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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Livro sem letras': a inclusão indígena literária das autoras Tremembé

A obra "Livro sem letras" (Editora Caixeiro Viajante de Literatura, 2021) - Arquivo pessoal
A obra 'Livro sem letras' (Editora Caixeiro Viajante de Literatura, 2021) Imagem: Arquivo pessoal
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

22/12/2021 06h00

O "Livro sem letras" (Editora Caixeiro Viajante de Literatura, 2021), de autoria de Telma Pacheco Tãmba Tremembé e Beatriz Pacheco, mulheres indígenas pertencentes ao povo Tremembé do Ceará, é um projeto literário voltado para a inclusão indígena dos não alfabetizados em língua portuguesa.

Divide-se em dois: o primeiro exemplar emprega a linguagem não verbal, desenhos e pinturas das autoras sobre "cenários e costumes dos Povos Originários do Ceará"; o segundo, intitulado "Territórios dos povos indígenas do Ceará", é um conteúdo escrito alfabeticamente e se chama "Livro explicativo", cujo objetivo é trazer informações gerais "sobre os Povos Originários do Ceará, seus territórios, costumes e cenários". Este último busca ser um suporte de mediação das imagens do "Livro sem letras".

O "Livro sem letras" destinou-se à mediação e ao diálogo entre "as pessoas detentoras da memória empírica da cultura nativa", isto é, os mais velhos indígenas que majoritariamente não têm a alfabetização verbal em língua portuguesa, mas detêm os conhecimentos imemoriais e culturais de seus povos, e os mais jovens, que já têm a alfabetização, porém, não têm os conhecimentos ancestrais. Sobre escrita alfabética e outras grafias entre os povos indígenas, relembre meu artigo sobre a escrita Baniwa aqui: "A escrita Baniwa sempre existiu".

Sobre as autoras: Telma Pacheco Tãmba Tremembé é escritora, mediadora de leitura pela Universidade Aberta Demócrito Rocha, contadora de história, artesã e atleta. É técnica em contabilidade, agricultora, mãe e esposa. Beatriz Pacheco é escritora, artesã de biojóias, pratica pintura corporal indígena e agricultura familiar, é militante da causa indígena, da natureza e igualdade racial.

Dedicado ao pai Francisco Pacheco de Oliveira, Telma retrata o drama do alfabetismo funcional num país dominado pelos livros e pela escrita alfabética. Em seu depoimento, ela retrata a vontade do pai de saber de que tratam os livros: "O livro sem letras é um sonho realizado, pois durante muito tempo vi meu pai, parentes e pessoas que não sabem ler, folheando livros, procurando figuras, para saber sobre o que falava aquele livro, ou pedindo para que alguém lesse um pouco, para saber da história".

Segundo o IBGE (2010), a média nacional é de que a cada 10 brasileiros não indígenas, 1 é analfabeto; a cada 10 indígenas brasileiros em Terras Indígenas, 3 são analfabetos. Não consegui identificar dados dos indígenas que vivem em contexto urbano, mas de acordo com o site do Estadão, os indígenas que vivem fora das T.I, a proporção cai para 14,5%. Você pode ler a matéria aqui.

A importância de produzir livros que se preocupem com a inclusão dos mais velhos e das pessoas não alfabetizadas em língua portuguesa, sobretudo no que tange aos indígenas, denota uma preocupação com as culturas indígenas no estado do Ceará. Os conhecimentos imemoriais, as referências nos modos de vida indígena, acessíveis aos mais velhos no "Livro sem letras", são um material suporte na transmissão desses saberes para os mais jovens. Esta é uma valiosa iniciativa das autoras para valorizar ainda mais os anciões, detentores dos conhecimentos ancestrais e pilares dos povos indígenas.

Como adquirir a obra?

Para adquirir o "Livro sem letras" basta entrar em contato com a autora Telma Tremembé nas suas redes sociais:
Facebook: Telma Tremembé Artesã Indígena
Instagram: @telmapch.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL