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O poder da boa prática para a educação de qualidade

Rodrigo Hübner Mendes

Rodrigo Hübner Mendes tem dedicado sua vida para garantir que toda pessoa com deficiência tenha acesso à educação de qualidade na escola comum. É mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka. Atualmente, dirige o Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que desenvolve programas de pesquisa e formação continuada sobre educação inclusiva em diversos países.

24/07/2020 13h53

Um dos motivos que nos permitiram, como espécie, sobreviver foi nossa capacidade de aprender com os exemplos dos outros. Nossa vida nesse planeta teria sido muito mais difícil se tivéssemos que aprender tudo o que sabemos isoladamente pela experiência direta, sem poder explorar o que outros já viveram. Sem poder acessar o estoque de conhecimento que vai se acumulando ao longo da nossa existência.

Apesar dos cuidados que precisamos considerar para a aplicação dessa lógica às ciências humanas, sem dúvida o desenvolvimento da educação tem representado uma história baseada no compartilhamento sistemático de conhecimento. Isso se intensificou quando alguns pensadores tiveram a transformadora ideia de que pessoas comuns poderiam, por meio da educação, governar suas vidas e contribuir para a melhoria do mundo. Essa é uma ideia iluminista que se fundamenta no conceito de igualdade. Na visão de que todos temos os mesmos direitos e que, por meio da razão, podemos evoluir como espécie. E uma das consequências práticas dessa visão foi a invenção da escola pública.

Pensando nos dias de hoje, a demanda por conhecimento sobre como educar todos nunca foi tão grande, dada a maior diversidade na sala de aula e, por outro lado, a percepção do papel estratégico que a educação exerce para o futuro de qualquer país. Em 2018, a OCDE conduziu uma pesquisa, envolvendo 50 países, sobre quais são as necessidades prioritárias dos professores em relação ao seu desenvolvimento profissional. Aprender como incluir estudantes com deficiência nas escolas comuns apareceu como uma das demandas mais importantes. No Brasil, 3 em cada 5 professores responderam que carecem de conhecimento sobre como educar esse segmento de alunos.

Visando atender a essa demanda por meio da reflexão, do aprendizado a partir de boas práticas de educação inclusiva que já vêm , há algum tempo, sendo implementadas ao redor do mundo, a Fundação Santillana, a Editora Moderna e o Instituto Rodrigo Mendes acabam de lançar o livro "Educação Inclusiva na prática" (download gratuito em várias versões, incluindo recursos de acessibilidade)

O livro aborda seis estudos de caso referentes a instituições de ensino localizadas em quatro regiões do Brasil e que atuam em todos os níveis de ensino (da educação infantil ao ensino superior). Além de apresentar as experiências dessas instituições, oferece um capítulo sobre conceitos fundamentais da educação inclusiva e notas de ensino, que são sugestões sobre como um educador, que pretende usar os casos em iniciativas de formação, pode explorar seus principais conteúdos.

Os princípios que orientaram a elaboração do livro estão alicerçados em duas vertentes. A primeira diz respeito à convicção de que toda pessoa com deficiência tem o direito de participar, em condições de igualdade, da escola, o que implica frequentar a sala de aula comum e, de forma complementar, receber atendimento educacional especializado. A segunda relaciona-se com a percepção de que os alunos de qualquer turma são, inevitavelmente, diferentes entre si e se desenvolvem de maneira distinta. Nesse sentido, os professores só vão conseguir cumprir com a missão de não deixar ninguém para trás se eles diversificarem suas estratégias pedagógicas. Para os autores, incluir significa singularizar, assumir como ponto de partida que todo aluno é único na sua história e na sua forma de aprender. No final do dia, a escola como um todo avança, todo aluno sai ganhando com essa nova concepção de ensino que promove o contato com as diferenças, desde a primeira infância, e que persegue altas expectativas para cada um.

A complexidade inerente ao universo da pedagogia não dialoga com a busca por fórmulas perfeitas que podem ser replicadas para gerar o mesmo resultado. No entanto, aprender com experiências que se mostram exitosas e que podem inspirar a criação de projetos pedagógicos autorais é uma estratégia muito poderosa para darmos escala a práticas consistentes e inclusivas. O Brasil está repleto desse precioso ativo.

Rodrigo Hübner Mendes