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Precisamos ter eleições em 2020, mas que sejam seguras e transparentes

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

25/06/2020 04h00

Sempre que penso sobre eleições me lembro de quando era criança na Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo. Desculpem, é inevitável não lembrar de como era por lá, muitos showmícios, muitos brindes. Até hoje meu padrinho limpa o quintal aos finais de semana com uma camiseta de político - não podemos negar que o tecido era bom naquela época. A gente que cresceu em tantas periferias das cidades sabe bem qual é a forma que a política institucional chega em nossas ruas.

Uma pena, o potencial de transformação e engajamento poderia ser muito mais transformador. Mas o imaginário da maior parte das pessoas é uma política ligada e movimentada a partir da troca ou de uma espera sem fim por algo como: "um poste de luz na rua de casa para minhas filhas chegarem em segurança em casa".

Eu cresci e me aproximei muito da política institucional, principalmente em um movimento de transformação para ocupação de novos corpos no espaço de decisão, algo sempre urgente. Aprendi a olhar para o passado com mais responsabilidade e entender que muitos que vieram antes de nós construíram de forma muito dura e com muita luta caminhos para muitos dos nossos direitos conquistados. Que felicidade ainda conhecer alguns deles e presenciar a chegada de tantos outros, ainda que poucos, mas necessários. São esses direitos que nos dão horizonte para pensar em transformação e dias melhores, mesmo dentro de uma conjuntura difícil e que não nos ajuda a sonhar.

A sensação pós eleições de 2018 é de "terra arrasada". Presenciamos um acentuado descrédito da sociedade na política, o que enfraquece ainda mais a já capenga democracia brasileira. Dentro da lista de desafios com que precisaremos lidar com urgência está a importância de olharmos para as eleições municipais de 2020.

Como temos visto nos jornais, na TV, nas redes sociais e nesta coluna, a pandemia da Covid-19 impôs movimentos radicais no cotidiano do mundo, com picos "vai e vem" de casos e mortes, especialmente no Brasil.

Para salvar vidas, a rotina precisou ser reinventada. Mudamos a dinâmicas de reuniões de trabalho, encontros, rotina de circular pelas ruas e de como realizamos nossas atividades cotidianas. Individual e coletivamente, não há saída senão abrir mão de muitas coisas que nos são caras e importantes para a vida em sociedade.

Da atuação dos médicos na linha de frente do combate ao coronavírus, a ida ao mercado ou ao trabalho do cidadão comum, todas as atividades consideradas essenciais tiveram que encontrar uma forma segura de serem realizadas.

Em 2020 temos eleições municipais no Brasil. Mais de 5.570 municípios irão escolher seus representantes ao Executivo e Legislativo locais.

Precisamos reafirmar a importância do voto e da escolha de nossos representantes. É urgente novos mandatos nas cidades, se quisermos enfrentar com responsabilidade e seriedade a crise que atravessa o país, e, principalmente, projetar futuros melhores e mais humanos nos municípios. Isso porque é nas eleições que a gente avalia o que passou e planeja, junto com os novos mandatos, um futuro coletivo.

É por meio das eleições que diferentes visões, ideias e projetos de país se expressam e que a sociedade decide sobre qual caminho seguir. E é a partir delas que temos oportunidade de eleger candidaturas com as quais nos identificamos, na busca por uma sociedade antirracista e menos desigual para as periferias, territórios tradicionais e povos da floresta. Com representantes que sejam iguais a maioria da população brasileira, no Executivo e no Legislativo.

A construção da política que queremos é fundamental, principalmente neste ano, em que o pleito é para os representantes municipais. Ou seja, aqueles cujas decisões impactam o nosso cotidiano da forma mais direta. Na rua, no atendimento básico no posto de saúde, no melhor transporte para circular pela cidade. Somente assim poderemos colocar a participação social como central e sonhar com uma cidade mais humana, planejada das margens para as centralidades - do chão de terra para o asfalto.

Somente assim, poderemos começar 2021 com mandatos comprometidos em dar prosseguimento às políticas de combate ao coronavírus e à retomada das nossas vida social e econômica. Prefeitas, prefeitos, vereadoras e vereadores que defendam e fortaleçam SUS, uma conquista importante e que precisa ser valorizada.

Eleições é, mais do que nunca, atividade essencial a qualquer sociedade democrática. É por meio delas que aprovaremos ou rejeitaremos as ações de prefeitos e vereadores no combate à pandemia.

Pensando nisso, no último dia 15 de maio, organizações da sociedade civil lançaram a campanha "Eleições Seguras - Democracia é atividade essencial".

O manifesto defende que as eleições podem (e devem!) ser feitas em segurança seguindo algumas medidas: determinação de horários de votação preferenciais aos cidadãos pertencentes aos grupos de risco e a criação de protocolo de higienização constante dos ambientes e materiais utilizados durante a votação.

As campanhas eleitorais em 2020 devem ainda garantir a representação de grupos e movimentos que representam grande parte da população estejam de fato incluídos na corrida eleitoral. Sabemos que diante do cenário atual, candidaturas negras, periféricas e de mulheres serão ainda mais impactadas pela falta de campanhas de ruas, disputa de espaço, recursos e visibilidade.

Essa semana o adiamento das eleições municipais de 2020 por causa da pandemia foi pauta no Congresso Nacional. O Senado aprovou,, na terça-feira (23), o texto da Proposta de Emenda à Constituição 18/2020 (PEC) sobre o tema, propondo que o pleito se realize nos dias 15 e 29 de novembro, primeiro e segundo turnos, respectivamente. Agora a discussão segue para Câmara dos Deputados e corre sérios riscos de adiamento.

As cidades precisam das eleições, precisam eleger novos representantes para enfrentar a crise e começarem uma retomada para a reconstrução dessa "terra arrasada". Não é possível mantermos mandatos por mais tempos, beira o absurdo e a incoerência, já que o país se coloca como um país democrático, mesmo sabendo que estamos longe de ter democracia plena para toda a população.

É preciso mudança, chegamos hoje na marca de 1.188.631 casos confirmados, 53.830 mortes notificadas. Se a União não assume a responsabilidade devida perante a crise sanitária e das desgraças diárias que estamos vivendo, que as cidades o façam! Está em nossas mãos. Que possamos eleger representantes que façam sentido para nossas lutas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.