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Pare de oferecer lives gratuitas

Sérgio Luciano

Sérgio Luciano tem como missão de vida o despertar da potencialidade que vive em cada ser humano, a partir da própria sabedoria de cada um. Com experiência em logística e gestão de processos, faz parte da rede Guerreiro Sem Armas, formação de tecnologias sociais para a realização de projetos e sonhos coletivos, e encontrou sua paixão de vida no Process Work, uma abordagem terapêutica para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento derivada da psicologia jungiana.

29/07/2020 04h00

Se tem uma coisa que deu um salto nessa quarentena, foram as LIVES. Parece que nunca tivemos antes tanta oferta de conteúdo gratuito na web, como estamos tendo nessa quarentena.

Live no Youtube. Facebook. Instagram. Zoom. Google Meet. Twitch. Onde existe a possibilidade de conectar uma câmera e fazer uma transmissão pra um monte de gente, tá tendo live.

Seja para pessoas continuarem se reinventando e promovendo seus projetos. Ou para ocupar o tempo ocioso que surgiu. Como estratégia de venda. Para reduzir a solidão. Para sentir-se contribuindo de alguma forma. Ou por outros motivos mais.

Aliás, algumas semanas atrás eu via rolando várias listas de "próximas lives" de tudo que é gênero musical. Sertanejo. Funk. Rock. MPB. Tinha até movimentos que uniam artistas em uma "virada de lives". 24h de conteúdo sem parar.

O que me chamou a atenção em algumas delas foi a releitura tecnológica de duas coisas super presentes na minha infância: Criança Esperança e Teleton. Se antes a gente assistia um destes dois e ligava para um determinado número e apertava um botão do telefone informando o quanto iríamos doar, hoje algumas dessas lives contavam com um QR Code estiloso para apontarmos o celular e irmos direto para um link de doação para alguma causa social.

- Ahá!!!! Agora eu sei onde você tá querendo chegar com o título desse texto aí, Sérgio! — pensarão alguns.

E sim! É bem por aí mesmo.

Agora, contextualizemos melhor. E o faço a partir da minha experiência.

Eu, hoje, tenho o privilégio de não precisar receber remuneração financeira pelo tempo que posso dedicar a algumas palestras e cursos que ofereço. Porém, isso não significa que essa entrega tenha menos valor. De fato, gratuito ou não, estou entregando valor para quem participa desses encontros.

Assim, por que não cobrar dos participantes uma contribuição consciente a ser revertida para uma causa social relevante? Para uma instituição séria que faz um trabalho de justiça social, regeneração planetária, educação, dentre outros?

Assim, decidi que não faço mais lives gratuitas. Ou melhor, toda aparição "gratuita" que farei será acompanhada de um convite à contribuição consciente pelo que a pessoa está recebendo. Uma contribuição que seja justa e a partir de suas possibilidades atuais, que será direcionada para uma causa social.

Não tô falando nenhuma novidade não gente. O negócio é que às vezes o óbvio precisa ser dito infinitamente até que deixe de ser necessário. E, ainda hoje, na sociedade tal como se configura, uma forma efetiva de cuidado é fazer o dinheiro transitar das mãos daqueles que tem mais para pessoas e/ou projetos que tem dificuldades de acessar recursos financeiros.

Aí a gente entre num negócio interessante e importante: DINHEIRO É PODER. Energia potencial para ação. E ter "abundância" de dinheiro está diretamente atrelado ao nível de privilégio que temos na sociedade. Nessa abundância podemos incluir desde ter algumas centenas de reais mensais sobrando para guardar na poupança até milhões que transbordam e são possíveis de levar boa vida para algumas futuras gerações.

E estou batendo nessa tecla porque você não precisa ser uma super celebridade para usar a posição que ocupa para gerar provocações e transformação. Não é sobre arrecadar milhões. É sobre usar nosso poder e privilégio para pensar e agir para além de nosso umbigo. Fazer a nossa parte, na medida que nos é possível.

Se você pode dispor do seu tempo para fazer atividades abertas, fica a provocação para considerar a possibilidade de passar o chapéu e pedir uma grana em troca para causas sociais.

Faça isso na divulgação, durante o encontro e depois do mesmo. Contextualize. Traga a importância desse compartilhar e como cada pessoa pode fazer algo com o que está em suas mãos. Às vezes, com aqueles 10-20 reais que não vão fazer falta. Ou com aqueles 500 conto que é troco de bala, para alguns.

Se você que não oferta atividades abertas, espalhe essa ideia. Sempre que participar de uma super hiper mega transformadora live gratuita, provoque quem puxou a live. Provoque a galera que organiza eventos online bacanões, com gente importante aos olhos do status quo, e que são na faixa. Provoque.

Tem gente que vai achar desconfortável. Tem gente que vai achar isso estúpido. Um saco. E tá tudo bem. A vida não é agradar todo mundo não. As vezes a gente faz uma escolha consciente e banca o desconforto dessa escolha.

Se queremos mudança, precisamos também assumir o privilégio e poder que temos em mãos e colocá-lo a serviço do coletivo. Isso é sobre reconhecermos que não somos sozinhos, e termos consciência que parte dos benefícios que temos é fruto também de uma complexa e desigual sociedade.

A gente não vai mudar o mundo fazendo uma contribuição consciente aqui e ali. Não vamos lavar nossa alma, como se isso fosse o suficiente para cuidar das mazelas existentes.

Mas, fazendo isso, podemos mudar nosso mundo. A forma como vemos o mundo. E tomarmos consciência e agirmos a partir desse lugar é um ato revolucionário.

O encontro que puxei dias atrás rendeu algumas centenas de reais em apoio ao Instituto Socioambiental (ISA), que faz um trabalho da hora e mega importante pela causa ambiental e pelos povos originários.

Tô ligado que essas centenas de reais, individualmente, talvez nem façam cócegas no orçamento que eles precisam. E bem sei que uma andorinha só não faz verão...

Mas, imagina se a moda pega.

Use seu poder e privilégio, a posição que ocupa hoje na sociedade, a serviço. Coloque parte do seu dinheiro a serviço. E convide outras pessoas a fazerem o mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.