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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Handykette: um acessório que sintetiza o privilégio branco

O "handykette" - AndreyPopov/Getty Images/iStockphoto
O "handykette" Imagem: AndreyPopov/Getty Images/iStockphoto
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

28/05/2021 06h00

Ser um jovem morador de favela do outro lado do planeta afia muito a minha visão para coisas que "parecem de outro mundo". Na coluna #DaQuebradaProMundo dessa semana quero te explicar como um acessório comum na sociedade alemã, o Handykette, sintetiza a desigualdade e o racismo moderno.

Handy: palavra alemã que significa celular, Kette: palavra alemã que significa corrente. Mas por que raios uma "corrente de celular" mereceria uma coluna toda só para ela? A resposta veio da provocação no adesivo da estação central de Berlin que dizia o seguinte: "Se você acredita que não existe privilégio branco, parabéns! Você está sendo beneficiado por ele."

Ao andar pelas ruas alemãs frequentemente se é capaz de encontrar o acessório, Handykette (usado na foto), pendurado no pescoço dos transeuntes dos grandes centros. Porém - na minha vivência enquanto um moleque criado em favela - toda vez que vejo alguém passar com a corrente só consigo pensar: "Deus é mais! Imagina alguém usando isso na praça da Sé... Esse telefone ia sumir em dois segundos".

O que "parece de outro mundo" na verdade tem uma origem histórica: colonialismo e o capital. Esse pensamento meu, mas que na verdade poderia ser de qualquer um de nós brasileiros, é um lembrete da violência escancarada que a desigualdade produz. É o eco do sistema escravocrata, eurocentrado e baseado na exploração que vende para poucas pessoas o luxo, enquanto a maioria sofre em conduções desumanas. Por que o brasileiro não pode sonhar sem medo de ser roubado?

Enxergar diariamente pessoas livres e despreocupadas andando com telefones de dez, quinze mil reais, pendurados no pescoço é um gatilho horrível. Um lembrete diário de como a história da desigualdade é cruel. Não é nem necessário entrar no debate da "indústria do medo" - essa que te vende seguros para lucrar com a morte do nosso povo - para entender que o mundo que a gente vive não anda muito bem.

Quanto mais privilégio você tem, menos você consegue entender o que é privilégio.

Um pequeno exemplo diário alemão é um reflexo de construções sociais, culturais, tal como o privilégio branco. Mas o que é o privilégio branco? Algumas perguntas básicas podem te ajudar a entender: você teve acesso à educação de qualidade? Você ocupa um cargo de gerencia no seu trabalho? Você teve os membros da sua família presentes durante a infância? Mora em uma favela? Já foi parado pela polícia? Ou o maior de todos, você conseguiria usar uma "Handykette"?

IBGE - IBGE - IBGE
Pesquisa IBGE
Imagem: IBGE

Segundo pesquisa feita pelo IBGE em 2019, as chances de você responder as perguntas acima com um "não", são maiores de acordo com a cor da sua pele. Isso é o privilégio branco.

E são todos esses "pequenos" aspectos que fazem a vida mais difícil para uns, e menos empática para os outros. Se posso te provocar em algo, caro leitor, é para que você reflita os seus privilégios, e por favor, antes de colocar uma corrente na liberdade ou na dificuldade de alguém, pense com empatia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL