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Paola Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Covid-19: o que se sabe sobre a perda de olfato e paladar

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do VivaBem

17/02/2021 04h00

Ontem, expliquei os diferentes fatores que podem levar à redução ou até perda do paladar. Hoje, vou explorar um pouco mais sobre esse sinal e a sua relação com a covid-19.

No ano passado, quando muitas questões foram levantadas e começamos a explanar sobre os sinais e sintomas da doença provocada pelo coronavírus, logo veio a descoberta que pessoas com covid-19, mesmo sem apresentar outros sintomas, poderiam perder o paladar e olfato, reduzindo a capacidade de detectar sensações desencadeadas quimicamente, como o sabor picante, chamado quimestesia.

Já se passou quase um ano de pandemia e, para a surpresa dos pesquisadores, algumas pessoas ainda não recuperaram esses sentidos ou mesmo o distorceram —há relatos de pessoas que não suportam mais o sabor da carne, outros que intensificaram o sabor do doce.

Os dados científicos apontam que esse sinal é comum:

  • Uma revisão feita por Agyeman e colaboradores (2020), que compilou dados de 8.438 pessoas com covid-19, mostrou que 41% relataram perda de olfato;
  • Um estudo por Moein e colaboradores (2020) administrou um teste de identificação de odores em 100 pessoas com covid-19 e identificou que 96% tiveram alguma disfunção olfativa e 18% tiveram perda total do olfato (anosmia);
  • Pierron e colaboradores (2020) descobriram que mudanças autorrelatadas no cheiro ou no paladar eram um marcador melhor da disseminação da infecção do que outros indicadores.

Mas por que pessoas com covid-19 perdem o olfato e o paladar?

Covid e perda de olfato - Glezer, I, Bruni?Cardoso, A, Schechtman, D, Malnic, B. Viral infection and smell loss: The case of COVID?19. J Neurochem 2020; 00: 1? 14. https://doi.org/10.1111/jnc.15197  - Glezer, I, Bruni?Cardoso, A, Schechtman, D, Malnic, B. Viral infection and smell loss: The case of COVID?19. J Neurochem 2020; 00: 1? 14. https://doi.org/10.1111/jnc.15197
Imagem: Glezer, I, Bruni?Cardoso, A, Schechtman, D, Malnic, B. Viral infection and smell loss: The case of COVID?19. J Neurochem 2020; 00: 1? 14. https://doi.org/10.1111/jnc.15197

Embora os mecanismos não sejam totalmente compreendidos, pesquisadores acreditam que a perda do olfato ocorre quando o coronavírus infecta as células que sustentam os neurônios do nariz.

Todo vírus é um parasita celular e precisa de uma célula para parasitar e sobreviver. Entretanto, como não temos ainda imunidade para o coronavírus, ele, para entrar "despercebido" no organismo e não dar tempo de ser detectado, dá um grande "golpe phishing". Na sua estrutura ele tem uma proteína na superfície, chamada proteína spike, que se liga ao receptor ECA2 assim que o vírus é ativado por uma protease de membrana celular chamada TMPRSS2. Quando ele se liga a esse ECA2, consegue entrar na célula humana sem o organismo perceber e gera o que chamamos de down-regulation, isto é, reduz a expressão dessa enzima ECA2 na membrana celular.

Dessa forma, pesquisadores descobriram que as células que sustentam os neurônios sensoriais no nariz —células sustentaculares— são cheias de receptores ECA2, já os neurônios sensoriais olfatórios, não —sugerindo que o coronavírus infecte as células de suporte, deixando os neurônios vulneráveis

Porém, essa é uma das hipóteses, podendo haver outras explicações para esses sintomas. Um estudo de Cazzolla e colaboradores (2020) mostrou que essas alterações podem estar relacionadas ao aumento de IL-6 (interleucina-6, considerada uma sinalizadora inflamatória).

