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Amido de milho com limão realmente alivia coceira?

Priscila Barbosa
Imagem: Priscila Barbosa

Cecilia Felippe Nery

Colaboração para VivaBem

21/04/2021 04h00

Verão, sol, calor. Combinação perfeita para se divertir se não fosse a presença indesejada dos mosquitos e de outros insetos que se intensificam nessa época do ano. Suas picadas, além de produzirem as incômodas coceiras, provocam inchaços, vermelhidão e até alergias que podem piorar com o tempo.

E coçar, embora seja um ato incontrolável e mecanismo de defesa, de nada adianta, porque só provoca mais coceira, irritando ainda mais a pele. Por isso, recorrer às receitas caseiras, como casca de banana, mel, manjericão e outras para aliviar o incômodo é uma alternativa ditada pela tradição.

No entanto, existem algumas combinações, como misturar amido de milho com suco de limão, que nem sempre são recomendáveis. Não há comprovação científica da sua eficácia e elas podem ainda trazer outras complicações.

"Essas receitas devem ser evitadas, especialmente às misturadas com o limão", afirma a dermatologista Fabiane Mulinari Brenner. "No período de verão, o contato da pele com limão associado à exposição solar, pode causar lesões semelhantes a queimaduras e deixar manchas escuras que demoram a sair".

E acrescenta: "Nem todas as substâncias caseiras são naturais, muitos chás, como o do bugreiro, podem piorar a coceira e mascarar o quadro inicial. Para aliviar as coceiras, compressas de água gelada ou camomila são condutas domésticas fáceis e que não prejudicam".

O dermatologista Vidal Haddad aponta que várias substâncias podem diminuir o prurido, algumas com ação real contra a inflamação e o inchaço. No caso das picadas de insetos é importante frisar que a orientação médica é fundamental, assim como utilizar repelentes à base de icaridina, que são realmente efetivos, segundo os especialistas. O tratamento após picada deve ser com anti-histamínicos e corticoides tópicos.

"Quem tem alergia pode ter reações extremamente graves (acontece mais em picadas de abelhas e formigas). A reação alérgica que se manifesta com inchaço e inflamação na pele pode ter outros graus e surgir nas mucosas, dando o edema de glote, que pode asfixiar o paciente", adverte Haddad.

"Neste caso, que acontece mais raramente, a pessoa quando em situações de exposição a ambientes abertos, deve portar um kit com adrenalina injetável (faz os vasos sanguíneos contraírem), corticoide injetável e, claro, anti-histamínicos são essenciais, mas tudo sempre sob orientação médica", completa.

Tipos de picadas

As picadas de insetos se diferenciam entre aquelas que injetam veneno e as que sugam sangue. Pernilongos, pulgas e borrachudos sugam; vespas, abelhas, formigas e aranhas injetam. No caso dos que injetam, ainda há a questão do veneno ser ácido ou básico (alcalino), e que pode reagir —ou não— ao ter contato com determinadas substâncias contidas nas receitas caseiras.

De acordo o bioquímico Alexandre Cavagis, o limão possui muita acidez e essa característica faz com que as pessoas acreditem que o seu suco possa neutralizar e aliviar as picadas de insetos. "Posso adiantar que o efeito é praticamente nulo e pode prejudicar ainda mais, agredindo a pele e manchando-a, se for exposta ao sol", explica.

"É altamente não recomendável utilizar o suco de limão ou qualquer outra substância para o tratamento das picadas, porque uma das preocupações é a reação alérgica e isso tem de ser tratado com bastante cuidado. Ao ser picada, a pessoa dificilmente sabe a qual tipo de espécie pertence o inseto que a picou e se seu veneno é ácido ou básico", recomenda Cavagis.

Por que coçamos?

As coceiras acontecem porque no momento da picada são liberadas substâncias de dentro das células (citocinas) que provocam inchaço. Segundo Brenner, "este sinal serve de alerta para proteção de novas picadas e favorece a chegada de células de proteção contra possíveis agressões à pele. A lesão formada —vermelha e inchada— é chamada de prurigo".

Além da vermelhidão e da coceira, o inchaço evolui para o endurecimento do local, que aumenta de tamanho nas primeiras 24/48 horas, diminuindo gradativamente nos dias subsequentes. Podem até limitar a mobilidade do membro.

Haddad explica que a picada de vários insetos e outros artrópodes hematófagos (que precisam de sangue para se desenvolver) pode ser dolorosa inicialmente, como nas picadas de mutucas e borrachudos, mas também podem ser praticamente imperceptíveis, quando são mosquitos (pernilongos).

O que fazer?

De modo geral, lavar a região afetada com água e sabão é a primeira medida a ser tomada quando se é picado por um inseto. A dor e a coceira podem ser aliviadas com gelo e, se estiver em casa, use creme hidratante.

"Primeiro lave o local. Se houver alergia, use anti-histamínicos e uma pomada de corticoide. Mas peça orientação médica para isso", avalia Haddad.

A dermatologista Fabiane lembra que a coceira alivia com o tempo e não coçar ajuda a reduzir o período do incômodo. "Pacientes alérgicos, crianças e idosos podem ter maior dificuldade no controle da coceira e precisar de um antialérgico oral ou um creme específico anti-inflamatório, muitas vezes derivado do corticoide", explica.

Em caso de alergia extrema, quando a picada pode levar a um choque anafilático —quadro extremamente raro— procure a unidade de atendimento mais próxima.

Jamais lance mão da automedicação, porque pode ser ainda mais prejudicial ao quadro clínico, agravando o processo alérgico.

A não percepção do grau de alergia (lembrar que existem reações alérgicas potencialmente fatais), a presença de infecção bacteriana e o uso de medicações inadequadas são extremamente perigosas. "Paradoxalmente, os anti-histamínicos tópicos, por exemplo, costumam piorar a alergia no local", lembra Haddad.

Fabiane aponta ainda que alguns cremes ditos antialérgicos tópicos podem causar alergia de contato e piorar o quadro. "Além disso, os antialérgicos via oral possuem efeitos colaterais, como sonolência. Eles são uma classe grande de remédios, devem ser orientados por um médico, levando em consideração qual a melhor indicação para cada caso", conclui.

Para prevenir picadas de pernilongos e borrachudos, o repelente é uma boa alternativa, mas não é eficaz contra abelhas, vespas e formigas.

Fontes: Alexandre Cavagis, bioquímico e coordenador do curso de química da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), campus Sorocaba; Fabiane Mulinari Brenner, professora de dermatologia da UFPR (Universidade Federal do Paraná), dermatologista do Centro Especializado da Pele - Cepelle, de Curitiba; Vidal Haddad, dermatologista da Sociedade Brasileira de Dermatologia.