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Rodrigo Hübner Mendes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Incomparável, Contardo esteve, está e sempre estará à altura

O colunista Contardo Calligaris - Bruno Santos/ Folhapress
O colunista Contardo Calligaris Imagem: Bruno Santos/ Folhapress

Rodrigo Hübner Mendes

02/04/2021 06h00

"Me conte, Rodrigo", dizia Contardo Calligaris ao início de todos nossos encontros. Tive o privilégio de desfrutar da sua amizade, apoio e invejável capacidade de costurar análises diretas, mas profundas, sobre uma ampla variedade de temas complexos que permeiam nossa vida. Seu humor afiado trazia leveza à nossa interação, mesmo quando discutíamos facetas espinhosas do mundo contemporâneo e da nossa subjetividade. Foi crucial para a tomada de uma das decisões mais importantes da minha trajetória.

Psicanalista, jornalista e escritor, Contardo foi um cidadão do mundo. Nascido em Milão, graduou-se em Letras na Suíça, o que permitiu que logo se tornasse professor, na disciplina de Teoria Literária. Mais tarde, em Paris, tomou o rumo do estudo da psicologia e da psicanálise, o que o levou a obter um doutorado pela Universidade de Provence. Me fascinava ouvir suas histórias inusitadas, que envolviam passagens da sua convivência com intelectuais como Jacques Lacan, Michel Foucault e Roland Barthes.

O Brasil apareceu em sua vida a partir de um convite para uma série de palestras e o lançamento de um livro, nos anos 1980. Nessa época, Contardo já tinha saído da França para os Estados Unidos, e mantinha atividade acadêmica nos dois extremos norte-americanos, California e Nova York. Em nosso país, conheceu a psicanalista gaúcha Eliana dos Reis, com quem viria a se casar e estabelecer o início da sua vida na América do Sul. Sua coluna na Folha de S.Paulo, iniciada em 1999, era uma das mais lidas e comentadas do jornal. Destacou-se também pela sua obra literária, tendo produzido vários livros de grande repercussão e contribuído com o universo das artes.

Com todo esse currículo, Contardo foi uma das pessoas mais simples, interessantes e abertas que conheci. Sempre é difícil encontrar a melhor forma de homenagear uma pessoa amiga que se vai. No seu caso, acho que vale apenas citar uma de suas frases finais, registrada e comunicada pelo filho Max: "Espero estar à altura". Esteve, está e estará.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL