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Bianca Santana

Um ano do massacre de Paraisópolis: hora de rechaçar o genocídio

Artistas voluntários fazem grafites em viela onde 9 pessoas foram pisoteadas após ação da Polícia Militar, em Paraisópolis - José Vilson Vanderley
Artistas voluntários fazem grafites em viela onde 9 pessoas foram pisoteadas após ação da Polícia Militar, em Paraisópolis Imagem: José Vilson Vanderley
Bianca Santana

Bianca Santana é jornalista. Autora de "Quando me descobri negra" e organizadora de coletâneas sobre gênero e raça, foi convidada da Feira do Livro de Frankfurt em 2018 e da Feira do Livro de Buenos Aires em 2019, quando também foi curadora do Festival Literário de Iguape. Pela UNEafro Brasil, tem contribuído com a articulação da Coalizão Negra por Direitos. No doutorado em ciência da informação, na Universidade de São Paulo, pesquisou a escrita e a memória de mulheres negras. Foi professora da Faculdade Cásper Líbero e da pós-graduação em jornalismo multimídia na Faap. Atualmente, está escrevendo uma biografia sobre Sueli Carneiro.

01/12/2020 21h07

"É um pesadelo constante, chegar em casa e saber que nunca mais vou ver meu irmão, onde foi tratado com tanto amor e tanta dificuldade. Minha mãe, empregada doméstica, lutou tanto para sustentar, para um órgão do Estado tirar a vida do meu irmão sem razão alguma" afirmou Fernanda Garcia, irmã de Dennys Guilherme, em audiência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), em 6 de março de 2020. Dennys foi uma das nove vítimas da chacina de Paraisópolis, que completa um ano neste primeiro de dezembro.

A própria PM assumiu que a ação policial foi a responsável pelas mortes, alegando legítima defesa. Um ano depois, o argumento falacioso se sustenta ainda menos. Apenas no primeiro semestre deste 2020, em São Paulo, foram registradas 498 mortes decorrentes de intervenção policial, um recorde até mesmo para uma das corporações que mais mata no mundo.

No Rio de Janeiro, João Pedro Mattos foi assassinado pela polícia dentro de casa, aos 14 anos de idade. Seguranças privados mataram o menino Guilherme Silva Guedes, na zona sul de São Paulo, e também João Alberto Silveira Freitas, no Carrefour de Porto Alegre. Nomes, sobrenomes e histórias que ficaram conhecidas dentre as mais de 40 mil mortes violentas registradas anualmente no Brasil, mais de 75% delas de pessoas negras.

O racismo estrutura a vida e a morte de pessoas negras no Brasil. E enquanto contamos corpos pardos e pretos, exigindo que o Estado e as empresas parem de nos matar, ainda precisamos lembrar a imprensa de que nenhum desses casos é isolado. Precisamos repetir que o extermínio deliberado de pessoas motivado por diferenças raciais tem nome, e que o genocídio negro se aprofunda no Brasil a cada ano.

A Coalizão Negra por Direitos, formada por 150 entidades de todo o Brasil, foi ao Haiti no início de março denunciar o massacre de Paraisópolis e a crescente violência policial em São Paulo e no Rio de Janeiro durante o 175º período de sessões da CIDH. Desde março também seguimos exigindo que a imprensa pare de noticiar o extermínio de negras e negros como casos isolados, quando somos alvos do genocídio.

Toda a sociedade, incluindo a imprensa, é responsável por cobrar ações efetivas do Estado em interromper o extermínio da população negra.

Além do devido afastamento dos policiais envolvidos em homicídios, é necessário adotar políticas de transparência informando o efetivo policial empregado em Paraisópolis e em situações similares, bem como o armamento utilizado. É urgente realizar perícias autônomas e independentes, nos termos definidos pela sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que condenou o Estado brasileiro no caso Favela Brasil. Passou da hora de adequar os chamados Procedimentos Operacionais Padrão da polícia aos parâmetros internacionais de direitos humanos e uso da força.

Toda solidariedade às famílias de Paraisópolis neste um ano de dor, saudade, indignação, demanda por justiça. Basta de genocídio