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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que jovens de 20 anos estão sendo vacinados na Alemanha? Entenda

Alexandre Ribeiro trajando o kit de proteção contra a covid-19 - Arquivo pessoal
Alexandre Ribeiro trajando o kit de proteção contra a covid-19 Imagem: Arquivo pessoal
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

11/06/2021 06h00

Caro leitor, cara leitora, se você gostaria de mais um desses textos onde comparações desonestas são feitas entre realidades e economias completamente distintas, te peço desculpas de antemão pelo "clickbait". Responderei à pergunta do título logo: é por conta da economia do cuidado. Na coluna #DaQuebradaProMundo desta sexta-feira gostaria de te contar porque, aos 22 anos, eu já estou completamente vacinado, e questionar os porquês de trabalho social ser tão desvalorizado.

Na quarta-feira passada, dia 02/06 de 2021, fui vacinado com a segunda dose da Moderna. No auge dos meus 22 anos, enquanto estava na fila da triagem senti o olhar dos mais velhos se perguntando "o que esse moleque tão novo está fazendo aqui?".

Ao sentir a agulha perfurando meu braço também senti as dores de um Brasil que padece. Queria poder mandar a minha dose para a minha mãe, lá na favela da Torre, e proteger ela dessa realidade cruel que foi desenhada no Brasil. Doeu. Doeu e dói demais de saber que a minha exceção - ser devidamente vacinado - poderia ser a regra para grande parte do nosso povo, se não tivéssemos um negacionista no comando.

Só tive essa benção disfarçada de obrigatoriedade graças ao trabalho que realizo aqui na Alemanha: educação para crianças com deficiência, ou como eu prefiro colocar, aprendizado com crianças de plurais diferenças. Profissão essa, que faz parte da economia do cuidado.

O que é economia do cuidado? Muito bem definido, segundo Isabela Mena do Projeto Draft, "Economia do Cuidado (do original, em inglês, care economy) é um termo que designa o trabalho, majoritariamente realizado por mulheres, de dedicação à sobrevivência, ao bem-estar e/ou à educação de pessoas, assim como à manutenção do meio em que estão inseridas. Em âmbito doméstico, esse trabalho é invisibilizado e não remunerado. No meio profissional — terceirizado -, é mal pago."

"Terceirizado e mal pago". A realidade é que as raízes do sistema capitalista dominam e ditam as regras em qualquer canto do planeta, e na Alemanha não é diferente. No auge dos meus 22 anos consegui esse emprego como educador - mesmo sem ter um diploma na área - porque a cada ano que se passa o número de profissionais na área do Pflegewirtschaft ( economia do cuidado em alemão) só diminuem. Como indica a pesquisa da empresa alemã PWC, faltarão 40 mil cuidadores na Alemanha até o ano de 2030.

Mas por que esses trabalhos não são valorizados?

Um dos principais motivos para a desvalorização da economia do cuidado é pautada no sistema patriarcal que vivemos, onde o trabalho do homem - o que é valorizado financeiramente, esse do poder, da quantidade, da força - é tido como mais importante do que a mulher. Segundo Isabela Mena do Projeto Draft: "É por esse motivo e também pelo papel secundário imposto às mulheres no mercado de trabalho — cargos mais importantes, promoções e maiores salários são historicamente destinados aos homens e negados às mulheres — que a Economia do Cuidado é uma pauta cara a organizações e lideranças feministas do mundo todo."

1 - Think Olga - Think Olga
Mulheres em tempos de pandemia
Imagem: Think Olga

Segundo pesquisa realizada pelo Lab ThinkOlga a economia do cuidado no Brasil "É um esforço que equivale a 11% do PIB. Mais do que qualquer indústria. E mais do que o dobro que todo o setor agropecuário produz." O trabalho de cuidados não pago das mulheres - e uma pequenina minoria de homens, onde estou incluso - equivaleria a 10,8 trilhões de dólares. Apenas 4 economias do mundo ficariam acima desse valor.

Na nossa cultura - enraizada em uma sociedade escravocrata - a maior parte das pessoas que exercem esses trabalhos são as mulheres negras, profissionais domésticas e cuidadoras. O trabalho de cuidado é invisibilizado pois interessa à manutenção dos privilégios essa invisibilidade. Quem ganha? Quanto a economia ganha não remunerando este trabalho? Como se conecta ao afeto, ao amor, não se enxerga que este é um subsídio para a economia existir da maneira que existe hoje.

Economia sem "noiz" é somente ficção

Em entrevista ao The Intercept Brasil, o economista Paulo dos Santos disse o seguinte:

Por que eu, empresário, tenho que pagar licença maternidade ou paternidade porque você decidiu ter filho e vai ficar fora para cuidar dele?", alguém vai dizer. Ora, você emprega pessoas? Sim. Pois é, alguém cuidou e educou essas pessoas, você já está se aproveitando desse trabalho que alguém desempenhou 25-30 anos atrás. Mas o pensamento econômico atual não considera esse trabalho, que não tem nada a ver com produtividade, como algo de valor: não tem valorização salarial, não tem prestígio, não tem condições.

Alinhando-me ao apontamento de dos Santos é que gostaria de finalizar esse texto propondo um debate: como será que nossas economias poderão incorporar o cuidado? Quando é que vamos compreender que a saúde e o bem-estar dos nossos pares são prioridade muito maior do que uma produtividade sem sustentação?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL