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O amor não é perfeito como um PF na hora do almoço

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

03/09/2020 04h00

Tem dia que para salvar o mundo precisamos estar abastecidos. E é por isso que escolhi adiar o assunto urgente que abordaria na coluna desta semana, e trazer em seu lugar um tema inusitado: minha vida.

Mentira, eu falo da minha vida o tempo inteiro. Mas hoje trago uma parte dela: as relações. Respiração até travou aí, né? Tô sabendo, mas vamos lá.

Este é um texto escrito com fôlego e medo, afinal, o coração - esse que, aflito, bate uma e outra falha - faz parte de quem somos e dos sentimentos e coisas que a gente não pega com a mão.

Há uma semana, ouvi o Dilemas #52, podcast ótimo de Pedro Fonseca e Lua Barros. Inclusive se você não ouviu, se dê esse presente. Enfim, só sei que ouvi esse episódio 4 vezes nos últimos sete dias. A primeira vez, eu não dormi.

O dilema:"Eu nunca mais vou encontrar um amor?". É amigos, não posso falar pelo mundo inteiro, mas eu penso sobre isso quase todo mês, com ou sem TPM. Com ou sem pandemia, com ou sem tristeza, com ou sem felicidade. Eu poderia ser Valentina - disponível para a vida, mas que segue atravessada.

Não uso aplicativo de relacionamento e não tenho nada contra quem usa, mas eu sou uma mulher gorda, né? As duas únicas vezes que tentei foram horríveis. Nunca namorei, nunca apresentei alguém para a minha família. Uma parte aquariana de mim não liga pra isso, mas outra parte me faz questionar o tal jeito certo das relações.

Do lado de cá, a inexistência dos tais "namoros oficiais" deu lugar a encontros contínuos, mas impermanentes no tempo. Há cerca de oito anos, rolou "algo" com alguém que ia de lá pra cá, me fazendo permanecer, mas desde que essa permanência não cruzasse o limite do "muito perto". E eu permaneci mesmo assim. Essa mesmíssima dinâmica se repetiu. E depois de nove meses de descobertas do corpo, da alma e do coração, acabou, uma curta história de amor e de grandes decepções e sofás vazios. Cheguei a um lugar em que não há mais disposição para desculpas que não cabem. Resumo da ópera: outros tempos e mais conhecimento sobre mim.

O que começo a concluir é que não existe jeito certo. Como resolver isso? Tenho um palpite: em relação. E daí que o status de não-relação, que não ganha nome, nem forma, me faz perguntar: qual o lugar dessa dor no coração da gente? A solidão não é sobre tristeza, eu posso escolher estar só. E diante de uma solidão a dois, em que me senti num eterno vácuo, eu escolhi estar só, mas isso não significa que quero viver assim para sempre.

"Olhar para essa solidão e não ter medo dela, senta ao lado dela. Entende que ela é parte. A gente cria a expectativa do felizes para sempre. Que a gente entenda e acolha essas partes, e quando essa solidão se apresenta que a gente consiga abrir espaço para ela também." - Lua Barros

Esse trecho do Dilemas, me faz parar e refletir. Gosto de ouvir a voz de Lua e Pedro, afinal é como ouvir amigos falando o que pensam sobre algo, sem vontade de largar a conversa, que tá gostosa e tá boa demais para mudar de assunto. O caminho é tão bonito e a chegada dá aquela saudadezinha gostosa pela espera de outros encontros. Entende?

Eu gosto de olhar para dentro, mas há dilemas que nos fazem olhar tão fundo, que nos desafiam. O estômago parece cheio de borboletas mesmo, lembra quando a gente falava isso? E somos inundadas por uma sensação de abertura, que puxa o coração com as duas mãos e o escancara para podermos olhar melhor.

E já parou para pensar em como tudo isso também se reflete na dinâmica da cidade? Eu quero olhar pra dentro e viver em uma cidade que também possibilita esse olhar. Parece romântico, e talvez seja mesmo. Mas é a cidade que possibilita encontros sobre futuro, conversas longas nos bares, o abraço e o olho perto do olho. O encontro de gente que a gente gosta, mas também com gente que pode nos trazer perspectivas de próximas aventuras e descobertas. Talvez em qualquer esquina exista um amor, ou não, mas uma coisa é certa: se olharmos bem, em qualquer esquina está a possibilidade de nos encontrarmos com nós mesmas. Ocupar os nossos lugares no ônibus, ocupar os nossos lugares no trem e no metrô. Inteiras, seguras e infinitamente abertas para horizontes.

Lidar com a gente mesma e com a humanidade não é um PF comprado na esquina, simples e barato, aquela perfeição em forma de alimento. Tem a emoção que a gente não se deixa sentir, tem aquele incômodo que a gente esconde para seguir sem mancar, têm os conflitos familiares, têm as dores do mundo que tomamos para dentro, tem rompimento, tem solidão, têm mentiras para se encaixar. Pensa? Eu passaria horas escrevendo sobre as dores que as relações nos causam ou como são causadas.

