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Mara Gama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cortar metano é via mais rápida para atingir meta do Acordo de Paris

Cientistas asseguram que a subida nos níveis de metano na atmosfera se deve também às emissões geradas por atividades humanas, como a agricultura - Getty Images/BBC
Cientistas asseguram que a subida nos níveis de metano na atmosfera se deve também às emissões geradas por atividades humanas, como a agricultura Imagem: Getty Images/BBC

Colunista do UOL

23/09/2021 06h00

O planeta está mais quente e o aquecimento mais veloz. Em agosto, o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) alertou que o planeta deve atingir a marca do 1,5 °C acima do nível pré-industrial já na década de 2030, dez anos antes do que se supunha. O relatório mostrou que são necessárias ações que obtenham resultados rapidamente para manter a meta estabelecida pelo Acordo de Paris. Entre as medidas importantes está a redução das emissões de metano.

O alerta confirmou o que havia sido apontado em outro relatório da ONU de maio: que o corte de metano seria a maneira mais rápida e eficaz de reduzir a taxa de aumento da temperatura global.

No dia 17 de setembro, Estados Unidos e União Europeia anunciaram um pacto para reduzir o metano emitido em 30% (com base nos níveis de 2020) até 2030. Calcula-se que se a medida fosse adotada no mundo todo, o aquecimento global poderia ser reduzido em 0,2° C até a década de 2040.

Cortar metano gera resultado mais rápido que reduzir as concentrações de CO2. O dióxido de carbono permanece na atmosfera por muito tempo. Mesmo com redução drástica e imediata, os efeitos demoram a aparecer. Já no caso do metano, dez anos são suficientes para que se decomponha.


O pacto entre Estados Unidos e União Europeia, que deve ser lançado para a adesão dos demais países durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021, a COP-26, em Glasgow, marcada para começar em 31 de outubro, foi considerado um dos passos mais significativos até agora para cumprir o Acordo de Paris.

Foi tratado como a "última esperança para manter o planeta seguro" pelo presidente do Instituto de Governança e Desenvolvimento Sustentável (IGSD), Durwood Zaelke, em entrevista ao The Guardian. O IGSD atua na promoção de sistemas eficazes para o desenvolvimento sustentável e se concentra na redução de poluentes climáticos não-CO2, os chamados poluentes climáticos de vida curta como hidrofluorocarbonetos, carbono negro, ozônio troposférico e metano.

O metano é um gás de efeito estufa que retém cerca de 80 vezes mais o calor na atmosfera que o dióxido de carbono e tem sido responsável por cerca de 30% do aquecimento global desde a época pré-industrial.

Segundo dados da agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos, mesmo quando as emissões de dióxido de carbono desaceleraram por causa da pandemia em 2020, o metano cresceu e bateu as 400 milhões de toneladas. Além disso, o gás é que mais contribui para a formação do ozônio ao nível do solo, outro gás do efeito estufa altamente poluente.

Entre as atividades geradoras estão a pecuária, a produção de gás natural, vazamentos na indústria de combustíveis fósseis, a cultura do arroz e a má-gestão dos resíduos.

Para reduzir as emissões, portanto, é necessário agir em todas essas frentes. Reduzir a proporção de proteína animal na dieta humana é a mais evidente. Mas não é suficiente. As emissões provenientes de esterco e liberações gastroentéricas do gado são responsáveis por cerca de 32% das emissões de metano das atividades econômicas. Há pesquisas para uso de rações diferentes e o uso do esterco para compostagem e geração de biogás é uma alternativa importante que vem sendo considerada.

Na agricultura também há emissões substantivas. O arroz cultivado em campos inundados (chamado de arroz em casca) é responsável por 8% das emissões relacionadas à atividade humana. Nesse caso, estão sendo estudadas alterações na forma de drenagem e irrigação das áreas de cultivo para reduzir a formação de bactérias que originam o gás.

O fim dos lixões e a implantação de sistemas de captura nos aterros sanitários são fundamentais para diminuir emissões de metano.

Mas é no corte do metano fóssil que o pacto dos Estados Unidos e da União Europeia pode ter mais dificuldade de avançar. Vazamentos na produção de petróleo requerem regras mais duras de fiscalização e investimentos em processos novos. Os poços de fracking -- fraturamento hidráulico, o sistema de perfuração horizontal das rochas para extração de gás natural -- são grandes geradores de metano. E o gás natural vem sendo vendido como alternativa verde para a descarbonização da economia. Será um bom debate.