessa atitude. Então, essa é a minha dica. Ter a atitude de fazer o bem."

A princípio, a iniciativa "Alô, Vovôs" vai até o fim de abril, mas já existe a possibilidade de estender conforme durar a quarentena e até ampliar para outras instituições que cuidam de idosos. De acordo com a organização do projeto, já há uma lista de espera de novos voluntários e gente que quer repetir a participação.

Para quem está no dia a dia do abrigo, as videochamadas não podem parar. "Seria ótimo continuar para a gente aproximar outras pessoas dos idosos, principalmente daqueles que não têm vínculo familiar."

A iniciativa "Alô, Vovôs" é aberta a toda a sociedade e aceita voluntários. Para se cadastrar, é só entrar em contato com a equipe do Asas Voluntárias pelas páginas no Instagram ou Facebook do projeto. Além de ligações, o Jardim dos Velhinhos do ABC também aceita doações de alimentos e itens de higiene.