Eu não sei nada, só sei das dores que não consigo repetir. E cada vez mais consigo identificar o que faria de novo e o que não sei se faria de novo. Fica a pergunta: será que a gente se maltrata para caber no mundo? Vale a pena?

Mas eu deixei, né? Não temos controle, entende? Mas temos escolhas. Eu deixei e me machuquei. E aí de novo interrompi quaisquer novas possibilidades. Dá um super trabalho se construir depois de um pé na bunda, uma desilusão amorosa, um abandono e quando nada é conversado como deveria. Leva tempo se levantar.

Os homens não estão preparados, alguns devem estar, conheço poucos. É bem difícil tirar a mão dos olhos, se abrir e se responsabilizar. Ser vulnerável e ver o outro entregue é complicado mesmo. Já ouvi julgamentos por ser livre demais ou por beber demais, ou pode lidar com movimentos da vida de forma imperfeita. E ouvir isso de quem se ama, de quem a gente deixa entrar pela porta aberta é doloroso.

Homens preparados, me liguem.

Todas as vezes que alguém sai pela porta, deixa o sofá bagunçado e o copo na mesa sem lavar, eu me perco. Perco horário, perco compromisso, mas volto logo para o que é importante, prendo a respiração, seguro a dor, desde criança eu sempre fui boa de segurar a dor, sabe? Pergunta lá em casa, só avisava quando estava sangrando demais.

Mas fiquei pensando, será que existe acordos prévios? Será que a gente resolve fazendo lista de tarefa de como agir? Será que se assinar contrato, resolve? Será que a gente coloca no freezer?

Não! Não!

Tô aqui arriscando dizer que qualquer dor é incontrolável. Você sente e ponto? Dá para achar caminhos e olhar com profundidade. A grande questão pra mim é quem mais olha pra isso, quem aprofunda o que sente? Os homens estão dispostos?

A questão não é sobre casar e ter filhos, mas sobre se relacionar, sobre incluir o outro na conversa. E vou arriscar a dizer que, diante de tanta escuta surda e projeções, se torna apavorante a ideia de dizer que tenho saudade de um abraço e de dormir conversando com alguém. Porque apesar de querer, o trauma é duro. Tão duro que até o processo de assumir que sentimos falta fica difícil.

"Você precisa ocupar os espaços na sua própria existência, não pede delivery para esse não amor que está sentado na sua sala, não alimenta ele. Esse não amor que está sentado no sofá da sala não vai levantar para ninguém sentar. Você precisa ocupar esse espaço" - Pedro Fonseca

O exercício de escrever de um lugar íntimo é importante. Acredito de verdade que é um movimento urgente e forte, compartilhar nossas dores, experiências e provocações internas. Eu faço pouco, mas faço. A vida aberta, a vida colocada na mesa para olhar por tantos ângulos.

Eu tenho mais perguntas, e acho que nossa vida passa por caminhos tão atravessados. Esperando grandes encontros que sejam menos egoístas, menos medrosos e que sejam mais vulneráveis. Uma vez uma amiga me disse que estar vulnerável é estar inteira disposta a enfrentar todos os sentimentos, e em um lugar isso era bom. Desde então tenho feito esse exercício.

Protagonizar nossas próprias vidas e sentar nesse sofá aí é processo longo, mas é preciso que estejamos dispostas e dispostos a fazer isso. Só dá para enxergar esse lugar depois de muito tempo, não é fácil, dói para caramba, o corpo adormece, o choro chega sem muita forma e vai inundando tudo. A lágrima escorrega sem controle e a garganta seca. Os amigos nos protegem e cuidam, mas com um limite compreensível.

De novo, é muito dolorido se reconstruir. Tem choro para meses dentro da gente, tem conversa para anos, tem reflexões que nos levam a lugares, dão caminhos, mas não solucionam, porque a vida é o tempo todo muitas coisas.

Valentina do Dilema #52, um abraço imenso em você. Fiquei aqui imaginando a gente se conhecendo e conversando sobre tantas coisas. Me reconheço em você, com caminhos e formas diferentes. Mas estamos aqui, inteiras, potentes no mundo, avançando por um mundo melhor. Estamos construindo, e reconstruindo, um lugar no mundo que me orgulho, tentando reparar as rebarbas do tempo e das agruras na terapia. Mas dispostas a ter alguém e viver algo muito massa, nunca perfeito, mas da melhor forma possível. E que pena que não nos conhecemos no 2 de fevereiro, eu também estava lá. Espero um Salvador com você também.

Um dia lendo um post de Peu, ele começava assim "A gente é livre para escrever a nossa própria história. As pessoas são livres para lerem essa história com os olhos que têm...". É bem isso mesmo, Peu. Faz cada vez mais sentido pra mim até aqui. E que bom poder ler e ouvir Lua e Peu, humanos e inteiros, eu aprendo e agradeço.

Não dá para amar o que não nos atravessa, como a letra de Gilberto Gil, não dá pra sorrir com quem não canta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.