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Júlia Rocha


A menopausa e a medicalização da vida

A atriz Claudia Raia - Tato Belline/Divulgação
A atriz Claudia Raia Imagem: Tato Belline/Divulgação
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

13/06/2020 04h00

Nesta semana, a atriz Claudia Raia dividiu com seus milhões de seguidores sensações e sintomas do período que vive hoje. "Sim, amores, a menopausa." Cláudia havia feito escova nas madeixas para realizar um trabalho e em seguida sentiu a forte onda de calor que molhou de suor sua cabeça, atrapalhando a preparação.

Já conversamos aqui sobre etarismo que é a discriminação de pessoas mais velhas. Em uma coluna de fevereiro, falei especialmente do quanto pode ser dolorido para nós mulheres esse processo do envelhecer em uma sociedade que refuta com toda força qualquer mínimo sinal de que o tempo passou também para nós.

Tanto é assim que cirurgias plásticas, cremes e incontáveis procedimentos para parecer sempre mais jovem vendem como água no deserto. E, assim, seguimos negando o tempo e brigando com ele numa disputa cansativa e emocionalmente muito desgastante. Há, porém, uma condição que chega para todas nós, impondo com a força de um tornado o que tentamos negar dia após dia. A menopausa.

Se muitas de nós optamos por esconder o passar dos anos impedindo a todo custo que nossa aparência denuncie nosso crime de envelhecer, o fim das regras, como diriam nossas mães e avós, chega e nos corta o topete, nos colocando diante do espelho. Quem é esta mulher refletida? Que corpo é este que já se despediu há tempos da juventude mais tenra e que agora tem uma marca da sua suposta infertilidade estampada, muitas vezes, em desnecessários exames.

A falência dos nossos ovários é, por assim dizer, o marco biológico que define de forma mais drástica e irreversível o fim da nossa capacidade reprodutiva. Num mundo onde só os jovens amam, só os jovens transam, só os jovens são bonitos, legais, ativos e produtivos, essa constatação é tarefa árdua e muitas vezes dolorida, mas pode ser igualmente libertadora e necessária.

A menopausa não vem solitária fazer morada na nossa varanda. Se ela chega entre os 45 e os 55 para a maioria das mulheres, é fundamental enxergar quem somos diante da vida neste momento.

Há poucos anos, dizia-se entre profissionais de saúde que iniciar terapia de reposição hormonal para mulheres nesta fase era mandatório. Não era uma questão de se perguntar se "sim ou não", se "deve ou não deve", mas de definir quando iniciar. O resultado de tanta intervenção veio rápido. Um aumento significativo dos casos de câncer de mama nessas mulheres obrigou que os profissionais repensassem suas condutas

Se antes, ao não enxergar esta mulher em toda a sua complexidade, ao não observá-la em seu ciclo de vida, ao não ouvir suas queixas e conhecer seu contexto familiar, comunitário, social, a única estratégia era: ao menor sintoma que pudesse ser relacionado à menopausa, reposição hormonal.

Com o adoecimento em decorrência destes hormônios, fomos obrigados a esquecer o rótulo de MULHER NA MENOPAUSA e olhar para a pessoa. A mulher. A pessoa na sua encantadora singularidade.

Quem é esta mulher que se queixa de fogachos? Qual a sua realidade? Onde ela mora? Ela tem trabalho? Tem renda? Está submetida a um relacionamento violento? Está feliz no seu relacionamento? Ela transa? Tem prazer? Como está a lubrificação vaginal? E o marido? É um parceiro que a agrada? A vida sexual está ruim? E todo o resto? Essa mulher se alimenta de forma saudável? Ela faz atividade física? Como está sua saúde de forma integral? Ela foi submetida ao rastreamento de câncer de colo de útero? Como é a estrutura familiar dela? Com quem ela divide as tarefas? Os filhos estão preparando para sair de casa? Ela já tem netos? Quais são seus sonhos?

Enxergá-las além dos hormônios, do sangue, do útero, acolhê-las em seus medos e angústias, mas também contemplá-las em sua potência feminina pode ser imensamente terapêutico. A maior parte das mulheres que apresenta sintomas relacionados à disfunção dos ovários apresenta quadros leves, que não demandam tratamento com comprimidos. Simples mudanças de comportamento podem solucionar o problema.

Das que apresentam sintomas mais intensos, uma parte apenas demandará reposição hormonal para se sentir melhor. Reservamos, então, os tratamentos mais intensos para os casos mais graves, e mesmo assim sem esquecer das dimensões psíquicas e sociais que as rodeiam.

Se antes a pergunta era "quando começar a usar os hormônios", hoje as perguntas que não podemos deixar de fazer e principalmente que devemos estimular cada mulher a se fazer, também são: quem é esta mulher refletida no espelho? Como ajudá-la a se sentir melhor da forma menos invasiva possível? E mais do que nunca: Quais são seus sonhos?

Quais são seus sonhos, mulher?

Júlia Rocha