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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


Coma é emergência médica e tem entre as causas doenças preveníveis

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Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para VivaBem

29/06/2021 04h00

Olhos fechados, ausência de resposta motora ou verbal, e estado de profunda inconsciência da qual não se desperta, mesmo diante de estímulos vigorosos. Estas são as características do coma, que não é doença, mas um sintoma que revela a presença de danos temporários ou permanentes das funções cerebrais.

Entre as suas possíveis causas destacam-se o AVC (Acidente Vascular Cerebral), traumas decorrentes de acidentes, problemas metabólicos como a hipoglicemia ou a hiperglicemia, intoxicações e overdose de medicamentos.

Embora possa se manifestar em pessoas de todas as idades, entre os grupos de risco para o coma se destacam os idosos, porque são mais propensos a doenças cerebrovasculares, reações tóxicas a fármacos, infecções etc.

Considerado uma emergência médica, o coma exige a atuação de vários especialistas como o generalista (clínico geral), neurologista, intensivista e até neurocirurgião. A depender da sua origem, espera-se uma boa evolução em poucos dias. Já os casos mais graves requerem cuidados em UTI (unidade de terapia intensiva). Para muitos dos acometidos pelo sintoma, medidas preventivas teriam evitado esse desfecho.

Entenda o que é coma

A consciência é a capacidade de estar em contato com a realidade, reconhecer os objetos e interagir com o ambiente.

O coma é justamente a ausência prolongada desse estado de vigília e do conteúdo da consciência, que engloba as funções mentais e cognitivas. Tal condição geralmente é transitória, mas pode se estabelecer por longos períodos ou ser definitiva.

Por que isso acontece?

O sintoma decorre de disfunções relacionadas a lesões estruturais ou não estruturais do SNC (Sistema Nervoso Central), mas também pode refletir processos metabólicos capazes de levar à perda de suprimento de glicose ou oxigênio, compressão vascular e mesmo ao aumento da pressão no interior do crânio, entre outras condições.

Veja alguns exemplos desses quadros:

  • Lesões estruturais
  • AVC (Acidente Vascular Cerebral)
  • Trauma
  • Sangramento
  • Tumor
  • Inflamação
  • Trombose venosa
  • Hidrocefalia
  • Parada cardiorrespiratória
  • Não estruturais ou sistêmicas
  • Problemas metabólicos (hipoglicemia/hiperglicemia)
  • Insuficiência renal ou hepática
  • Convulsão
  • Infecção sistêmica (sepse)
  • Meningite
  • Encefalite
  • Problemas endócrinos (diabetes, hipo/hipertireoidismo)
  • Overdose de medicamentos (sedativos ou opiáceos)
  • Polifarmácia (interação de fármacos)
  • Uso de drogas ilícitas
  • Uso abusivo de álcool
  • Intoxicação exógena (inalação de monóxido de carbono)
  • Hipo/hipernatremia (níveis baixos/altos de sódio)

Quem precisa ficar atento?

Todas as pessoas podem apresentar esse estado de inconsciência quando sua origem é um trauma. Mas existem outras condições que são consideradas fatores de risco para o coma. Confira alguns exemplos:

Saiba reconhecer o sintoma

O coma se manifesta com a perda do conteúdo da consciência ou do nível de consciência, estados nos quais não há interação com o meio externo mesmo após estímulos.

Contudo, uma pessoa em coma pode ter respostas ocular, motora e verbal, ou seja, enquanto a abertura ocular é espontânea, não haverá resposta verbal ou motora; em outros quadros, a resposta verbal está presente, mas a motora e a visual não.

Quando é hora de procurar ajuda médica?

Períodos de perturbação da consciência podem ter longa e curta duração, além de níveis diferentes que vão desde a diminuição do estado de alerta e a obnubilação (obscurecimento do pensamento e da visão), até o estupor (rebaixamento da consciência só interrompido brevemente com estímulos fortes).

Junto ao coma, todas essas manifestações são uma emergência médica e pedem rápida intervenção. Esses quadros requerem a atuação de vários especialistas como generalistas (clínicos gerais), neurologistas, intensivistas e neurocirurgiões.

Como é feito o diagnóstico?

Na maioria das vezes, pacientes em coma são atendidos pelo serviço de emergência. E como o indivíduo está inconsciente, quem oferece informações sobre o seu histórico de saúde é alguém da família ou acompanhante.

As primeiras providências médicas consistem no exame físico —para identificar ferimentos, uso de drogas, por exemplo— bem como na avaliação de sinais vitais como pulso, vias aéreas, padrões de respiração, pressão, além de resposta a estímulos motor, verbal, visão e reflexos, cujos resultados ajudarão a compreender a gravidade do coma.

Para esse fim, os médicos aplicam uma técnica específica chamada Escala de Coma de Glasgow que classifica, numericamente (de 3 a 15), as eventuais respostas do paciente. Quanto mais alta for essa pontuação, melhor será o nível de consciência. A explicação é de Janny Leonor Lourenço Ferreira, médica da UTI do Hospital das Clínicas da UFPE.

Já os exames laboratoriais ajudam a avaliar as funções renais e hepáticas, níveis de glicose, fatores de coagulação, incluindo o teste toxicológico, entre outros.

"Nessa fase são também importantes exames neurológicos, como a tomografia computadorizada —para investigar o local e natureza da eventual lesão, além da coleta de líquor, dada a suspeita clínica de meningite", acrescenta a especialista.

Como é feito o tratamento?

O neurologista Carlos Alexandre Twardowschy, chefe da residência em neurologia e professor da Escola de Medicina da PUC-PR fala que o objetivo terapêutico é trazer o paciente para o estado de normalidade o mais rápido possível.

Como nem sempre se sabe qual é a causa do coma, a primeira estratégia terapêutica é promover o perfeito funcionamento dos sistemas do organismo para garantir as seguintes condições:

  • Regular oxigenação
  • Manutenção da circulação
  • Controle da glicose
  • Redução da pressão intracraniana
  • Tratamento de infecções
  • Controle de convulsões
  • Equilíbrio de eletrólitos (sódio, potássio etc.)
  • Ajuste de temperatura

Twardowschy relata que pode ser ainda considerado o uso de antídotos específicos para reverter efeitos de medicamentos ou drogas. "Além disso, com o resultado de exames em mãos, é possível rapidamente direcionar o tratamento para o controle de eventuais enfermidades que deram origem ao coma", conclui.

Nos casos de traumas, ou nas situações em que o estado comatoso persiste, apesar dessas medidas, há necessidade de cuidados de UTI para suporte respiratório, porque o cérebro em coma não consegue coordenar as funções básicas, como a respiração.

O que esperar após o tratamento?

A recuperação desses pacientes é variável e dependerá da gravidade do quadro e das suas causas, além da idade e do tempo da duração do coma.

Na hipótese de uma intoxicação ou queda de glicose, há maiores chances de que o coma seja revertido. Já em outras situações mais graves, é difícil para o médico prever o que acontecerá, e quais serão os eventuais problemas no futuro.

Possíveis complicações

A médica Karina Litchteneker, professora da disciplina de saúde do adulto da UFPR-Toledo fala que o esperado é que pacientes em coma se recuperem entre 2 a 4 semanas. "Quando isso não ocorre, há dois cenários possíveis: a evolução para o estado vegetativo ou a morte cerebral", diz.

No primeiro caso, as áreas do cérebro que controlam o pensamento e o comportamento estão lesionadas, mas as que regem os ciclos do sono e temperatura, respiração e batimentos cardíacos estão preservadas.

Pode até haver abertura dos olhos, padrões de sono/vigília, mas a forma de se comunicar com o exterior se limita a respostas reflexas. Quando esse estado dura no tempo, é rara a recuperação da consciência, embora a vida possa ser preservada com cuidados especiais.

Já na morte cerebral ocorre a perda permanente da capacidade para todas as funções vitais, até a respiração, mesmo que o coração continue a bater.

Outras complicações em quadros menos graves são problemas decorrentes do longo tempo de intubação (lesões na traqueia ou pulmonares), infecções secundárias, problemas decorrentes da imobilidade como feridas ou atrofia pelo desuso de músculos, além de neuropatias (em pacientes críticos).

Quem está em coma pode ouvir o que se fala no ambiente?

Os especialistas consultados afirmam que essa dúvida ainda não foi esclarecida. Em tese, não é possível nenhuma interação.

Entretanto, alguns estudos têm concluído que pode haver resposta cerebral, o que é avaliado por meio de imagens funcionais.

Cogita-se que, ao ouvir a voz de um familiar, o paciente em coma apresente ativação de determinada área cerebral.

Dá para prevenir?

Sim. Muitas das causas do coma reversível decorrem de doenças que podem ser prevenidas ou controladas por meio da adoção de hábitos de vida saudável, adesão ao tratamento para controle da enfermidade e acompanhamento médico.

Entre os idosos, é preciso ter atenção redobrada à interação de medicamentos e às doses utilizadas.

Já os traumas podem ser evitados com medidas de segurança como o uso de capacetes, e mesmo o respeito aos limites de velocidade.

Qual é a diferença entre síncope e coma?

Embora a síncope também tenha como sintoma a perda da consciência, ela é caracterizada pela sua transitoriedade e a espontânea recuperação dos sentidos. No coma, a perda de consciência é persistente e a recuperação não é espontânea.

Entenda o coma induzido

Trata-se de uma prática utilizada pelos médicos para reduzir o metabolismo cerebral de forma provisória para que o paciente se recupere de algum problema específico.

Ele é provocado por meio do uso de sedativos, e o seu tempo de duração é controlado. Ao final desse período, o despertar é estimulado gradativamente.

Fontes: Karina Litchteneker, médica clínica geral e nefrologista, professora da disciplina de saúde do adulto da UFPR-Toledo (Universidade Federal do Paraná, campus Toledo); Janny Leonor Lourenço Ferreira, médica intensivista da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital das Clínicas da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), unidade vinculada à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh); Carlos Alexandre Twardowschy, neurologista, chefe da residência em neurologia e professor da Escola de Medicina da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná). Revisão técnica: Carlos Alexandre Twardowschy.

Referências: Bauer ZA, De Jesus O, Bunin JL. Unconscious Patient. [Updated 2021 Feb 7]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2021 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK538529/; Huff JS, Tadi P. Coma. [Updated 2021 Jan 31]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2021 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK430722/.

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