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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uma carta às deputadas Joenia Wapichana e Talíria Petrone

Joênia Wapichana, eleita deputada federal, foi a primeira indígena a se formar em Direito no Brasil - BBC
Joênia Wapichana, eleita deputada federal, foi a primeira indígena a se formar em Direito no Brasil Imagem: BBC

Mariana Belmont

01/07/2021 06h00

Queridas Joenia e Talíria,

O desejo de escrever esta carta já ocorre há alguns dias, mas me faltavam as palavras. O que dizer diante de tanto terror e tristeza que vocês duas têm vivido nos últimos dias?

Hoje é domingo e esta coluna só sai na quinta (01). Não sei se até lá outros ataques contra vocês ou mais mulheres parlamentares acontecerão, afinal, infelizmente, virou rotina.

Joenia, te conheci no gramado da Esplanada dos Ministérios, foi o dia da sua posse como primeira deputada indígena eleita na história desse país. Foi absurdamente emocionante, guardo muitas fotos desse momento: o gramado cheio de parentes celebrando a sua chegada na Câmara Federal. Aquele dia foi lindo!

Talíria é uma explosão que nos conecta com o passado, presente e futuro. Nos conhecemos nos encontros do Ocupa Política, dividindo os sonhos por uma política feita com amor e pé na porta. Alegria, força e presença de transformação com afeto e disponibilidade para fazer junto.

Vocês duas são forças necessárias dentro da Câmara Federal, um espaço majoritariamente hostil, violento e de destruição. Um parlamento composto por homens brancos, em sua maioria conservadores e aliados do que temos de pior no comando do Brasil.

Precisamos falar de racismo em um país que nunca foi capaz de superar a herança colonial e escravocrata, no qual 71,5% das pessoas assassinadas são negras ou pardas, com baixa escolaridade e não possuem o ensino fundamental concluído.

A situação dos povos indígenas é igualmente grave, sistematicamente atacados por garimpeiros ilegais em seu território. Suas terras estão em perigo e a violência só aumenta todos os dias.

Esse é o retrato do Brasil. E a violência política que vocês vivenciaram na última semana é reflexo dessa desigualdade racial e de gênero. Joênia foi atacada de forma violenta pela deputada e presidenta da Comissão de Constituição e Justiça, Bia Kicis, que demonstrou claramente seu apoio à aprovação desse PL 490 criminoso. Joenia teve suas falas interrompidas. Os presentes naquela Comissão se recusaram a ouvir as lideranças indígenas e incitaram ódio contra indígenas em suas redes sociais.

No mesmo dia, a deputada Talíria Petrone denunciou a fala racista do Presidente da Câmara, Arthur Lira, que classificou a ação dos indígenas como violenta, acusando-os de usar drogas, fumarem e "dançarem" na Câmara, além de afirmar que os mesmos invadiram a "casa do povo". Tudo isso de maneira pejorativa e preconceituosa. É a expressão clássica do racismo e o etnocentrismo anti-indígena do país, que trata os diversos povos originários como incivilizados, insolentes e desordeiros. Se isso não é racismo, é o quê?

Deputadas, estamos com vocês, eu estou com vocês. A violência política contra mulheres eleitas e que não recuam diante de ataques e retrocessos é constante, mas não deixaremos isso acontecer sem denunciar e repudiar.

Que vocês sigam firmes, se protejam e contem comigo e com muitas outras mulheres, movimentos e articulações! Estaremos lado a lado combatendo cada ato de violência contra as mulheres, contra os povos indígenas e a populações negra. Podem estar seguras: não arredamos os pés nem por um decreto, estamos vigilantes, sempre. E que em breve tenhamos mais parlamentares como vocês ocupando e propondo visões de futuro possíveis.

Só vai ser possível a reconstrução de outro país com a participação de novas lideranças eleitas e com vocês por lá também. Que seja um futuro bonito, com afeto, pé na porta e mais mulheres negras e indígenas na política, e menos homens brancos.

Que venham tempos de mudança e reconstrução e vocês são nosso horizonte.

Um beijo, um abraço enorme em vocês, queridas. Por aqui seguimos atentas e à disposição.

Mariana Belmont.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL