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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As mudanças climáticas te assustam?

De bote, bombeiros resgatam ilhados em enchente de São Paulo - RAHEL PATRASSO/REUTERS
De bote, bombeiros resgatam ilhados em enchente de São Paulo Imagem: RAHEL PATRASSO/REUTERS

Mariana Belmont

08/04/2021 06h00

Há um ano escrevi sobre a chegada da covid-19 e sua conexão com as questões ambientais, e sobre no que estamos transformando o planeta. Sim, a pandemia apenas escancarou o desafio do esforço global contra a crise climática.

Há um ano o climatologista Carlos Nobre disse em entrevista algo que penso todas as semanas e replico em conversas: "A Amazônia tem a maior quantidade de microorganismos do mundo. E estamos perturbando o sistema o tempo todo, com populações urbanas se aproximando, desmatamento e comércio de animais silvestres. Então, talvez tenha sido sorte que a pandemia não tenha começado no Brasil."

Um ano depois, podemos dizer: "sorte do mundo não termos sido o país em que começou a pandemia." Sim, nos tornamos (ou melhor, nos tornaram -ele, o desgoverno) uma ameaça mundial. Desemprego, aumento da pobreza e da fome (#TemGenteComFome) - mais do que nunca a desigualdade circula entre nós, nas ruas e nas beiras de rios pelo país.

Não só testemunhamos a dor causada por milhares de mortes, mas também o desamparo de milhões de trabalhadoras e trabalhadores que perderam seus empregos, além das famílias que não têm recursos para enfrentar a fome. Então, como podemos responder à emergência climática quando nos deparamos com crises devastadoras na economia, na política e na saúde?

O Brasil segue ficando muito para trás na luta contra a emergência climática! Estamos reféns de um governo autoritário e negacionista e que, ao que tudo indica, "sequestrou a Amazônia" e está pedindo resgate para países estrangeiros. O desmonte da política ambiental nos colocou fora do final de qualquer lista de importância sobre quem faz alguma coisa para mudar algo no planeta. Uma vergonha sem fim.

Bom, a situação do país que tem se jogado no limbo da história vocês já sabem, está por toda parte.

Nas últimas semanas, por indicação de Ailton Krenak, recomecei a ler "A terra inabitável: Uma história do futuro", do David Wallace-Wells. Fui provocada, e acho que a primeira vez que li esse livro não entendi direito, ou li rápido demais. O jornalista é claro e direto sobre os problemas climáticos que nos aguardam: falta de alimentos, emergências em campos de refugiados, enchentes, destruição de florestas e desertificação do solo. Ele também nos provoca sobre mudanças políticas e culturais que afetarão o mundo nos próximos tempos, uma mudança radical na forma como entendemos a vida.

O livro é sobre a história de devastação que trouxemos a nós mesmos, esse abismo que parece não ter volta, mas é também um chamado à ação.

Escrevo essa coluna depois de semanas pensando sobre o ponto cego em que chegamos, me colocando à disposição para ser ponte na ampliação desse debate e para pensarmos juntos quais os próximos passos. Precisamos urgentemente trazer pra junto os movimentos, pessoas e organizações, além das ambientalistas. O desafio e a pauta é de todos nós: vamos juntos e juntas pensar e construir soluções e as articulações para dar conta dessa emergência.

Não podemos limitar - de novo - a discussão ao círculo de homens brancos. Não podemos permitir que esse debate continue mais próximo dos ursos polares do que das pessoas. Sabemos que não resolveremos nada se não incluirmos a todas e todos - aquela maioria das pessoas, que, em seus territórios, experimentam e sofrem a emergência climática no dia a dia. Sem elas, nada no que propusermos vai funcionar.

E se você me perguntar: quem mais devemos chamar para construir as ideias para adiar o fim do mundo? Todas, todos e todes!

É necessário que a participação dos jovens, já na escola, seja responsabilidade do plano de aula. É responsabilidade das organizações de saúde, educação e de todos os movimentos. Não interessa qual a sua a linha de trabalho na organização ou movimento, é preciso parar e olhar para essa urgência.

Meus amigos assistem filmes sobre mudanças climáticas e ficam chocados com o que tá acontecendo na Antártica, na Amazônia, mas falam como se isso tudo fosse distante, mesmo a Amazônia sendo aqui e agora. Meus amigos não tem medo de morar em cidades litorâneas e não conseguem entender como podem mudar localmente os problemas.

Meu papel será esse: provocar para que o debate seja amplo, planejado e pensado por mais pessoas. Pode parecer bem ousado ou pretensioso, mas essa é a ideia. É necessário repetir e arranhar esse disco até as coisas se movimentarem. A mudança virá a partir de cidades preparadas! Que seus planos sejam de fato participativos.

Muita gente mais experiente na temática de mudanças climáticas vai dizer que não precisa, ou vai dizer que não sabe fazer, ou que tão fazendo. Mas a verdade é que não estamos fazendo com a velocidade e intensidade que precisamos para que o Brasil esteja inteiro atento, esteja inteiro informado. E com informado quero dizer, que a gente possa relacionar essa temática com a vida das pessoas e com o que está acontecendo no planeta terra.

É necessário coragem e consciência! Que bom seria se não houvesse qualquer razão para alarme e desespero, mas há e precisamos sentar juntos para minimizar ainda mais as mortes e as desigualdades sociais.

Por onde começamos?

Em tempo, tinha terminado o texto aí em cima, mas essa semana fomos surpreendidos com a notícia do falecimento do ambientalista e ativista Cássio Freire Beda. Ele desenvolveu a doença de minamata, após ser intoxicado com mercúrio utilizado em garimpos no Rio Tapajós. Cássio atuou em movimentos contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, auxiliando as populações locais na reivindicação dos direitos de atingidos.

O povo Munduruku sofre com o contágio comprovado por mercúrio, causador de doenças degenerativas e muitas outras enfermidades, inclusive no sistema nervoso. O garimpo ilegal gera impactos negativos sobre a natureza que são mais persistentes, prejudicando a floresta e a qualidade de vida das comunidades locais.

O projeto de destruição da Amazônia faz mais uma vítima.

À pergunta "por onde começamos", adiciono "quando começamos?".
Agora!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL