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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Odeie sua menstruação. Ou ame, se você preferir

PeopleImages/Getty Images
Imagem: PeopleImages/Getty Images
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

16/11/2021 06h00

Menstruar. Ato de se sujar à noite com o vazamento do rio de sangue que saiu do seu útero em direção ao seu colchão novinho te provocando raiva e vontade de jogar a cama fora ou ato de vivenciar o ciclo sagrado de reconexão com a nossa ancestralidade, nossa fertilidade e nossa capacidade de gestar, parir e perpetuar a vida da nossa espécie neste planeta? Nenhuma das duas? Ótimo. Eu penso assim também.

Acolha esse sangramento como você quiser. Ame, odeie, seja indiferente, se apazigue ou não. Eu só vim aqui dizer que você pode escolher o que fazer com seus incômodos e desconfortos menstruais e que você não é obrigada a aceitar alterações drásticas de humor, dores intensas e incapacitantes e sangramentos volumosos e adoecedores simplesmente porque é assim que a natureza quer.

A natureza não quer que a gente previna gestações dos 15 aos 35 anos. A natureza não quer que a gente trabalhe 8 horas por dia. A natureza não quer que a gente coma algumas das coisas que a gente come. A natureza não quer que a gente viva 60, 70, 80 anos. E a gente vive.

Os estímulos que recebemos hoje em dia estão longe de ser os estímulos ditos naturais. Nossa vida está a quilômetros de uma vida guiada pelos desígnios da mãe natureza. Não dá pra querer que o nosso corpo se resolva sozinho vivendo a vida que a gente vive. Sobre isso, eu falei um pouco mais no último vídeo publicado no meu canal no youtube:

Decidir não menstruar por qualquer motivo não é o fim do mundo. Com planejamento e avaliação cuidadosa e individualizada, evitar o sangramento é possível e seguro. As cólicas incapacitantes não são normais e não devem ser encaradas assim. Elas devem ser vistas como sintomas a serem investigados. Há condições potencialmente danosas que cursam justamente com dores pélvica cíclicas.

As alterações drásticas de humor e os sangramentos muito volumosos podem ser manejados com uso de medicações de forma relativamente simples. É até estranho estar dizendo isso aqui, em uma coluna direcionada a leigos. Todo profissional de saúde que cuida dessas mulheres sabe ou deveria saber disso. O que parece ocorrer é uma normalização intrigante do sofrimento feminino.

Mulheres sangrando até ficarem anêmicas? "Devemos respeitar a natureza. Quanto menos intervenções melhor. Faz parte do que é ser mulher. Hormônios nunca são bem-vindos. A menstruação precisa sair."

Homens de 70 anos usando medicamentos para se sentirem sexualmente potentes diante de uma mulher de 25? "Ah, mas a medicina já avançou tanto, não é mesmo?! Devemos usar todos os recursos disponíveis pra gente se sentir bem."

Aparentemente, a tônica da assistência e do cuidado da saúde das mulheres não tem a redução do sofrimento como algo legítimo e isso precisa ser revisto. Não é papel apenas dos ultra-especialistas saber manejar estas questões e amparar as mulheres em suas decisões sobre o cuidado em saúde. Todo profissional de saúde deve estar atento a isso. E as mulheres podem e devem buscar nossa ajuda sempre que julgarem isso necessário.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL