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Mara Gama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Campanha "Chega de Fome" da Gastromotiva quer alimentar 2 milhões

Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

08/04/2021 06h00

O isolamento provocado pela pandemia aumentou o alcance da Gastromotiva. A iniciativa de educação alimentar e culinária que já formou 6.000 jovens profissionais da cozinha desde 2012 se expandiu em embriões de pequenos negócios através de seus alunos e ex-alunos a partir de março de 2020.

Em suas casas, com cardápios diários feitos e divulgados online pelo Refettorio Gastromotiva que fica no Rio, provisão de insumos, embalagens, equipamentos, luz, gás, internet, renda e o know-how aprendido na escola, os novos cozinheiros passaram a atuar em suas comunidades, cozinhando e distribuindo refeições gratuitas.

Já são 33 pontos, 32 no Brasil e um no México, chamados de Cozinhas Solidárias, no Rio, São Paulo e Curitiba, servindo 1,5 mil refeições semanais. Alguns fazem comida três vezes por semana, outros mais. Cada um escolhe seu público, em geral nas vizinhanças de suas casas, forma de distribuição e quantidades.

David Hertz - Divulgação/Gastromotiva - Divulgação/Gastromotiva
David Hertz e Juan Pilotto - Cozinha Solidária Gastromotiva + Junta Solidária - Santa Teresa, RJ
Imagem: Divulgação/Gastromotiva

O Refettorio, que abriu em 2016 e onde funciona a cozinha escola central e os cursos, segue servindo 600 jantares nos dias de semana a pessoas em situação de vulnerabilidade. No último ano, se transformou também num banco de alimentos, recebendo doações de empresas e fornecedores e distribuindo para outras instituições como o Covid Sem Fome e o Projeto Ruas, por exemplo, ambos da região central do Rio. O número de instituições conectadas passou de 12 a 60 em um ano. Por mês, são servidos em torno 70 mil quentinhas com os dois braços da Gastromotiva.

Cozinhas solidárias

Gastromotiva - Divulgação/Gastromotiva - Divulgação/Gastromotiva
Daniele (ex nutricionista Gastromotiva), David Hertz, Claudia Queiroga, cozinheira solidária e sua família - Cozinha Solidária Gastromotiva ,Engenho da Rainha (RJ)
Imagem: Divulgação/Gastromotiva

"Em março de 2020, uma das nossas cozinheiras, Milena Pimenta, nos ligou querendo saber se podíamos doar material para ela fazer em casa lanches para 200 crianças que não estavam indo à escola e não tinham onde comer. E foi daí que nasceram as cozinhas solidárias", conta David Hertz, chefe, idealizador e presidente da Gastromotiva.

"Seus líderes são mães-solo, cozinheiros ou empresários que perderam sua renda e transformaram suas cozinhas para servir refeições nos seus bairros, comunidades", diz.

Seis meses após esse movimento ter começado, a Gastromotiva abriu um curso de empreendedorismo social para auxiliar a formação dessas pessoas.
"Para nós da Gastromotiva, a refeição não é só uma quentinha. É uma forma de estar dentro da comunidade com nosso projeto, de o nosso aluno virar agente comunitário", diz Hertz. "Toda quentinha tem ao menos um ingrediente orgânico de um produtor que a gente apoia, tem receita que combate o desperdício de alimento, nossa embalagem é mais cara, mas é reciclável. Estamos vendo a distribuição das quentinhas como um novo braço de desenvolvimento integrado nas comunidades", afirma.

As refeições são servidas em embalagens de material biodegradável. O descarte não é controlado pela Gastromotiva. "Elas são comidas na rua, debaixo da ponte, algumas são levadas para as casas. A gente tem o compromisso de educar e que nossos alunos sejam multiplicadores, mas seria arrogância e presunção dizer que eu sei onde vai ser o fim da quentinha de quem come na rua", diz Hertz.

"Temos implementado um serviço de coleta e compostagem no Refettorio Gastromotiva e estamos trabalhando em uma cartilha educativa e parcerias para aprimorar nosso descarte de embalagens e ampliar nossa redução do impacto ambiental", afirma.

A meta da Gastromotiva é ter cozinhas solidárias também em Salvador e Manaus este ano e terminar 2021 com 108 delas operando e alimentando 1,5 milhão de pessoas. Com mais 500 mil pessoas sendo servidas pelo banco de alimentos, a organização espera alimentar 2 milhões de pessoas.

Mas se o movimento de pulverização das ideias e do modo de alimentação da Gastromotiva cresceu, houve uma diminuição de 66% de doações no período da pandemia. Por isso, a ONG lançou a campanha Chega de Fome para arrecadar fundos. Os valores arrecadados, via pix ou da plataforma online de doação via site, serão aplicados nas Cozinhas Solidárias e no banco de alimentos. A campanha pretende levantar R$ 500 mil em doações de pessoas físicas.