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Mariana Belmont

É pela vida de mulheres e meninas

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

20/08/2020 10h17

Começo esse texto sem palavras, e ainda mais triste do que o (novo) normal. Os motivos? Vocês já até sabem: o movimento insano que o mundo vive, o governo genocida e exterminador do nosso país, as mais de 100 mil pessoas mortas, o cansaço do trabalho sem fim que nos adoece.

Hoje lembrei de quando eu fui feliz, faz tempo. Ainda criança, eram poucos os problemas: um acordar cedo aqui, uma lição mais complicada ali, padrinho não deixando ir dar role na rua.

Mas não pensem que eu fui feliz só quando criança, não. Sigo em busca de momentos de felicidade conectados com a realidade existente. Felicidade dos encontros, felicidade de receber amigos em casa, de ir até a casa dos amigos (bar não pode, né? já me conformei!), de beber, de ir ao samba e sorrir por piada sem graça. Feliz em poder sair do Brasil e viajar por outros países da América Latina, feliz. Feliz.

Mas parece que pensar em felicidade agora está suspenso. Não tem brecha, tempo e forma de falar do que nos deixa felizes.

Domingos são em geral dias estranhos, ainda mais com frio. As previsões dizem que vai fazer ainda mais frio, se cuidem. E o último domingo foi devastador. Abri o celular e vi minha amiga Carol Vergolino na luta. A Carol é codeputada das Juntas, mandato formado por 5 mulheres incríveis, em Pernambuco. No vídeo, ela estava na frente do hospital contando os absurdos que uma criança (CRIANÇA) de 10 anos (DEZ ANOS) teve que ouvir ao ser encaminhada para um procedimento de aborto legal em um hospital de Recife.

Carol estava lá e talvez meu texto de hoje seja para ela e para as várias mulheres que saíram de casa em meio a quarentena para espantar o ódio, a infelicidade individual e o fundamentalismo religioso contra uma uma criança.

A menina foi estuprada pelo tio desde os 6 anos de idade. Aos 10, engravidou fruto dos múltiplos estupros. Ao 16/8/2020, foi alvo de acusações criminosas, violentas e virulentas: gritavam "Assassina". A criança ainda teve seus dados vazados nas redes sociais por pessoas irresponsáveis.

Não sei se vocês sabem, mas a interrupção de gravidez em decorrência de violência sexual é legal no Brasil. Está garantida por lei. E eu não me importo com a sua crença. Você acredite no que quiser, mas vivemos, você queira ou não, em um Estado laico. E assim, veja bem, a menina sai do Espírito Santo, viaja quilômetros até o Recife para poder ter seu direito de abortamento legal garantido, é obrigada a ingressar no hospital escondida no porta-malas de um carro, e, durante todo o procedimento, tem que lidar com o fato de ter pessoas rezando hipocritamente para que o aborto não aconteça, acusando, ela, que é uma menina (já disse isso aqui?), de assassina. Todo esse processo já seria muito difícil para uma mulher adulta, agora pára, pensa, imagina a cabeça dessa criança, os impactos na vida dela.

Aqueles gritos de ódio ainda ecoam na minha cabeça. Chamaram uma criança de 10 anos violentada pelo próprio tio de "assassina". E não eram só pessoas hipócritas, lá estavam parlamentares provocando e ameaçando a criança e profissionais de saúde comprometidos com a saúde e a urgência. Gravidez infantil é tortura!

Bianca Santana trouxe de forma brilhante aqui em ECOA. "Diante de tantos temas sensíveis para o governo Bolsonaro, a ministra, mais uma vez, captura a atenção pública para disseminar sua ideologia fundamentalista. O debate colocado não foi sobre aborto, se fosse, quem ocupa a função de ministra em um Estado laico deveria lidar com o dado de que a cada dois dias uma mulher morre por aborto inseguro no Brasil e admitir que esta é uma questão de saúde pública, além de trabalhar para a garantia do direito ao aborto legal de qualquer vítima de estupro."

As imagens daquele cordão humano de mulheres, a certeza que Carol estava lá como parlamentar, mas também como mãe, mulher, amiga e inteira como um ser humano potente que luta diariamente pela defesa dos direitos humanos foi um abraço e a certeza que não estamos sozinhas.

Não é mesmo possível que o Deus, que essas pessoas tanto falam, seja tão perverso. Que não entenda o horror e a anormalidade que é uma criança de 10 anos engravidar depois de um processo violento, que ela teve que viver e reviver por quase metade da sua vida. Não é possível. E se esse Deus for como seus fiéis, é criminoso, mas eu sei que não é. O grande problema das religiões que oprimem, incitam a violência e a falta de informação são as pessoas.

Tenho absoluta certeza que muitas lideranças religiosas, cristãs, se sentiram envergonhadas com aquelas cenas.

Amigos religiosos, não há defesa ou justificativa. É uma criança de 10 anos grávida e que agora vai precisar reconstruir sua vida e contar com o apoio de outras mulheres para não passar por mais tristezas e violências.

As mulheres que estiveram na frente daquele hospital, envio meu amor, meu abraço, meu respeito e meu muito obrigada

Ao Dr. Olímpio Moraes Filho, todo meu respeito e agradecimento pela lucidez e ética.

Só mesmo a fé em algo real, sem preconceito, sem opressão, sem machismo, racismo, lgbtfobia poderá nos salvar do mar de lama e desencontro com o possível.

Sigo triste, sem palavras, prolixa e desejando grandes mudanças com urgência.

Carol Vergolino, obrigada. Sua fé na articulação entre o afeto, humanidade e responsabilidade com a vida das pessoas me torna uma pessoa melhor. Vamos juntas.

Aos fundamentalistas: criança não é mãe! Estuprador não é pai! Aborto legal é direito!

As previsões dizem que vai fazer ainda mais frio, se cuidem.

#NemPresaNemMorta #PelaVidaDasMulheres

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.