Ainda falta muito a ser descoberto, já que os mecanismos envolvidos no olfato são distintos ao paladar e quimestesia, embora todos estejam alinhados para a detecção do "sabor" de um alimento ou bebida —valer reforçar que o paladar depende principalmente dos receptores gustativos da língua, enquanto a quimestese se baseia nos canais iônicos dos nervos sensoriais, entre outros mecanismos.

Para a maioria das pessoas, o olfato, o sabor e a quimestesia voltam em semanas:

  • Reiter et al (2020) apontou que 72% das pessoas com covid-19 que tinham disfunção olfatória relataram que recuperaram o olfato após um mês, assim como 84% das pessoas com disfunção gustativa.
  • Boscolo-Rizzo e colaboradores (2020) acompanharam 202 pacientes por um mês, que mostraram um rápido retorno dos sentidos. Desses, 49% relataram recuperação completa e 41% relataram uma melhora.
  • Uma reportagem da Nature (2021) relata casos de algumas pessoas em que os sentidos não retornaram imediatamente e melhoraram lentamente ao longo de um longo período; havendo registros de que "a medida que a pessoa recupera o olfato, os odores costumam ser registrados como desagradáveis.
  • Há relatos ainda de pacientes que permanecem totalmente anosmáticos por meses e não está claro o porquê, sendo uma das hipóteses que a infecção por coronavírus pode ter "matado" os neurônios sensoriais olfatórios.

Vale reforçar que os prejuízos da perda total desses sentidos não são bem estudados, porém, a perda pode causar efeitos negativos para a saúde. Além de estar intimamente associado a experiências de prazer em nossas vidas, o olfato tem papel crítico para detectar perigos como a fumaça de um incêndio, gases tóxicos ou mesmo odores ruins de comida estragada. O sentido do olfato é parte integrante da nossa segurança, atuando como um sistema de alerta, mas também funciona para nos dar prazer na vida cotidiana.

Como recuperar os sentidos?

A falta de pesquisas significa que há poucos tratamentos estabelecidos. Mas uma opção é o treinamento do olfato, no qual as pessoas cheiram os odores prescritos regularmente para reaprendê-los.

O melhor nível de evidência apoia a integração de um protocolo de treinamento olfativo em sua rotina, citado por Hopkins. Este protocolo se concentra no uso de conjuntos de óleos, bem como a imagem desse cheiro. Um dos óleos incluídos neste protocolo é o óleo de rosa (Hopkins cita também limão, eucalipto, dente de alho e até café). A ideia é cheirar o perfume por 10 segundos com respirações lentas e profundas e depois refletir sobre a imagem das rosas e o odor que elas tinham antes da perda do olfato. Isso porque o olfato e a memória estão intimamente ligados no córtex, a parte do cérebro que lida com a emoção e a memória. Na verdade, o córtex está fisicamente conectado às áreas de processamento olfativo primário. O recomendado é que as pessoas façam isso duas vezes por dia durante quatro meses.

Um ensaio clínico em andamento está analisando os suplementos de ácido graxo ômega-3 como um possível método para tratar a perda do olfato. Um estudo recente da Trusted Source descobriu que, embora o zinco tenha mostrado evidências de reduzir a duração e a gravidade do resfriado comum, o uso excessivo de sprays nasais que contêm zinco pode afetar sua capacidade de sentir cheiro.

Referências:

Glezer, I, Bruni?Cardoso, A, Schechtman, D, Malnic, B. Viral infection and smell loss: The case of COVID?19. J Neurochem 2020; 00: 1- 14. https://doi.org/10.1111/jnc.15197

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Boscolo-Rizzo P, Borsetto D, Fabbris C, et al. Evolution of Altered Sense of Smell or Taste in Patients With Mildly Symptomatic COVID-19. JAMA Otolaryngol Head Neck Surg. 2020;146(8):729-732. doi:10.1001/jamaoto.2020.1379

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL