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Júlia Rocha

Um misto de esperança e medo

Marielle Franco durante discurso na Câmara Municipal do Rio em 2018 - RENAN OLAZ/AFP
Marielle Franco durante discurso na Câmara Municipal do Rio em 2018 Imagem: RENAN OLAZ/AFP
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

15/11/2020 08h20

A democracia brasileira definitivamente não vive tempos de paz. Sendo assim, não dá para chamar o dia da eleição de festa da democracia.

Gravemente adoecida, ela está respirando com ajuda de aparelhos. Seja nos rincões de um Brasil profundo, dominado por coronéis donos de tudo, seja em uma das maiores cidades do país onde candidatos populares tropeçam em milicianos armados que tentam intimidar e silenciar suas campanhas.

Para disputar espaço e visibilidade com candidatos cheios de recursos, as candidaturas populares deram aula de criatividade e ousadia.

Nas redes, iniciativas como a Tenda das Candidatas, alavancada pela advogada carioca Laura Astrolabio, trouxe apoio organizado e formação política para mulheres candidatas em todo o país. Um time de especialistas voluntárias traçou estratégias de campanha e fez crescer a visibilidade e o engajamento destas candidatas nas capitais e em cidades do interior dos estados.

É admirável a coragem de quem decide enfrentar essa força brutal que neste país e em toda periferia do mundo tem a missão de sufocar o grito dos oprimidos.

Ontem, assisti Gregório Duvivier em suas redes conversar com um candidato da zona oeste do Rio. Um homem negro, jovem, professor de história que relatava os percalços aterrorizantes de sua trajetória na campanha. Milicianos armados rondando ações em praças, ameaças, intimidações.

Assim como ele, outras inúmeras candidaturas ao redor do país vem correndo risco real por que decidiram enfrentar estruturas poderosas.

A coluna de hoje é um agradecimento sincero e emocionado a quem se levanta e decide lutar pela coletividade. A quem olha o cenário a nossa volta e, mesmo em meio a tantos riscos, chama para si a responsabilidade de liderar uma reação popular. Essas pessoas precisam da nossa proteção. É para elas que devemos direcionar nosso apoio.

Em um dia como hoje, é Impossível não lembrar de Marielle e de tantas e tantos outros que tombaram ao enfrentar esse sistema injusto, seja por vias institucionais, seja pelos movimentos sociais. Em um país violento, que para as reações populares legítimas na base da bala, é urgente que a nossa organização como classe, como povo em movimento seja capaz de protegê-los.

Não precisamos de mais mortos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.