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Mara Gama

Lei e flores 3D para proteger abelhas

Mamangava em flor do projeto "Insectology: Food for Buzz", Atelier Boelhouwer - Janneke van der Pol
Mamangava em flor do projeto "Insectology: Food for Buzz", Atelier Boelhouwer Imagem: Janneke van der Pol
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

29/10/2020 04h00

A Câmara de vereadores de Florianópolis (SC) aprovou no fim de setembro o projeto de lei 17834/19 de proteção às abelhas nativas sem ferrão. Além de produzirem mel, espécies como jataí, manduri, mirim e mandaçaia, entre tantas outras, são de fácil manejo, funcionam como indicadoras da qualidade do ar, da água e do solo e fertilizam culturas de alimentos e de plantas silvestres. Mais de 30 cultivos agrícolas são beneficiados por essas abelhas no Brasil, segundo a Embrapa. O Brasil tem cerca de 400 espécies.

A importância das abelhas para a economia do planeta é enorme. A diminuição de suas populações afeta a biodiversidade, prejudica a produção de alimentos, altera o sistema de controles de pragas. Mesmo as espécies de plantas comestíveis que podem ser cultivadas com autofecundação se beneficiam da polinização cruzada, executada por abelhas. Os frutos ganham mais peso, uniformidade e durabilidade.

Mas a sobrevivência das abelhas está ameaçada pela urbanização, por desmatamentos, queimadas, o uso indiscriminado de agrotóxicos e outros químicos voláteis e o aquecimento global.

Abelhas Jataí,  usadas na polinização cruzada do morango no Brasil - Marcos José de Abreu - Marcos José de Abreu
Abelhas Jataí, usadas na polinização cruzada do morango no Brasil
Imagem: Marcos José de Abreu

A criação de abelhas sem ferrão vem crescendo no Brasil, para obtenção de mel, por hobby ou para educação ambiental. É possível comprar caixas - com preços que vão de R$ 150,00 a R$ 400 em média - e fazer cursos sobre captura e manejo. A Embrapa Meio Ambiente tem ótimos tutoriais online gratuitos.

Esse crescimento de interesse é importante para a pesquisa e a conservação das variedades nativas. Há um mercado enorme ainda inexplorado para o mel, o pólen, o própolis e a polinização agrícola contratada.

Agora, Florianópolis se torna a primeira capital brasileira a fazer da proteção delas uma lei. Só a lei não resolve, claro, mas cria respaldo para outras políticas de defesa contra a degradação ambiental.

"O arcabouço legal que estamos construindo aqui na cidade é fundamental para uma transição agroecológica", defende Marquito, Marcos José de Abreu (PSOL), autor da lei. "O primeiro passo que demos para maior preservação das abelhas foi a lei que institui a Ilha de Santa Catarina uma zona livre de agrotóxicos, já que os agrotóxicos e outros químicos sintéticos são os principais inimigos delas", afirma.

Jardim de Mel de Curitiba (PR), no Parque Tingui, com caixas de diferentes espécies de abelhas sem ferrão - Secretaria Municipal de Comunicação Social de Curitiba (PR) - Secretaria Municipal de Comunicação Social de Curitiba (PR)
Jardim de Mel de Curitiba (PR), no Parque Tingui, com caixas de diferentes espécies de abelhas sem ferrão
Imagem: Secretaria Municipal de Comunicação Social de Curitiba (PR)

O projeto incentiva a implantação de Jardins de Mel - que já existem em Curitiba, por exemplo, desde 2017. São áreas onde são colocadas caixinhas de madeira que abrigam colônias de abelhas. Nesses jardins devem ser plantadas espécies adequadas para a polinização, e painéis educativos.

Essas estruturas podem ser instaladas em parques, unidades de conservação, centros de saúde, escolas. O objetivo é que esses locais públicos divulguem informações sobre a importância das abelhas para a biodiversidade da flora e da fauna nativas e despertem o interesse pela polinização urbana.

"A ilha de Santa Catarina tem 34 espécies nativas de abelhas sem ferrão que podem ser manejadas. Nos últimos anos, elas foram sendo expulsas pela destruição da Mata Atlântica", diz Marquito. "Hoje em dia, Florianópolis tem áreas com características rurais que estão sendo cultivadas em hortas, produzindo cestas de alimentos para venda na cidade. Então, temos essa aptidão, essa capacidade e temos território para elas", afirma.

"A lei, impulsionada pelo interesse das pessoas nessa preservação, cria uma mensagem importante de que, mesmo nesse momento de retrocesso das políticas ambientais e da democracia, é possível caminhar para soluções novas", diz.

Abelha em flor artificial do projeto "Insectology: Food for Buzz", Atelier Boelhouwer - Janneke van der Pol  - Janneke van der Pol
Abelha em flor artificial do projeto "Insectology: Food for Buzz", Atelier Boelhouwer
Imagem: Janneke van der Pol

A cerca de onze mil quilômetros de distância de Florianópolis, a Semana de Design da Holanda, em Amsterdã, premiou o Atelier Boelhouwer por um projeto dedicado a alimentar um grupo de agentes ambientais altamente especializado que está ameaçado de morte por toda parte.

"Insectology: Food for Buzz" é uma coleção de flores artificiais que serve comida para as chamadas "cinco estrelas da polinização": abelhas, mamangavas, moscas de flores, borboletas e mariposas.

Lançado há dois anos para combater o declínio da população de insetos, o projeto está em desenvolvimento e foi premiado na edição 2020 da semana de design, que terminou dia 25 de outubro.

Na justificativa do projeto, a designer Matilde Boelhouwer afirma que nos últimos 27 anos a população de insetos diminuiu 75% nas áreas rurais e urbanas da Alemanha e que esse declínio se deve ao uso de agrotóxicos, às mudanças climáticas e à falta de habitat e alimento para os insetos.

"As flores evoluíram para servir insetos e os insetos evoluíram para servir flores. Hoje, nas selvas urbanas feitas de concreto e pedra, a falta de flores resultou em declínio drástico dessas populações", escreve.

Para desenvolver as flores artificiais, Matilde reuniu uma equipe formada por um entomologista, um botânico, dois engenheiros, sendo um deles especializado em mecantrônica, e um fotógrafo de vida selvagem.

As flores são compostas de pétalas de poliéster impressas e cortadas a laser, com um pequeno recipiente impresso em 3D no centro, conectado a uma haste oca. O recipiente coleta a água da chuva, que é transportada pelo caule até um minitanque de açúcar, onde ocorre a mistura. A água com açúcar é então bombeada de volta e fica disponível para os insetos. São feitas para durar 10 anos. A pesquisa segue em busca de materiais mais ecológicos, segundo a designer.

Borboleta em flor artificial do projeto "Insectology: Food for Buzz", Atelier Boelhouwer - Janneke van der Pol  - Janneke van der Pol
Borboleta em flor artificial do projeto "Insectology: Food for Buzz", Atelier Boelhouwer
Imagem: Janneke van der Pol

Cada flor tem qualidades visuais e anatômicas específicas. Os recipientes são ajustados ao comprimento das línguas dos insetos, as pétalas são coloridas e estampadas nas formas e tons que eles consideram mais atraentes.

As flores para as abelhas são em tons de azul e amarelo e pixeladas especialmente para os olhos do bicho. Como as borboletas têm línguas mais longas e precisam de mais tempo para se alimentar, as flores delas - em rosa, laranja e vermelho - têm pétalas maiores para que possam se apoiar enquanto sugam.

As flores artificiais não pretendem substituir as flores reais, mas ser colocadas em fachadas de edifícios e locais onde não é possível cultivar as naturais.

Ao justificar o prêmio, o comitê julgador disse que neste produto "a pesquisa de design está em seu elemento", por ser um "trabalho científico em andamento que, ao longo do caminho, se materializa de forma esteticamente agradável e escalável".

Errata: o texto foi atualizado
O Jardim de Mel fica no Parque Tingui, em Curitiba (PR), não no Parque Barigui. A informação na legenda da foto foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.