PUBLICIDADE
Topo

Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Reencantando o calendário: eventos para acompanhar no Abril Indígena

Eventos celebram o Abril Indígena - Montagem/Julie Dorrico
Eventos celebram o Abril Indígena Imagem: Montagem/Julie Dorrico
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

07/04/2021 06h00

A demarcação das telas é mais um capítulo na história de luta e resistência dos povos indígenas do Brasil. Há no país diversos indígenas comunicadores, jornalistas e atuantes na causa em defesa de seus direitos que têm usado canais alternativos nas áreas do audiovisual, rádio, mídias online como ferramentas interativas para fortalecer a participação de sujeitos indígenas na produção cultural, bem como conscientizar a sociedade dominante e não indígena sobre a pluralidade de povos étnicos e suas respectivas lutas, durante o calendário anual.

Para os povos indígenas, porém, abril marca o mês da resistência, pois, a celebração do dia 19 de abril, instituída desde 1943, em vez de ser pauta para reflexão e defesa dos povos originários, tem sido usada na educação e cultura nacionais como atividade para deslegitimar agendas políticas e culturais nativas.

A origem da data

Convém esclarecer que a data foi escolhida por vários indígenas de etnias e países diferentes reunidos, na cidade de Pátzcuaro (México), no Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, no ano de 1940, para reivindicar medidas em defesa dos povos indígenas das Américas.

Os indígenas buscavam compromisso dos países para com os povos indígenas. O resultado do Congresso foi genérico, mas contribuiu para o avanço dos direitos como "respeito à igualdade de direitos e oportunidades para todos os grupos da população da América", "respeito por valores positivos de sua identidade histórica e cultural a fim de melhorar a situação econômica", "adoção do indigenismo como política de Estado" e "o Dia do Aborígene Americano em 19 de abril", que foi adotado no Brasil pelo Decreto-Lei nº 5.540, em 2 de junho de 1943, como "Dia do Índio".

A data de 19 alude ao dia em que finalmente os indígenas aceitaram estar de fato no Congresso, que se realizava entre os dias 14 e 24 de abril, pois os primeiros dias foram marcados por protestos coletivos aos organizadores do evento, que não haviam garantido até então, participações efetivas dos indígenas junto aos outros líderes políticos dos países convidados. Além dos líderes políticos havia muitos representantes nativos, menos no Brasil, que por defender a política da integração e tutela, enviou, como se poderia esperar, o antropólogo e etnólogo Edgar Roquette-Pinto.

Abril Indígena - Eventos para acompanhar e interagir

Julie - Julie Dorrico - Julie Dorrico
Julie Dorrico organiza o "Abril Antirracista: a Literatura Indígena em destaque" em seu canal do Youtube
Imagem: Julie Dorrico

Vencido os mitos da integração, na Carta Magna, ainda há muito a ser superado culturalmente no Brasil em termos de protagonismo indígena, por isso, reencantar o calendário com os corpos de origem, as vozes, as histórias, as memórias, as ancestralidades originárias durante o ano todo, tem sido uma ação desde os indígenas, para endossar uma agenda antirracista. Mas nesse mês em particular, indico a seguir algumas programações para acompanhar e se inteirar sobre as pautas discutidas pelos indígenas, seja na área cultural ou política, indicadoras de como a sociedade pode agir em favor desses personagens invisibilizados.

A Rádio Yandê - A 1ª Rádio Indígena web do Brasil - atravessa o mês com o evento "Abril Indígena", apresentado por Daiara Tukano, artista visual pertencente ao povo Tukano, e Cristian Wariu, comunicador e influencer do povo Xavante.

O "Abril Indígena 2021: flecha no debate" é conduzido pelos apresentadores que convidam exclusivamente indígenas, atuantes em várias áreas, para discutir temas como identidades indígenas, racismo, arte indígena contemporânea, organizações sociais, mulheres, música, literatura, cinema, direitos, espiritualidade, indígenas LGBT, soberania alimentar, governo, entre outros, contemplando os 30 dias do mês. Você pode acessar as lives já realizadas e acompanhar o restante da programação nesse link: Rádio Yandê | Facebook

A Articulação dos Povos Indígenas - APIB - está realizando pelo segundo ano consecutivo o evento Acampamento Terra Livre, conhecido como ATL.

A origem desse movimento se deu no dia 26 de junho de 2003, em que 40 lideranças Kaingang e Xokleng dos estados do Sul do Brasil acamparam na Esplanada dos Ministérios, em frente ao Ministério da Justiça, em Brasília. O indigenista Giovani José da Silva, conta que na semana seguinte mais 20 Krahô-Canela, do Centro-Oeste, somou no local para pedir agilidade nas demarcações das Terras Indígenas Ibirama Laklãnõ/SC, do povo Xokleng; Toldo Pinhal, Toldo Imbu e Canhadão/SC; Palmas/PR; do povo Kaingang; Canta Galo/RS, do povo Guarani; e Mata Alagada, do povo Krahô-Canela/TO.

Segundo Giovani José da Silva, apenas duas edições ocorreram fora de Brasília, a de 2010 que foi realizada em Campo Grande/MS, em solidariedade ao povo Guarani-Kaiowá; e a de 2012, que ocorreu no Aterro do Flamengo, no RJ, por conta da Cúpula dos Povos durante a Rio+20. Agora, em decorrência da pandemia da covid-19, a edição de 2020 e 2021 aderiram ao formato digital para unir os povos em defesa da saúde e contra as violências agravadas pelas situações de vulnerabilidade a que foram submetidos os povos indígenas.

A ATL 2021 traz o tema "A nossa luta ainda é pela vida, não é apenas um vírus" busca reunir os povos e fortalecer a luta pela defesa da vida, diante do contexto do impacto da covid-19, denunciando desassistência estatal sanitária. O evento será transmitido por 25 dias, com mais de 60 atividades online, no Facebook de sua página oficial APIB - Articulação dos Povos Indígenas do Brasil | Facebook, da Mídia Índia Oficial, e da Mídia Ninja Oficial. A agenda completa pode ser acessada aqui: ATL2021 | APIB (apiboficial.org)

APIB - APIB - APIB
Acampamento Terra Livre, iniciativa da APIB
Imagem: APIB

A primeira Feira Literária dos Povos Indígenas da Bahia realiza-se entre os dias 05 e 09 de abril. Com programação também intensa, traz indígenas e não indígenas estudiosos da literatura indígena inaugurando online pela primeira vez essa configuração. O tema "Literatura Indígena como retomada" vem para fortalecer simbolicamente o movimento de vários povos na região do nordeste nas retomadas de seus territórios originários e identidades indígenas frente ao Estado-nacional. Para acompanhar toda a programação e acessar as redes sociais e local de transmissão: I FLIPIB | Linktree

A Literatura Indígena Contemporânea, canal no Youtube, terá a programação "Abril Antirracista: a Literatura Indígena em destaque" onde apresentarei uma série de entrevistas, com diferentes escritores e escritoras indígenas, do dia 12 ao dia 23 de abril, às 17 horas de Brasília. Marcelo Munduruku, Edson Kayapó, Fernanda Vieira, Gleycielli Nonato, Chirley Pankará, Ytanajé Cardoso, Timoteo Popygua, Kanatyo Pataxoop e Moara Tupinambá são os convidados dessa edição para falar de temas vinculados à Literatura Indígena. O link de transmissão é Literatura Indígena Contemporânea - YouTube

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL