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Paola Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Fique atento aos sinais de que seu treino está controlando você

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

05/08/2021 04h00

Já sabemos que o exercício físico é uma das principais ferramentas para a promoção de saúde, ajuda na prevenção de doenças do coração e melhora o humor e a qualidade de vida. Porém, o que chama a atenção atualmente é que mais de 30% dos praticantes de atividades físicas apresentam um comportamento de excesso de treinamento ou vício pelo treinamento. Essa compulsão, apesar de associada a algo que traz benefícios, pode prejudicar a saúde.

Uma pesquisa realizada no Brasil em 2009 (Mododo, V.M. et al) analisou o comportamento de atletas profissionais de diversas modalidades, incluindo jogadores de futebol, vôlei, judocas e ginastas, e os comparou com praticantes amadores de atividade física regular. Conclusão: 36% dos amadores e 33% dos profissionais apresentavam o que chamamos de dependência de exercícios e tinham uma piora na qualidade de vida e do humor por conta deste vício.

Aumento de ansiedade e depressão, insônia, agressividade, alterações no sistema imunológico, lesões e alterações hormonais são características de atletas que apresentam o sintoma de dependência.

Nesses casos, quanto mais exercício a pessoa faz, mais ela precisa fazer, podendo chegar a um estágio de overtraining, síndrome neuroendócrina que resulta em modificações fisiológicas e/ou psicológicas. Às vezes, o atleta treina mesmo impedido clinicamente, quando está com uma lesão ou fratura grave. O problema ainda pode estar diretamente associado a distúrbios alimentares (anorexia e bulimia) e a transtornos de imagem corporal (vigorexia).

Outro elemento que impacta negativamente o viciado é a substituição de atividades do cotidiano pelo treinamento físico. Há casos de pessoas que perdem compromissos profissionais para treinar. Em 2012, foi lançada uma organização com intuito de ajudar profissionais a ficarem atentos aos sinais e sintomas da dependência de exercício.

O nome é "Destructively Fit". Criado pela ACE e certificado pela NASM, o projeto surgiu pensando em aumentar a conscientização na área fitness e de saúde mental, pois muitos profissionais não sabem detectar o vício pelo treinamento. Os estudiosos desse projeto acreditam que a dependência do exercício é uma doença e não um vício. O excesso de exercício é parte de um transtorno, sendo um desequilíbrio e um desvio de comportamento.

Logo no início da minha coluna fiz um texto muito bacana —até com link para questionários— sobre vício em treino. Clique aqui.

O vício em exercícios não é um transtorno mental oficial. No entanto, a ligação entre o exercício compulsivo e a alimentação desordenada costuma andar de mãos dadas. Embora a sequência de exercícios compulsivos seja ampla, ser capaz de identificar os sinais precocemente pode ajudá-lo a interromper o ciclo antes que ele atinja o nível de dependência. Preste atenção em alguns pontos:

  • Você se exercita para compensar as refeições ou partes do corpo de que não gosta: O maior sinal de que seu hábito de exercícios não é realmente saudável é se você está se exercitando com muita frequência e intensidade para compensar ou pela ingestão diária de alimentos, ou pelo que você percebe ser verdade sobre o seu corpo.
  • Você está sempre na academia: Se a equipe da recepção da sua academia souber mais sobre você do que seus colegas de trabalho, você pode estar gastando muito tempo lá. Pessoas que são obcecadas pela academia e exercícios podem passar três ou quatro horas por dia ou frequentar a academia algumas vezes por dia.
  • Você muda os planos para acomodar sua programação de treino: Você cancela planos no último minuto ou faz ajustes em sua programação para ajustar seus treinos? Saiba que as pessoas viciadas em academia frequentemente mudam seus planos ou planejam atividades e compromissos sociais em torno do tempo que normalmente passariam na academia.
  • Seus sentimentos sobre o exercício incluem palavras como obrigatório, culpa e ansiedade: Quando se trata de exercícios, o objetivo é se sentir melhor --não pior. Os seguintes sinais indicam que uma relação saudável com a atividade física pode estar em transição para um hábito não saudável, obsessão ou compulsão perigosa, como: "Você mantém um regime rígido de exercícios apesar das condições climáticas perigosas ou ameaças à saúde física, mental ou ambas"; "Você experimenta medo, ansiedade ou estresse persistentes em relação às mudanças negativas do corpo se você não pode se exercitar"; "A ideia de não se exercitar deixa você ansioso"; "Você se sente culpado se perder ou não concluir uma sessão de exercícios".
  • Seus resultados estão diminuindo: Muito tempo na academia muitas vezes pode levar a resultados negativos como overtraining. O overtraining ocorre quando trabalhamos em excesso e sempre no limite, resultando em fadiga crônica e redução do desempenho. Esse quadro é comum em atletas e pessoas com dependência do exercício. Assim, ocorre uma falta de progresso no treino, resultando na necessidade aumentada da fase de recuperação.
  • Você tem uma imagem corporal negativa: Muitas pessoas viciadas em academia descobrem que têm uma imagem corporal ruim. Eles veem uma versão irreal de si mesmos e se esforçam para aperfeiçoá-la, mesmo que não seja saudável. Uma imagem corporal distorcida pode levar a transtornos alimentares, bem como a exercícios físicos excessivos.

Dicas para uma relação mais saudável com os exercícios

  • Mantenha um diário de exercícios: Um diário de exercícios o ajudará a identificar sentimentos e padrões relacionados aos exercícios, por isso inclua os dias em que você se exercita, as atividades que você faz, como você se sente enquanto treina, quanto tempo você dedica ao preparo físico naquele dia, como você se sente (emocionalmente e fisicamente) quando não está malhando e em seus dias de descanso.
  • Depois de identificar esses sentimentos, você pode trabalhar para encontrar maneiras de mudar a mentalidade em torno do movimento para "liberdade" e "mobilidade" em vez de "punição", sendo fundamental para o sucesso de uma jornada de bem-estar sustentável.
  • Mude. Se algum dos sinais de alerta soar familiar, pode ser hora de uma mudança. Idealmente, você deve permitir que seu corpo descanse e se recupere, mas todos nós sabemos como isso pode ser difícil.
  • Se o pensamento de descanso completo faz sua ansiedade exagerar, considere trocar alguns de seus treinos por dias de pausa ativa. O envolvimento em atividades como ioga, caminhada e natação proporcionam ao corpo e à mente uma pausa muito necessária.
  • Procure ajuda profissional. Muitas vezes, a busca para encontrar o equilíbrio entre exercícios saudáveis e saúde mental é procurar alguém especializado em exercícios ou psicologia do esporte. Eles podem ajudá-lo a identificar os padrões e comportamentos que contribuem para seu relacionamento doentio com os exercícios e trabalhar para encontrar maneiras de tornar a forma física uma parte equilibrada de sua vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL