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Vem cá filho, vamos falar sobre drogas

Sérgio Luciano

Sérgio Luciano tem como missão de vida o despertar da potencialidade que vive em cada ser humano, a partir da própria sabedoria de cada um. Com experiência em logística e gestão de processos, faz parte da rede Guerreiro Sem Armas, formação de tecnologias sociais para a realização de projetos e sonhos coletivos, e encontrou sua paixão de vida no Process Work, uma abordagem terapêutica para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento derivada da psicologia jungiana.

17/06/2020 04h00

Vem cá filho, vamos falar sobre DROGAS. Foi assim, ou mais ou menos assim, que conheci as drogas. Não me lembro a idade, mas sei que ainda não tinha passado dos 10 anos.

Então, minha mãe começou a me falar sobre cada droga que ela conhecia. Conhecia. Que sabia da existência, não que tenha usado (apesar de hoje saber que ela já fumou uma erva).

- Olha filho...

- Existe maconha, heroína, LSD, craque, cocaína... [complete a lista]

- E vou ser sincera contigo. Não é ruim não, viu. Se fosse ruim, ninguém usava. Tem umas que dá uns ‘barato muito loko’. Tem outras que deixam mais relaxado. Outras que deixam ligadão...

- Mas, não é só isso não. Tem esse outro lado aqui também. Pode te viciar, acabar com a saúde e te tornar dependente. Tem o risco de você começar a roubar para sustentar o vício, se não tiver mais dinheiro...

- E te falo isso, porque acho importante você saber. Pode ser que um dia alguém te ofereça. E você precisa ter consciência da escolha que faz.

- Ó... e se um dia você já tiver liberdade de escolher, e morar em casa, pelamordadeusa, não rouba nada de casa não. Fala comigo...

E por mais um tempo seguiu a conversa, com ela me trazendo perspectiva sobre o uso de drogas e seus impactos.

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Te conto essa história, não pra falar de drogas ilícitas. Tampouco das drogas lícitas que vendemos em farmácias, padarias e supermercados. Que inundam nossa vida.

Essa história é sobre escolhas. Sobre responsabilidades.

Hoje, percebo o quão importante foi a conversa aberta que ela teve comigo. E o quão sortudo eu fui de ter uma mãe que fala sobre esses tabus, na lata.

Isso me ajudou a seguir um caminho diferente da constante ideia de certo e errado.

- Menino, você não pode fazer isso porque é feio. Faz assim porque é coisa de gente correta.

Me ajudou a ter um olhar de escolha consciente e responsabilidade. De intenção e impactos (ainda que alguns impactos sejam não intencionais).

Me ajudou a ser mais consciente dos momentos que entro no tentador jogo da culpa e acusação, do mocinho e do bandido, e me coloco como a verdade a ser seguida. O avatar da lei, ordem e justiça.

Quem me conhece hoje, mal sabe do meu passado religioso. Onde eu ficava, durante as festas da igreja, dizendo que todo mundo que bebia cerveja ali no salão paroquial, iria pro inferno. E eu, rezando por elas. Para serem fortes e resistentes às tentações do demônio.

Certo era eu, iluminado. Que confessava meus pecados, e logo depois estava pronto para, a partir de um lugar de pureza, reivindicar as chaves dos céus e dos infernos.

Hoje, carrego alguns valores cristãos, mas não a doutrina. Escolha pessoal por trilhar caminhos diferentes dos quais outrora aprendi serem o melhor a se seguir.

Não se engane achando que esse texto é sobre ser religioso. Também não é.

Tire o viés religioso, acrescente a ‘moral e bons costumes’. Acrescente a ‘capa de herói’. Acrescente o arquétipo de ‘mocinho e bandido’. Escolha qualquer visão que nos coloque no lugar de ‘melhores’, ‘mais evoluídos’, ou ‘moralmente corretos’.

Dá igual.

É sobre isso, na real, o texto.

Sobre a tendência que percebo de seguirmos uma jornada moral de erradicação do mal como meio para transformação da sociedade no melhor lugar para se viver.

Sobre a tendência a nos considerarmos avatares da justiça e bons costumes, lutando contra aquelas e aqueles que só vieram ao mundo para causar desordem. Nos esquecendo do significado de corresponsabilidade. Sem a compreensão sobre sistemas complexos.

Sobre a, consciente ou não, estigmatização do diferente, considerando que nossas verdades têm preferência em detrimento da visão de mundo do outro.

Veja, estou falando de um lugar de fora, sim. Uma crítica. Como bem aprendi dias atrás no significado da palavra ENSAIO. É um ensaio. Wikipedia ajuda a compreender, se for o caso.

Ao mesmo tempo que ensaísta, sou também objeto do mesmo. Então, falo sobre mim, também. Longe de mim reivindicar o papel do paladino da justiça e detentor das verdades.

Prefiro, conscientemente, escolher o papel do provocador. Do perturbador da ordem. Semeador de desconforto.

Estamos, todas e todos, numa breve jornada tentando ser a gente, ou descobrir quem somos. Às vezes esquecendo (ou evitando pensar, ou sem perceber), que talvez seja possível sermos nós mesmos sem impedir que o outro seja ele também. Negociando um bom convívio nesse caminho.

Na superfície, nossas crenças e valores que se chocam. As aparências e preferências.

Abaixo da superfície, tanta coisa em comum. Que, talvez, a gente só consiga perceber, quando conseguirmos transcender as faíscas das divergências e sustentarmos o desconforto de nos despirmos de nossas verdades mais arraigadas. Juntas e juntos.

E se você chegou até aqui no final, se perguntando se uso drogas...

No passado, já comi bolinho espacial. Atualmente, consumo açúcar, tentando reduzir cada vez mais. Internet também, apesar de ainda estar na fase da negação. E só.

Sérgio Luciano