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Vacina: Sem fiscalização, RJ tem apagão de dados que inibe combate à covid

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Imagem: iStock

Lola Ferreira

Do UOL, no Rio

17/06/2021 04h00

O Ministério da Saúde aponta que cerca de 4,6 milhões de pessoas já receberam a primeira dose de vacina contra a covid-19 no Rio de Janeiro. Esse número pode contudo ser maior —isso porque o estado sofre um apagão de dados em municípios, conforme identificou levantamento feito pelo UOL.

O problema se dá em razão de falhas no preenchimento do sistema nacional por falta de pessoal, estrutura técnica e treinamento adequado. Especialistas apontam que informações defasadas atrapalham a análise da abrangência da vacinação no estado, encobrem eventuais problemas de vacinação deficitária e impedem acesso aos faltosos.

Apesar de o problema ser crônico no país, eles defendem que o governo fluminense adote medidas para intensificar a fiscalização nos municípios a fim de mitigar as falhas.

A análise foi feita pelo UOL com os dados inseridos no SI-PNI (Sistema de Informações do Plano Nacional de Imunização), do Ministério da Saúde, entre 17/1 até a última terça-feira (15) —no período, 4.616.042 milhões de pessoas foram vacinadas com a primeira dose no estado.

No entanto, o "vacinômetro" estadual exibia 3.696.776 pessoas na mesma condição. Além dessa disparidade entre os sistemas, há municípios que mostram vacinar pouco.

Nos dados do Ministério da Saúde, ao menos 20 dos 92 municípios fluminenses disseram ter aplicado menos de 50% de todas as doses enviadas pelo governo estadual —considerando primeiras e segundas doses (D1 e D2).

A reportagem verificou contudo que se trata de falhas sobretudo de preenchimento de dados.

Há casos ainda mais sensíveis em que municípios não aplicaram sequer metade das vacinas de primeira dose —18 municípios têm armazenadas as vacinas destinadas à D1, ou seja, aquelas que não precisam ser reservadas.

Apagão atrapalha descoberta de falhas

O infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira Imunizações, avalia que o Brasil tem um problema estrutural de abastecimento de dados sobre vacinação.

Na pandemia, diz ele, o cenário está melhor do que costuma ser, apesar de estar longe do ideal — ainda assim, os dados defasados continuam sendo um problema.

A informação adequada e precisa ajuda a buscar faltosos, descobrir onde estão os bolsões de baixa cobertura vacinal, onde deveria haver investimento em comunicação"

Renato Kfouri, infectologista

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde informou que acompanha os dados da vacinação e que "as imunizações estão ocorrendo, mas não é possível observar estes números por meio dos dados que as cidades disponibilizam". A pasta não explicou contudo como é possível atestar que as vacinações estejam acontecendo.

A secretaria também diz que "vem reforçando, por intermédio de ofício, a importância de atualização do sistema de registro".

O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Alberto Chebabo, avalia que o estado deveria ser mais incisivo e que há "incompetência" na forma de lidar com os dados.

"A digitação não é complicada, mas demanda tempo e treinamento. Falta organização dos municípios para preencher e do estado para fiscalizar. O estado podia criar medidas para obrigar a digitalização como, por exemplo, restringir a entrega em caso de dados desatualizados."

Dados contrariam versões dos municípios

Um dos municípios com dados atrasados é Itatiaia, no sul fluminense. Os dados estaduais apontam que foram enviadas até agora 16.625 doses de vacinas. Mas no SI-PNI constam apenas 7.430 vacinas (D1 e D2) aplicadas.

Em nota ao UOL, o município explicou que estava com falta de digitadores, mas que houve contratação e que os dados estão sendo atualizados.

São Pedro da Aldeia e Campos dos Goytacazes também afirmaram que houve falta de pessoas para o preenchimento —seja por afastamento por doença ou idade ou por falta de treinamento.

Macaé, no norte fluminense, também tem dados defasados. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde negou que haja qualquer atraso no preenchimento dos dados. Entretanto, dos 15 dias deste mês, apenas oito tiveram atualizações, sendo a última no dia 11.

O vacinômetro municipal de Macaé mostra cerca de 81 mil vacinas aplicadas. Os dados do Ministério da Saúde mostram cerca de 32 mil.

Para Renato Kfouri, o impacto desse "bate-cabeça" precisa ser resolvido.

Se não há informação sobre quem foi vacinado, quantos foram vacinados, não tem como ter ações efetivas. Sem informações, sem ferramentas para atuar de maneira adequada em campanhas especiais ou na rotina de vacinação"

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