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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fast food é coisa de favelado

Fachada da rede de fast food Pobr"s - Facebook/Reprodução
Fachada da rede de fast food Pobr's Imagem: Facebook/Reprodução
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

06/08/2021 06h00

Queridos leitores, peço perdão pelo clickbait. Na verdade, "coisa de favelado" nem existe. Coisa de favelado, assim como "coisa de playboy", "coisa de mulher" é qualquer coisa que um indivíduo quiser. Essas nomenclaturas foram feitas para manter a gente no nosso lugar e evitar mudanças sociais. Contudo, se existe alguma "coisa de favelado", essa é a agricultura regional, sazonal e familiar. Na coluna #DaQuebradaProMundo dessa sexta-feira eu gostaria de te explicar o porquê.

Quando eu era pequeno (entre 2005-2010) na minha casa sinônimo de sucesso era ir ao McDonald's. Do outro lado do planeta, aos 23 anos de idade, descobri que na sociedade alemã o fast food é "comida de pobre" e deve ser evitado. Mas, afinal, o que representa o fast food? Sucesso? Comida de pobre?

As pequenas vitórias do pobre brasileiro

Sabe por quê na minha casa sinônimo de sucesso era ir ao McDonald's? Porque era um acontecimento. Não existia, e ainda não existe, um McDonald's na favela onde eu cresci. Por conta disso não era rotina ir ao restaurante. Então quando o dia chegava, a gente colocava a melhor roupa e íamos arrumados e cheirosos pegar o ônibus até o centro. Era quase como dia de domingo, dia de culto na igreja. Só que dessa vez era um culto chamado "pequenas vitórias do pobre brasileiro".

Eu não tive a infância mais sofrida do mundo e se passei fome na vida foi bem pouco. Entretanto, para a minha mãe - diarista que passou fome e terminou o ensino médio via EJA. Para o meu pai - segurança de firma que sonhou a vida inteira em fazer uma faculdade e faleceu com a matrícula guardada em uma gaveta - fast food representava uma vitória. "Vencemos a fome e vamos comer o que quiser".

Foi essa energia que a gente, os favelados e pobres desse país, herdamos. A energia de quem come e come muito, porque sabe como a fome machuca. Foi acreditando nessa ideia americana tanto vendida, essa ideia capitalista de que sucesso é ser mais porque você tem mais, que associamos fast food com vitória.

Comida de pobre

O que no passado foi enxergado como as "pequenas vitórias da vida do pobre brasileiro", hoje carrega um outro significado. Cheguei na Alemanha há dois anos e dei de cara com a realidade: fast food - e comida ultra processada - é muitas vezes, duas, três vezes mais barato do que comida "bio" e "super food".

Se você quiser ou está precisando, consegue comprar uma refeição inteira (ultraprocessada e embalada) com pouco mais de um Euro em qualquer supermercado convencional. Enquanto do outro lado da moeda, os produtos "bio" e "super food" recebem diferentes etiquetas, são expostos separadamente e custam até o triplo do convencional. E se posso me contradizer aqui, farei agora: existe "coisa de playboy", sim. Essa coisa é o alimento atualmente chamado de "super food".

Brincadeiras à parte, super food é um termo de marketing que descreve alimentos orgânicos com benefícios cientificamente provados para a saúde. Essa "super comida" é mais um truque do capitalismo que se apropria do conhecimento popular, embala com um certo minimalismo e vende como algo "transformador" e "revolucionário". Por exemplo, o nosso açaí é uma super comida aqui na Alemanha.

E o segundo termo, alimento "bio" (orgânico), se refere a alimentos provenientes da agricultura orgânica, sem uso de agrotóxicos em seu cultivo. Termo definido por lei na União Europeia, que só pode ser atribuído a alimentos com uma qualidade assegurada e uma consciência limpa.

Termos esses, que, no fim do dia, são mais um separador de classe: quem tem mais dinheiro é aquele que come mais saudável. Quem não tem, vai ao fast food - os restaurantes frequentados por moradores de rua, dependentes químicos e pessoas em situação de desalento.

Quem mais sofre são os pobres

Segundo matéria do NY Times, "Como a Grande Indústria Viciou o Brasil em Junk Food", "Enquanto seu crescimento diminui nos países mais ricos, as multinacionais de alimentos, como Nestlé, PepsiCo e General Mills, vêm ampliando agressivamente sua presença em países em desenvolvimento, desencadeando uma máquina de vendas que subverte as dietas tradicionais em países como Brasil, Gana e Índia."

Essas empresas - assim como as empresas das redes de fast food - financiam o consumo em massa de alimentos pobres em valor nutricional, responsabilidade ecológica e social. Em consequência essas mesmas empresas são as que lucram com os indivíduos que pobres de tempo, de informação e de consciência corporal.

Seja no Brasil ou na Alemanha, na Favela da Torre ou em Berlim, a pergunta a se fazer não é se "comida processada ou fast food é coisa de pobre". Não é coisa de pobre, é coisa engenhada para lucrar com o pobre.

Tome partido nessa guerra

"O que temos é uma guerra entre dois regimes alimentares, uma dieta tradicional com alimentos de verdade, produzidos por agricultores locais, e os produtores de alimentos ultraprocessados, feitos para serem consumidos em excesso e que, em alguns casos, viciam", explicou Carlos A. Monteiro, professor de nutrição e saúde pública na Universidade de São Paulo para o NY Times.

A minha visão de vitória e sucesso mudou. No passado era uma refeição em determinado restaurante, hoje em dia eu acredito que venço a cada momento que fortaleço uma pequena produtora, um artista independente. Acredito que vencer na vida é espalhar o amor através da consciência. Espalhar o amor pelo entendimento do valor de cada passo.

Se quisermos estratégias para vencer essa guerra é necessário que a gente se reconecte com nossas raízes, nossas irmãs e irmãos. E que a gente comece seguindo os ensinamentos de vovó. Por que não?

Como minha vó diria: "vou comprar na feira que é mais barato". Deixe de visitar os supermercados e compre mais frutas, legumes e verduras nas feiras da sua quebrada. Com esse simples fato você estará fortalecendo a agricultura local, os trabalhadores locais, e também a sua própria saúde. Além da ótima qualidade, valor nutricional riquíssimo você também ajudará quem vive desse plantio.

Apoie e procure iniciativas por perto. Um desses exemplos vem de um parceiro lá da minha quebrada, o Erick, que arrecadou dinheiro entre os conhecidos para comprar cestas básicas e alimentos frescos de agricultores regionais para as famílias mais necessitadas durante essa pandemia. Procure o Erick da sua quebrada! E, se não existir, que tal você começar essa iniciativa?

Se você for comer um lanche, dê preferencia para restaurantes locais, não vá a essas redes cheias de franquias. No Rio de Janeiro temos o exemplo do Outbeco, em São Paulo você pode conhecer muitos exemplos através do Prato Firmeza, o Guia Gastronômico das Quebradas.

Por último, outra iniciativa que já citei aqui na coluna algumas vezes é a iniciativa "Tem Gente Com Fome", feita pela Coalizão Negra Por Direitos. Os fundos arrecadados serão usados para ações emergenciais de enfrentamento à fome, à miséria e à violência na pandemia de covid-19. Se você quiser conhecer a iniciativa, acesse https://www.temgentecomfome.com.br e doe você também!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL