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Mariana Belmont

A união da América Latina é uma oportunidade urgente

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

09/07/2020 04h00

O meio ambiente sempre me atravessou. Quando criança, eu era era literalmente um bicho do mato, do acordar ao ir dormir. Meio ambiente era meu espaço de participação ativa, como nos conselhos gestores de unidades de conservação, espaços fundamentais.

Eu nasci em uma região que a questão ambiental perpassa o nosso dia a dia. Nasci em um quintal com terra, muitas e muitas árvores, quase uma mini floresta nos fundos. passeio de final de semana era dentro de unidades de conservação, acampar e dar um pulo ali na cachoeira dos Piolli e voltar. Parelheiros é inteiro assim? Não, mas eu tive o privilégio de nascer em um bairro ainda mais distante da parte mais urbana, e que me possibilitou um isolamento que foi fundamental para a minha criação e todas as escolhas que eu fiz até então.

Do final da infância para o resto da adolescência e vida adulta, convivi, ali mesmo em Parelheiros, com pesquisadores e gestores de unidades de conservação -meus amigos até hoje. Eles e elas me ensinaram a conexão entre o meio ambiente e o debate social, as desigualdades escancaradas ali naquela região, em que a Mata Atlântica convivia com falta de empregos, de áreas de lazer e de transporte público. Tudo isso era absurdamente misturado.

Foram nos conselhos de unidades de conservação e nos encontros para a criação da Área de Proteção Ambiental Bororé Colônia, que eu me vi conectada à realidade daquele território e me coloquei ao lado de lutas que não eram só pela preservação ambiental. Os espaços de participação eram organizados para ouvir líderes comunitários, agricultores, produtores de cultura, cooperativas de trabalhadores de coleta de produtos recicláveis e tantas outras vidas inteiras atravessadas por situações diversas.

Comecei esse texto falando de mim, coisa que sempre faço, porque gosto e acho importante relacionar minha vida e a vida de quem eu conheço com o resto do mundo, é assim que eu construo a lógica da existência e das necessidades do mundo. E comecei assim para fazer um chamado ou um pedido para os ambientalistas ou acadêmicos da área ambiental.

O campo ambientalista brasileiro é pequeno, quase todos se conhecem, eu mesma circulei por lugares, tenho amigos e estive presente em encontros com muitas dessas pessoas. Aprendi e aprendo com elas diariamente, mesmo ainda me sentindo excluída do clubinho, assim como muita gente que gostaria de estar mais perto e entender, mas encontra barreiras. Talvez eu tenha sido das poucas pessoas que chegaram tão perto.

Acho que a essa altura, já entendemos que estamos vivendo em um pedaço do tempo que não sabemos o que será e como construir horizontes. Então talvez seja a hora de revermos as formas de fazer e nos organizar. Falei sobre isso aqui há umas semanas atrás. Ouvir é ouro, fazer junto é valioso e dar espaço para outras movimentações é necessário.

Dito isso, venho até aqui fazer um chamado.

Essa semana ganhou o mundo o Nossa América Verde, movimento da sociedade civil organizada, que apresenta um Plano de Recuperação Econômica com Justiça Social e Ambiental 2020-2030 e articula uma coalizão política latino-americana para colocar em prática medidas concretas voltadas ao apoio imediato às populações mais impactadas pela emergência climática e a pandemia do Covid-19.

Entre as propostas do Plano estão a criação de imposto sobre a riqueza para os mais ricos e a cooperação fiscal entre os países; uma coalizão global do sul contra paraísos fiscais; renda básica emergencial às famílias vulneráveis durante a crise; e a construção de 25 milhões de moradias sustentáveis.

Com reivindicações urgentes em 14 áreas, o objetivo é aplacar as mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, reduzir as desigualdades que vêm se tornando ainda mais profundas com a pandemia de Covid-19, garantindo a qualidade de vida da população. A meta é uma transformação produtiva baseada no realismo científico, na cooperação latino-americana e na justiça social - os três pilares de um programa que valoriza a colaboração acima da concorrência e defende a necessidade de uma estratégia conjunta entre os países da região.

O Nossa América Verde já está presente no Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia e Guatemala, com a meta de alcançar muito em breve toda a América Latina. Além disso, toda a sociedade civil - cientistas, economistas, ativistas, lideranças políticas e sociais de toda a região - está convidada a colaborar com o conteúdo, fazendo recomendações, sugestões e melhorias, por meio da plataforma de consulta pública. O Plano de Recuperação 2020-2030 está disponível no site do movimento.

Não podemos fazer um retorno ao passado pré-pandêmico, precisamos apostar radicalmente numa retomada econômica baseada na construção coletiva, antirracista e liderada pelos povos e comunidades tradicionais, pela periferia, urbana e rural na preservação da vida e no bem-estar comum.

É hora de nossos países entenderem que as políticas públicas precisam ser orientadas pela ciência e que a justiça ambiental requer justiça social e combate ao racismo ambiental. Por isso, convocamos nossos governos a se comprometer com um futuro justo e sustentável para as próximas gerações. Convocamos também a força e a presença da sociedade civil organizada: entrem, participem e tragam olhares ainda mais coletivos e fundamentais para construção de futuros justos.

Na realidade do Brasil, que hoje possui o pior ministro do Meio Ambiente da história, que institui o "estouro da boiada" no desmatamento da Amazônia e desmonte de todas as políticas ambientais e de participação do país, esse chamado é ainda mais urgente. Está claro que a proteção das florestas, dos povos e comunidades tradicionais e a redução das emissões não é prioridade do governo brasileiro. Por isso, e por tantas outras, precisamos agir!

Vamos continuar como antes ou vamos começar a romper com a condução neoliberal e negacionista do Estado que negligencia necessidades básicas para a população, como temos visto acontecer com a saúde? E enquanto a pandemia não para de avançar, o presidente da república apresentou, nessa semana, diversos vetos ao PL1142, em que nega, por exemplo, acesso à água potável e materiais de higiene aos indígenas, quilombolas e populações tradicionais.

Apenas o básico.

É hora de sermos cada vez mais generosos nas novas construções, é hora de nos aliarmos para que o futuro seja de fato coletivo, com possibilidades de horizontes construídos pelo meu primo, minha tia, meu padrinho. Que eles e todas e todos também façam parte do plano de recuperar nossa existência e tentar minimizar os danos que causamos no mundo.

E para que isso seja feito, vamos precisar romper barreiras geracionais, ouvir, respeitar as diferenças e caminhar juntos. A única certeza neste momento terrível que estamos vivendo é que o fazer coletivo - com respeito às raízes e lutas de todas e todos aqueles que nos trouxeram até aqui - é um dos únicos caminhos possíveis. Será bem importante ter vocês fazendo isso junto. Vamos?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.