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Milo Araújo

Parem de nos atropelar!

Marina Kohler Harkot - Arquivo pessoal
Marina Kohler Harkot Imagem: Arquivo pessoal
Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

13/11/2020 04h00

Neste final de semana, recebemos a notícia de mais duas mortes de pessoas que estavam pedalando pela cidade de São Paulo. Esse tipo de notícia é sempre uma facada no coração. Desperta na gente muito medo - por nós e pelos que amamos. Também é um lembrete afiado do motivo pelo qual lutamos e militamos por uma cidade mais justa e segura para que todas e todos possam ir e vir em paz e com dignidade.

Claro, não devemos alimentar os haters. Porém, são muitas as vezes que nosso cérebro nos engana e, quando damos por nós, lá estamos, nas terras sem lei que são as sessões de comentários de portais internet adentro. Me deparei com comentários cheios de ódio, culpando os mortos por suas mortes. Por que será que temos tanta facilidade para atribuir culpa às vítimas?

Além disso, é necessário falar (novamente) que as vias públicas não são exclusivas para uso de veículos motorizados. Ninguém aqui que agora me lê vai achar essa passagem no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), pelo simples fato de que ela não existe. Isso dado, faço a provocação: por quê insistem em dizer que nós, ciclistas, quando estamos pedalando na rua, estamos no lugar errado? É preciso destruir essa concepção egoísta e bastante ridícula de que a rua, que é um espaço público, é a extensão do seu carro privado. É necessário, motoristas, abrir mão de todo esse egocentrismo que vocês carregam dentro de seus carros e aprender a conviver com as outras pessoas, que fizeram escolhas diferentes das suas. Alguns, para nossa sorte, preferem pedalar.

Quanto mais normalizado for o convívio entre bicicletas, motos e carros, melhor, pois podemos aparar as farpas que temos entre nós. Não é legal quando bicicletas entram na contramão, assim como não é legal quando motoristas ficam acelerando e buzinando atrás do ciclista. Podemos construir juntas e juntos um caminho para um trânsito mais gentil, mais seguro. Contudo, é primordial que os motoristas de carros aceitem de uma vez por todas, que não são especiais, e que não possuem exclusividade de uso da cidade (é tão estranho precisar escrever obviedades, né, mas bora lá).

Antes de finalizar, vamos deixar uma coisa bem transparente por aqui. Quando você, motorista, do alto da sua arrogância, acredita fortemente que possui a supremacia da inteligência e escolhe, a partir disso e baseado em nada, nos ensinar onde devemos estar e começa a desestabilizar o ciclista de propósito, tirar "finas corretivas", gritar e ameaçar, sabendo do risco de morte que isso implica, saiba que você assume a intenção de matar. Fina corretiva não é uma piada, muito menos pedagogia. É uma sanha homicida. Tenha isso em mente, pois a próxima placa rastreada pela polícia na busca de um assassino pode ser a sua.

Deixo aqui meus sentimentos às famílias de Joab Xavier de Oliveira, de 34 anos, morto na Avenida Jacu-Pêssego, e de Marina Kohler Harkot, de 28 anos, assassinada na Avenida Sumaré. Digo e repito, eles não estavam no lugar errado. Parem de passar pano para assassinos em cima de 4 rodas. Não foi acidente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.