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Milo Araújo

Nem sempre dá pra ser otimista

Numa ida à ótica de bicicleta, motoristas tentaram "ensinar" o meu lugar. Sem falar na quantidade abissal de assédios - Greice Baltieri/Getty Images/iStockphoto
Numa ida à ótica de bicicleta, motoristas tentaram "ensinar" o meu lugar. Sem falar na quantidade abissal de assédios Imagem: Greice Baltieri/Getty Images/iStockphoto
Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

27/11/2020 04h00

Sinto dificuldade em escrever na intenção de propor no final do meu texto uma atitude otimista. Otimismo é um conselho que só conseguimos dar quando ele é genuíno, e eu, nessa semana, não me encontro muito otimista.

Os que se encontram exasperados de tanto mimimi que me perdoem, mas me encontro cansada de fazer parte de grupos muito "azarados". Não parece a vocês uma grande coincidência que todas as pessoas torturadas e/ou mortas em redes de supermercados nos últimos anos sejam negras? Mas que falta de sorte impressionante das pessoas negras.

Olha, é muito, mas muito doido mesmo que o presidente e seu vice acreditem que o racismo no Brasil não existe. Que na verdade, o que existe é uma tentativa de importá-lo de outras terras. É difícil engolir a distopia brasileira. Esse ano está sendo um grande concurso de manchetes absurdas. Enfim, já adianto que este texto é um desabafo.

Mudando de assunto um pouco agora, mas seguindo no clima mais pessimista. Eu e uma amiga fomos de bicicleta buscar meus óculos novo que ficou pronto na ótica. O caminho é bem tranquilo, quase todo composto por vias retas, sem muitas curvas e ladeiras. Em tese, super simples. Porém, estamos em São Paulo, não é mesmo?! Não dá para colocar o corpo na rua e ficar muito tempo sem sofrer uma violência. Mesmo fora do horário de pico e com trânsito com poucos carros, foram inúmeras as finas que levamos, tanto de carros quanto de motos. Duas pessoas já foram mortas andando de bicicleta esse mês na cidade, mas motoristas e motociclistas parecem não ligar muito. O importante é ver quem chega mais rápido no farol vermelho a frente. Ah, e é claro, "ensinando" a essas ciclistas abusadas qual o lugar delas. Sem falar na quantidade abissal de assédios? É difícil viu.

É isso. Parece que chegamos num limite mesmo como humanidade. Como grupo, não conseguimos respeitar o corpo e o espaço uns dos outros, nem admitir que vivemos num país racistas, e nem abrir diálogo para conversar sobre qualquer pauta, mesmo dentro de certas bolhas. Tem dias que, depois de tudo isso, dar uma acariciada na minha gata, tomar uma taça de vinho depois do trabalho e assistir um filminho me fazem esquecer de tudo isso e fingir que o mundo é só o interior da minha casinha funciona, mas tem dias que não dá.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.