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Paola Machado

Desinibição alimentar está ligada à restrição calórica; entenda o que é

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

01/09/2021 04h00

Você e do tipo de pessoa que, após uma refeição calórica, sente que colocou tudo a perder e resolve liberar a alimentação sem freios?

Se a sua resposta foi sim, você pode ter o que chamamos de desinibição alimentar; assunto bastante estudado na nutrição comportamental, e que é considerado um comportamento de liberação da ingestão energética, em resposta a um determinado estímulo.

Aquele dia cansativo, uma sensação de tristeza, aquela ansiedade ou expectativa por algo que está para acontecer —todos estes podem ser gatilhos para reações alimentares impulsivas ou não planejadas.

No momento em que a reação de comer de maneira excessiva ou descontrolada acontece, o consumo alimentar pode ser muito grande, tendendo a constituir episódios de compulsão alimentar e posterior sentimento de culpa e frustração.

A prática regular da restrição alimentar, feita principalmente quando queremos perder peso, é a atitude mais associada com a desinibição. O fato de diminuirmos drasticamente a caloria diária consumida ou a redução na quantidade de carboidratos ou lipídios ou qualquer outro nutriente da alimentação pode até resultar em uma perda de peso brusca e rápida, mas certamente de difícil manutenção, principalmente se esta restrição ocorrer por longos períodos.

Sem dúvida, o desenvolvimento de uma consciência alimentar e de saúde seria o elemento central para a prática de condutas menos restritivas e resultados mais sustentáveis.

Outro ponto a ser considerado é a compreensão dos elementos que constroem o nosso comportamento alimentar como as crenças, os gatilhos emocionais, as preferências, aversões e intolerâncias alimentares entre outros fatores, inclusive o estresse emocional.

A teoria chamada de Modelo Psicossomático da Obesidade descreve a ocorrência de mecanismo compensatório em situações de ansiedade, depressão, tristeza, raiva, principalmente em mulheres, resultando em um consumo alimentar excessivo.

A multifatoriedade deste processo torna-o mais complexo e por isto não deve ser banalizado, a partir da crença de que uma dieta de moda ou sem embasamento científico, vista de modo generalizado, conseguirá consertar todo o problema.

Para situações como esta ou semelhantes a ela, a alimentação intuitiva, que enfatiza a importância em detectarmos e confiarmos em nossos sinais internos de fome e saciedade por exemplo, pode ser o caminho para uma mudança de atitude mais efetiva, sem cobranças ou culpa inclusive desenvolvendo a permissão para comer conscientemente.

O balanço que conseguimos extrair dos fatores mencionados é que a prática regular e sistemática de práticas alimentares restritivas com a finalidade principalmente de emagrecer, está fadada a falhar e diretamente associada ao ganho de peso e o desenvolvimento de um comer disfuncional.

Portanto, se você tem este hábito e acredita que é o único caminho, busque auxílio profissional para desconstruir este conceito e abrir caminho para uma relação mais amigável com o alimento e a nutrição.

*Colaboração da nutricionista comportamental Samantha Rhein (Unifesp)

Referências:

- Comportamento de Restrição Alimentar e Obesidade. Comunicações, Rev. Nutr. 18 (1). Fev 2005.

- Francielle Rodrigues da Fonseca Rech. Variação ponderal e comportamento alimentar: restrição, alimentação intuitiva e consciente e autoeficácia alimentar. Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, 2021.

- Kollei, I., Rustemeier, M., Schroeder, S., Jongen, S., Herpertz, S., & Loeber, S. (2018). Cognitive control functions in individuals with obesity with and without binge?eating disorder. International Journal Eating Disorders. Doi: https://doi.org/10.1002/eat.22824.

- Farah, J. F. S., & Castanho, P. (2018). Dimensões psíquicas do emagrecimento: por uma compreensão psicanalítica da compulsão alimentar. Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental, 21(1), 41-57. http://dx.doi.org/10.1590/1415-4714.2018v21n1p41.4.