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Rodrigo Hübner Mendes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Busca ativa: imprescindível para não perdermos mais talentos

Almir Pinto de Melo e os alunos do Centro de Excelência Dr. Edélzio Vieira de Melo, em Sergipe - Divulgação
Almir Pinto de Melo e os alunos do Centro de Excelência Dr. Edélzio Vieira de Melo, em Sergipe Imagem: Divulgação

Rodrigo Hübner Mendes

04/06/2021 06h00

Almir Pinto de Melo, 53 anos, é daqueles diretores de escola que tem muitas histórias e diversas ações na escola para não deixar o angu desandar. Desde 2010, está à frente do Centro de Excelência Dr. Edélzio Vieira de Melo, uma escola pública de Ensino Médio que atualmente atende pouco mais de 200 alunos em Santa Rosa de Lima, Sergipe.

Com sorriso no rosto, Almir conta sobre a busca ativa que não para de realizar desde que a pandemia começou. "Eu, a coordenação pedagógica escolar e o grupo de professores fazemos de tudo para que ninguém se desinteresse pela escola ou pare de estudar por falta de condições. Pode até não ser aluno do Edélzio, mas fora da escola, não pode ficar. Todos que estão fora da escola são assunto meu, sim", conta.

Ângelo, 19 anos, é um desses jovens que estava sem estudar. Ele e Almir se conheciam há tempos, porque Ângelo mora em frente à escola. Dia desses, Almir perguntou ao rapaz como andavam as coisas e ele respondeu que não estava estudando. Almir não pensou duas vezes e o convidou para se matricular naquele instante. O moço disse que não daria certo, pois tinha de trabalhar e as aulas eram em tempo integral. "Agora na pandemia, você pode fazer as atividades e entregar aos poucos. Não tem desculpa. Quero você na escola com seus documentos em 40 minutos!", falou Almir.

Depois que Ângelo resolveu a parte da documentação na secretaria, o próprio Almir mostrou a ele como fazer as atividades na plataforma Google Classroom, apresentou o novo aluno para os professores, de forma virtual, e o convidou para participar dos grupos de WhatsApp da turma do 1o. ano, da qual ele passou a fazer parte.

"Eu luto para que os alunos não saiam do Edélzio desde quando assumi a direção. Na época, a taxa de evasão era de 43%. Chegamos a zerar esse percentual logo em 2012. Eu e toda a equipe da escola sempre buscamos ouvir o que os estudantes têm a dizer, o que os faz deixar de estudar, o que torna a escola sem graça para eles, o que gostariam que acontecesse", conta Almir. De fato, conhecer as causas de evasão é um dos pontos fundamentais para combatê-las.

No início da pandemia, quando a escola foi fechada, Almir não esperou para ver na prática os jovens deixando de estudar para depois ir atrás deles. Montou um questionário para descobrir quais dos 180 alunos não tinham condições de assistir às aulas e fazer as atividades usando a internet por falta de acesso. Ao saber que eles eram 15, logo foi montado um esquema para produção e entrega de atividades impressas.

No desenrolar do ano passado e do primeiro semestre de 2021, a equipe também se organizou para produzir lives e podcasts com os conteúdos a serem estudados e para manter uma comunicação estreita com os alunos. "Ao notar que um estudante está sumido, o professor fala com a coordenação pedagógica, que por sua vez, me conta sobre a situação. Aciono o líder de turma para conversar sobre o que podemos fazer. Vamos atrás de quem for preciso para chegar até esse aluno. Amigos, parentes, vizinhos...", diz Almir, que chegou a ir pessoalmente até a casa de alguns estudantes.

Mas, segundo Almir, saber respeitar o tempo dos adolescentes é fundamental. "Tem aqueles que se irritam com minhas mensagens, me bloqueiam, mandam respostas desaforadas… Eu não retruco, não. Nem compro briga. Espero passar uns dias. Sei que alguns enxergaram na pandemia a possibilidade de fazer bicos, trabalhar. Geralmente, eles mesmos retomam o contato comigo, mais calmos. Sabem que podem até pensar em desistir da escola, mas que a escola não vai desistir deles. Eu não admito isso", conta o diretor.

Como resultado da busca incessante e do canal de diálogo aberto, o Edélzio encerrou 2020 com todos os 180 alunos matriculados no início do ano. Não ficou nenhum para trás, mesmo. Professores e gestão foram atrás de quem não tinha feito todas as atividades e combinado um tempo para tal.

Além de ter apoio da Secretaria de Educação, a determinação de Almir é motivada por ele encarar com seriedade o papel social da escola e por saber que a educação é a maior e melhor oportunidade para os jovens de Santa Rosa de Lima. "Certa vez, falando sobre projeto de vida com os alunos, um deles disse que não tinha motivo para continuar estudando, que o projeto de vida dele era ser um pistoleiro de aluguel. Eu não abri mão dele. Hoje, ele trabalha como cabeleireiro na cidade", finaliza.

O Unicef tem investido significativos esforços para promover a busca ativa em todas as regiões do Brasil, com o slogan "Fora da escola não pode!".Tal programa representa mais uma inestimável contribuição da organização para não perdermos mais talentos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL