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Tomas Rosenfeld

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uma batalha entre unicórnios e zebras

Conceito de start ups "zebra" busca eliminar o mito das empresas "unicórnio" - Getty Images/iStockphoto
Conceito de start ups "zebra" busca eliminar o mito das empresas "unicórnio" Imagem: Getty Images/iStockphoto
Tomas Rosenfeld

Tomas é escritor, pesquisador e gestor, com mais de dez anos de experiência trabalhando no campo de inovação social. Formado em Relações Internacionais e mestre em Economia Internacional, Tomas é fellow da Fundação Alexander von Humboldt. Ao longo do último ano, atuou como pesquisador visitante no Impact Hub Berlim, estudando empreendedores sociais na capital alemã. Atualmente, como doutorando e research fellow da Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk, pesquisa formas de fazer a floresta Amazônica valer mais em pé do que derrubada. Como escritor, publicou dois romances – Para não dizer que não falei de Flora (7Letras, 2015) e Vão livre (Reformatório, 2019) – o primeiro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

04/05/2021 06h00

Quando falo em empresas sociais, geralmente sinto que fica uma pergunta no ar: mas o que exatamente isso quer dizer? Aprendi certa vez que a forma mais elegante de explicar alguma coisa é embutir um aposto logo na sequência em que se menciona o conceito. Como quem pressupõe que o interlocutor já sabe do que se está falando, mas resolve adicionar uma frase, como se por um hábito de fala reiterasse a informação.

Quando digo que passei um ano pesquisando empresas sociais em Berlim, emendo logo na sequência que esse tipo de empresa, que procura conciliar lucro e impacto social positivo, tem se tornado cada vez mais popular na capital alemã.

A definição embutida na frase anterior é uma das mais simples, mas capaz de revelar o duplo propósito desse tipo de organização: lucro e impacto. O conceito tem diversas nuances, que variam não somente com a perspectiva dos autores, mas também com os contextos em que vivem.

Segundo relatório produzido pela União Europeia, empresas sociais têm como objetivo principal gerar impacto. Assim, o lucro é secundário, devendo ser utilizado para atingir os objetivos sociais da organização e não para ser distribuído para proprietários e acionistas. Além disso, a gestão deve ser transparente, envolvendo as diferentes partes interessadas nas tomadas de decisões.

Graziella Comini, pesquisadora da USP, refletindo sobre diferentes perspectivas com relação às empresas sociais, sugere três abordagens para analisá-las: a dos norte-americanos, europeus e países emergentes. Em um artigo publicado em 2012, com Edgard Barki e Luciana Trindade de Aguiar, os autores aprofundam suas observações, deixando claro que apesar da nomenclatura, não há qualquer determinismo associado à geografia. De acordo com eles, se na perspectiva europeia o lucro deve ser reinvestido na organização para aumentar o crescimento e impacto, para os norte-americanos a distribuição de dividendos é vista como parte de uma lógica de mercado a ser seguida. Nesse sentido, a abordagem latino-americana se alinha mais à lógica de distribuição dos nossos vizinhos do norte, considerando aceitáveis as distribuições de lucros para proprietários ou acionistas das empresas.

Segundo Comini, a questão da escala dos negócios é extremamente importante na perspectiva norte-americana; desejável na visão dos países emergentes e não muito relevante aos olhos dos europeus.

Quando cheguei à Alemanha, imbuído dessa ambiguidade com relação ao porte dos negócios, mesmo sabendo que em questões sociais nem sempre o mais importante é o tamanho, eu buscava grandes empresas, queria encontrar faturamento milionários, centenas de trabalhadores e outros superlativos tradicionalmente associados ao desempenho de organizações.

Ao perguntar para os meus anfitriões do Impact Hub Berlim, onde fui pesquisador-visitante ao longo do ano, quais eram na opinião deles os casos mais interessantes de empresas sociais no país, eles me passaram uma lista e mencionaram, em um aposto elegante, as zebras. As empresas que se autodenominam dessa forma representam um modelo alternativo aos conhecidos unicórnios - negócios de alto crescimento e avaliados em mais de um bilhão de dólares.

Iniciado por Jennifer Brandel, Mara Zepeda, Astrid Scholz e Aniyia Williams, o movimento das zebras faz elogio aos negócios que reparam, cultivam e conectam. No artigo ‘Zebras Fix What Unicorns Break’, as quatro autoras comparam os movimentos associados aos dois animais, começando com uma distinção básica: diferentemente de unicórnios, zebras são seres reais.

Ainda de acordo com o manifesto, zebras andam em grupo e protegem umas as outras, têm como propósito gerar prosperidade compartilhada, cooperam, são plurais, buscam o bem público, são remuneradas pelo valor que geram, perseguem um crescimento regenerativo e a qualidade. Opõem-se, assim, ao crescimento exponencial dos unicórnios que, segundo as autoras, baseiam-se em boa parte dos casos em monopólios, ganhos de soma zero, competição, parasitismo e a busca incessante por mais.

Ao longo desse ano, conheci muitas zebras e vi meu paradigma com relação à escala dos negócios ser desafiado. Os contextos são, sem dúvida, muito diferentes e é interessante pensar sobre os motivos que fizeram com que paradigmas distintos prosperassem em partes específicas do globo. Nas próximas colunas, trarei alguns exemplos de casos de zebras alemãs e brasileiras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL