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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Urgência na Terra Indígena Yanomami

Garimpo ilegal nas terras indígenas Yanomami, em Roraima - Chico Batata / Greenpeace
Garimpo ilegal nas terras indígenas Yanomami, em Roraima Imagem: Chico Batata / Greenpeace

Mariana Belmont

20/05/2021 06h00

Faz alguns dias, mas como no Brasil vivemos tempos de memórias curtas, acho que vale lembrar que a capa da Folha de S. Paulo do dia 10 de maio trazia o título "Foto de criança expõe crise na assistência à saúde dos yanomamis", o território sofre com o aumento da malária e com a desnutrição infantil crônica. A foto circulou entre grupos, foi tema de conversas e reuniões, mas já no dia seguinte outro outro assunto grave nos tomava o tempo.

Fazia tempo que eu não via imagens como aquela, acho que nos anos 1990 ou em jornais antigos. A fome e as doenças que pareciam não ser tão preocupantes voltaram a ser o centro da miséria que estampa esse país.

Na mesma semana, uma série de áudios foram transmitidos em grupos de WhatsApp de garimpeiros, que atuam dentro da Terra Indígena Yanomami, indicando a escalada da tensão entre os invasores e as comunidades indígenas. As conversas apontavam para a movimentação de uma "facção" fortemente armada com "fuzis e metralhadoras" no Rio Uraricoera, região mais invadida por garimpeiros em toda a Terra Indígena, localizada entre os estados de Roraima e Amazonas.

No sábado, 15 de maio, o site Amazônia Real publicou uma matéria: "Duas crianças Yanomami aparecem mortas depois de ataque de garimpeiros". Duas crianças.

A grave situação enfrentada pelos yanomami se estende por décadas e é marcada pela crescente invasão do território indígena, que vem acompanhada por violência, contaminação de rios e doenças levadas por garimpeiros. Isso tudo se agravou ainda mais com a pandemia da covid-19, que se alastra exponencialmente pelo território.

O cenário atual já era previsto e alertado constantemente por lideranças e associações indígenas: "A gente sofre muito com a invasão do garimpo desde os anos 1970 e 1980. Os garimpeiros nos mataram, inclusive crianças, como se fôssemos animais. Nossa população reduziu aproximadamente 22%. Há muito anos falamos com todas as autoridades, que já conhecem nossa realidade, já denunciamos até na ONU, mas até agora ninguém deu nenhuma resposta para nós", afirmou o líder yanomami Dário Vitório Kopenawa Yanomami em reunião do Conselho Nacional dos Direitos Humanos(CNDH), em 2020.

Lembrei agora do livro do David Kopenawa "A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami", que já citei aqui em algumas das colunas, onde ele dedica um capítulo inteiro sobre os garimpeiros, que ele chama de "Comedores de Terra":

"São comedores de terra cheios de fumaças de epidemia. Acham-se todo-poderosos mas seu pensamento é cheio de escuridão. Eles não sabem que Yoasi colocou também a morte nesses minérios que tanto buscam. Omama os escondeu para que o choro do luto não nos atormentasse sem trégua. Ao contrário, deu-nos os xapiri, para podermos nos curar. Nós somos seus genros e filhos. É por isso que tememos arrancar essas coisas ruins da terra. Preferimos caçar e abrir roças na floresta, como ele nos ensinou, em vez de cavar seu solo como tatus e queixadas!"

Desmatamento avança na Amazônia

Só durante o mês de março, o desmatamento em Terras Indígenas com povos isolados cresceu 776%, segundo levantamento do Boletim Sirad-Isolados, do Instituto Socioambiental. Esse aumento foi observado comparando março e fevereiro de 2021. As Terras Indígenas Piripkura, Araribóia e Uru-Eu-Wau-Wau, habitadas por povos isolados, foram as mais afetadas pelo aumento do desmatamento e das invasões de criminosos no território.

Em abril, enquanto o presidente Jair Bolsonaro discursava na Cúpula do Clima, o desmatamento na Amazônia Legal atingiu o maior valor da série histórica para o mês dos últimos 10 anos. No mês passado, a Amazônia teve 778 quilômetros quadrados de matas devastadas. Em março, o corte florestal já tinha alcançado outro patamar recorde: 810 quilômetros quadrados. Esses são dados lançados essa semana pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), com base no Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD).

Os dados ainda apontam que as florestas degradadas na Amazônia Legal somaram 99 quilômetros quadrados em abril de 2021, o que representa um aumento de 60% em relação a abril de 2020, quando a degradação detectada foi de 62 quilômetros quadrados. Em abril de 2021, a degradação foi detectada em Mato Grosso (75%), Pará (24%) e Roraima (1%).

Boiada do Salles passando

O que estamos assistindo é a boiada em ação, que atua para desmontar políticas públicas fundamentais para a preservação ambiental e para a sobrevivência de indígenas de todo o país.

Não podemos ter medo de falar que o que está acontecendo é um plano de genocídio para exterminar os povos indígenas. O país já virou uma escória internacional, um país liderado por mentirosos e por pessoas sem a menor humanidade. O racismo ambiental mata!

A foto da criança yanomami na capa do jornal; as imagens da chacina do Jacarezinho; as imagens da fome e do abandono nas periferias; crianças passando fome, crianças sem aula e sem ter como viver em um mundo ideal; o auxílio emergencial que não paga nem metade de uma cesta básica, a falta de vacina; a CPI que virou um reality show; a indicação de tratamento precoce para covid mesmo isso sendo criminoso; os filhos do presidente envolvidos onde não deveriam. A fila da vergonha virou a esquina, transbordou, transbordamos.

Estamos todos tristes, não queremos ver notícias, queremos nos alienar enquanto o país desmorona com a gente dentro. Podemos tentar nos esconder, mas a esteira nos leva para o abismo. Tem semanas que não dá para ser otimista. Afinal, não tem otimismo que vença meio milhão de pessoas mortas, violência policial, indígenas morrendo pelas mais diversas doenças e por fome.

Eu não estou conseguindo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL