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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pela refundação do ambientalismo brasileiro

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Imagem: iStock

Mariana Belmont

15/07/2021 06h00

Não sou especialista em nada, talvez em generalidades, mas nem eu sei as coisas que consigo ler, acompanhar e o que me interessa. Acho importante reforçar isso, porque todas as vezes que levantamos questões sobre temas que são de importância para a sociedade, viramos especialistas.

Não sou especialista em mudanças climáticas, cidades e meio ambiente. Mas esses temas sempre nortearam minha linha de pesquisa e olhar. O que me interessa mesmo é trazê-los e incluí-los como transversais a essa agendas e debates, afinal eles precisam fazer parte da nossa vida e das construções do cotidiano. É importante que a informação seja decodificada e aprofundada de diversas formas e olhares. Não existe narrativa única.

Já falei aqui diversas vezes sobre a dificuldade que o debate climático tem para chegar e circular nos territórios periféricos, e sobre o desafio ainda maior para que seja incorporado no dia a dia das pessoas. Reconheço que hoje, felizmente, temos movimentos e articulações que olham para isso e transformam projetos em ações práticas. Mas precisamos de mais.

Nos finais de semana, nas pesquisas que faço sempre de forma silenciosa, animada com novos projetos e ideias sobre mudanças climáticas, entendo cada vez mais as convergências das coisas e procuro traçar estratégias de como podemos avançar rumo ao chão dos lugares - com as pessoas do mundo real —- e como podemos aproximar as novas lideranças e pessoas, de qualquer área, do debate sobre a mudança do planeta, do ar que respiramos, da água que bebemos, da comida que comemos.

Ora, questões que são parte da nossa vida, atravessam tudo que fazemos o dia todo, em todos os lugares. E isso a gente não aprende na escola pública — eu não aprendi e meu afilhado de 13 anos também não.

Bom, voltando para as minhas pesquisas, organizei uma série de documentos, de grupos e sites brasileiros com temas atuais e reflexões aprofundadas sobre gênero, raça e clima, tema de fundamental interesse e que deveria nortear nossas propostas lá na COP26 em novembro. Mas todos os documentos que acessei são em inglês, sem versão em português. Eu não falo inglês. Antes não tinha dinheiro, mas agora eu tenho dificuldade e falta de atenção para essa necessidade da minha vida.

Mas veja, não mudem os documentos por minha causa, eu me viro ali no google tradutor ou com os amigos. Mas como faz para disseminar essas informações tão valiosas, necessárias e que poderiam ser base do ensino fundamental, passando pelo cursinho popular até as universidades? É de interesse real das organizações que o entendimento, conteúdo e processo de decisão e participação sejam compartilhados com outros movimentos, principalmente o negro, o periférico e o de mulheres?

Tenho dúvidas.

Acima citei a COP, que é a Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática. É a autoridade máxima para a tomada de decisões sobre os esforços para controlar a emissão dos gases do efeito estufa nos países. É um encontro para revisar o comprometimento dos países membros, analisar os inventários de emissões e discutir novas descobertas científicas sobre o tema. Ou seja, um encontro fundamental para o debate sobre nosso presente e nosso futuro, a partir da avaliação do passado. E quem sabe disso?

Estamos vivendo um desgoverno que instituiu a destruição ambiental, que não tem meta, campeão de desmatamento e no ataque aos povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais em territórios sagrados para a preservação e vida do país. Mais do que nunca a sociedade precisa ter informações e estar preparada. A agenda ambiental com justiça social precisa ser a base da nossa educação.

É sério e urgente. Precisamos testar narrativas, incorporar a multiplicidade de vozes e dar espaço. Precisamos abrir a roda para que novas pessoas cheguem, mas isso só vai ser possível se as informações circularem, forem facilmente acessadas e amplamente debatidas com todas as pessoas. Precisamos refundar o movimento ambientalista, com a participação ativa dos movimentos de territórios pelo Brasil.

Estou ansiosa para que a COP26, que vai acontecer em em Glasgow, no Reino Unido, de 31 de outubro a 12 de novembro de 2021, tenha ampla cobertura da imprensa nacional, da imprensa negra e periférica, a partir de dados e evidências científicas, que já sabemos onde o negacionismo climático e político nos leva. Que essa cobertura possa, por fim, trazer pro chão e se relacionar com a vida das pessoas. Que os debates dessa COP e os eventos sobre o debate climático sejam menos elitistas e abram caminhos para a verdadeira transformação.

Vamos avançar juntos nessa conversa? Estou, de novo e sempre, à disposição.

"Esteja sempre disposto ao aprendizado, e não se esqueça que, quem já sabe tudo é porque não aprendeu nada. As ruas são excelentes professoras de filosofia, pratique andar sobre elas."
Sérgio Vaz

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL