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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O jornalismo periférico escreve a história

Rede Jornalistas das Periferias.  - Arquivo
Rede Jornalistas das Periferias. Imagem: Arquivo

Mariana Belmont

01/04/2021 06h00

Quando eu decidi ser jornalista, ainda estava no ensino médio na Escola Lucas Roschel Rasquinho, na Colônia Paulista, o meu bairro. Em uma das aulas de filosofia do querido professor Rodrigo Rodrigues, escrevi uma redação e ele me devolveu, com muito elogio, um abraço enorme sobre como eu escrevia bem. O meu texto já era político. Na hora pensei em estudar jornalismo, era no meu imaginário o jeito de escrever mais, para outras pessoas e diversos lugares.

O mundo girou: o Lula era presidente deste país, eu me formei com o Prouni (Programa Universidade Para Todos) e sou agora jornalista. O movimento da vida me colocou como agente marginal do Coletivo Imargem, e ali eu conheci a comunicação periférica, o jornalismo feito a partir e para os territórios das bordas da cidade. Toda semana, pegava uma carona com o Thiago Borges, do Periferia em Movimento, do Grajaú ao Capão Redondo, para participar dos encontros semanais ainda sem nome, mas que anos depois se transformaram e se consolidaram como a Rede Jornalistas das Periferias.

Cada jornalista periférico, cada amigo ou aliado que trabalha em tantos territórios diferentes deste país tem uma história de como chegou na tal da comunicação periférica. Cada um é cada um, somos um coletivo de muitas narrativas.

A Rede Jornalistas das Periferias cresce ano a ano, porque não dá conta da complexidade das diferentes periferias da cidade. É uma rede real e possível, que conecta uma multiplicidade de pessoas e coletivos. Não somos uma só voz, somos uma sinfonia, ao mesmo tempo em que somos apenas umas das tantas vozes que ressoam neste país.

Posso citar várias delas, mas neste texto vou me concentrar em duas, não por mérito, mas por limite de caracteres.

Fórum de Comunicação e Territórios
Plataforma política constituída por iniciativas de comunicação de base territorial, o Fórum existe e atua através de espaços de articulação política, da construção de conhecimento e do intercâmbio com diversas experiências de comunicação popular e periférica de outros estados brasileiros. A ideia é aprofundar a discussão sobre a incidência política do fazer comunicacional nas periferias e favelas, também como direito.

E foi ele - o Fórum -, fruto de uma coalizão de coletivos de comunicação atuantes nas periferias de São Paulo, que colocou no mundo a pesquisa "Mapa do Jornalismo Periférico: Passado, Presente e Futuro": um contexto histórico sobre a relação das iniciativas de comunicação com seus territórios de atuação e as políticas públicas.

Narrativas Periféricas

Quando coletivos de São Paulo e do Rio de Janeiro, com características tão diferentes de territórios e de trabalho, se juntam diante de um Brasil em pandemia, o resultado dessa troca é dos mais ricos: a produção de conteúdos jornalísticos sobre a corrupção com um olhar a partir de cada um dos territórios. O objetivo é nos fortalecer entre os nossos e propor caminhos para mudanças a partir da base. Afinal, sabemos que a corrupção é um problema de todos e afeta sobretudo as periferias, que há décadas vêm desenvolvendo tecnologias sociais para contornar seus graves efeitos.

Conteúdos produzidos pelo Alma Preta Jornalismo, Jornal Fala Roça, Agência Palafitas e Periferia em Movimento tomam as redes e convidam o público a conhecer histórias e práticas de participação pública de qualidade nos territórios. A isso, damos o nome de Narrativas Periféricas.

Tá, mas qual o objetivo disso tudo? Criar uma nova forma de falar sobre temas que nos parecem distantes do chão do dia a dia das pessoas e levar esses conteúdos para dentro das casas, das padarias e do bar ali do seu João.

A quebrada comunica

A essa altura do texto, já deu pra entender que o jornalismo e a comunicação produzidos a partir das periferias atuam em conexão com questões estruturais da sociedade, como raça, classe, gênero e sexualidade, sedimentadas sobre os pilares das desigualdades sociais que impactam as periferias e geram inúmeras vulnerabilidades.

E no cenário de terra arrasada da pandemia, com cancelamento de vários trabalhos, era necessário entender como viver ou "sobreviver" da comunicação a partir das periferias. Mas, apesar desse cenário, muitas iniciativas e comunicadores intensificaram as coberturas jornalísticas, com o objetivo de pautar os impactos da pandemia na vida dos moradores e moradoras das periferias da cidade de São Paulo.

Já deu pra entender também que trabalhar em rede é prática! Nós, jornalistas e comunicadores periféricos, fazemos conexões e escrevemos a história a partir da vivência e leitura da rua de casa, ou da rua de cima, ou do terminal de ônibus. Não se engane, somos profissionais de excelência e escolhemos produzir jornalismo a partir de outro lugar.

Isso tudo é parte também do trabalho da Uneafro Brasil, do Instituto de Referência Negra Peregum e da Rede Jornalistas das Periferias: conectar e fazer pontes, formar e fortalecer quem escreve a história do país. Somos muitas e muitos: jornalistas e comunicadores que produzem em rede, se conectam e promovem as transformações que a gente quer no mundo. Criamos elos de confiança e resgate. Uma coisa é certa: a narrativa não se vende, ela se cria a partir da necessidade de contar histórias e buscar novos horizontes.

Além de amigos, parceiros, aliados e companheiros por um mundo melhor, são profissionais com toda a capacidade técnica e política de escrever o que precisa ser escrito. Vida longa ao jornalismo e à comunicação periférica, favelada, popular e comunitária, cada uma com seu olhar para o futuro.

E como diria RZO "Quem é, é, quem não é cabelo avoa..."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL