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ONU: Países em desenvolvimento acumulam carros poluentes e inseguros

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Imagem: Getty Images
Leandro Alves

Neste espaço a equipe de AutoData, sob a coordenação do diretor de redação Leandro Alves, trará os bastidores da indústria automotiva, que são de extrema importância para os negócios e o futuro do setor no Brasil e no mundo. Seu próximo carro pode passar primeiro por aqui. Antes mesmo dele existir! Conheça nosso trabalho em www.autodata.com.br

Colunista do UOL

29/10/2020 15h26

O comércio global de veículos usados é gigantesco e uma ameaça não apenas à sustentabilidade da cadeia automotiva mas, sobretudo, à vida das pessoas e ao meio ambiente. Foi esta última razão que levou o PNUMA, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a preparar relatório que demonstra os impactos da importação de veículos usados nos países em desenvolvimento, o depósito global desses modelos vindos da União Europeia, do Japão e dos Estados Unidos.

Segundo o relatório apresentado esta semana de 2015 a 2018 foram exportados 14 milhões de veículos usados no mundo. A União Europeia é responsável por 54% desse fluxo, enviando seus usados a vários países do Norte da África, da Ásia e da América do Sul. O Japão exportou 27% do total para outros países nas mesmas regiões como Angola, Rússia e Paraguai. E os Estados Unidos despejam 18% desse volume principalmente no México, na América Central e no Oriente Médio.

Mas qual a razão da preocupação com o mercado de usados? Alguns podem argumentar que são muito mais baratos do que os 0 KM e nos países em desenvolvimento é o preço que influencia o mercado.

Não é bem assim: em primeiro lugar muitos desses modelos são incapazes de obter permissão para rodar no seu próprio país de origem. São automóveis, picapes, minivans, SUVs, caminhões leves e até ônibus com três ou mais de quinze anos de uso, com a manutenção atrasada, faltando equipamentos, inseguros e, principalmente, na ótica do PNUMA, poluentes.

A frota global de veículos é responsável por quase um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, como o CO2 e o NOx. No caso dos usados com sistemas de pós-tratamento que não passaram por manutenção, se é que existem nos modelos mais antigos, a contribuição nas emissões é muito superior a qualquer veículo em bom estado de conservação ou zero quilômetro.

Considerando que até 2050 a frota global de veículos dobre, com 90% desse crescimento acontecendo em países que não são classificados como desenvolvidos, as emissões automotivas passarão a um terço do total. Seria o maior incremento dentre todas as atividades econômicas que causam impacto direto no aquecimento global. Aí está a principal razão do PNUMA ao se debruçar no comércio global de veículos usados.

Para se ter uma ideia da ameaça aos negócios: no mesmo período pesquisado pelo relatório das Nações Unidas foram vendidos no Brasil pouco mais de 12 milhões de veículos novos, incluindo automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus.

Boa parte desses veículos que atravessam os mares para ser vendidos no Peru, na Bolívia e no Paraguai, onde 90% das vendas são de modelos usados, poderia ser substituída por veículos novos produzidos no Brasil. Isso para ficar aqui no continente sul-americano e não contabilizar o potencial dos modelos brasileiros em muitos países africanos que também são invadidos pelos usados europeus e japoneses. Na África mais de 60% dos veículos adicionados à frota circulante anualmente são usados importados.

Dos 146 países avaliados no relatório do PNUMA apenas dezoito baniram a importação de veículos usados. O Brasil é um deles, assim como Argentina, Chile, Uruguai, Colômbia, Equador e Venezuela.

A organização das Nações Unidas faz uma série de recomendações para regular o comércio global de veículos usados. Deveria ser criada em nível regional ou em comum acordo com todos os países regulamentações para a exportação e importação desses modelos. Assim os veículos obsoletos, inseguros e defeituosos deixariam de ser vendidos, abrindo espaço para modelos mais novos, ou seminovos.

Essas regras deveriam conter medidas para garantir que os veículos usados estejam em condições de contribuir para a mobilidade de forma limpa, segura e acessível.

Velhinhos, não. Dos 146 países avaliados no relatório do PNUMA, 66 colocaram limites de idade para os usados. Varia de três a quinze anos de uso.

Menor emissão. Apenas 28 países impuseram alguma restrição relacionada ao nível de emissão do veículo usado importado.

Cof, cof. Cem países não possuem qualquer restrição à emissão dos veículos importados.

Fala, PNUMA. "Milhões de carros, vans e microônibus usados são exportados da Europa, Estados Unidos e Japão para países de baixa e média renda criando obstáculos no combate às mudanças climáticas. Esses veículos contribuem para a poluição do ar e freqüentemente acabam envolvidos em acidentes rodoviários; muitos são de baixa qualidade e seriam reprovados nos testes de aprovação para uso em estradas nos países exportadores."

* Colaborou: Vicente Alessi, filho

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.