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Qualidade muscular: por que ter muitos músculos não é sinônimo de força

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Colunista do VivaBem

30/07/2020 04h00

Quando vemos uma pessoa muito musculosa, logo associamos que ela é forte. Mas não é bem assim. Se o assunto é força, temos que focar não só na quantidade de musculatura, mas também em sua qualidade.

Para ter uma ideia, duas pessoas com músculos igualmente volumosos podem ter diferentes níveis de força —e isso pode ser diferente dentro do corpo de uma mesma pessoa, ou seja, a perna esquerda pode ser mais forte que a direita. Essa capacidade de um músculo produzir força por unidade de volume é chamada "qualidade muscular" ou QM.

Como são os músculos

O músculo é composto do tecido contrátil e não contrátil, sendo que neles existem as fibras musculares dispostas em paralelo que têm uma grande quantidade de miofibrilas —constituídas por sarcômeros, que são compostos por actina e miosina que se sobrepõem e dão ao músculo a capacidade de se relaxar ou contrair.

A qualidade muscular é determinada pelas quantidades relativas desses tecidos contráteis e não contráteis, sendo que quanto maior a proporção do tecido contrátil de um músculo em relação ao tecido não contrátil, maior a quantidade de força que ele pode produzir e maior a sua qualidade muscular.

O tecido contrátil, que é constituído por fibras especializadas que permitem ao músculo exercer força, é tão importante em exercícios aeróbicos, como correr, quanto em exercícios anaeróbicos, como musculação.

O tecido não contrátil, que consiste principalmente de tecido conjuntivo e tecido adiposo (gordura), também é importante para o músculo de diferentes maneiras. O tecido conjuntivo fornece integridade estrutural ao músculo e os depósitos de gordura no interior do músculo podem ser uma fonte de energia. No entanto, quando a gordura se acumula em excesso, aumenta a porcentagem não contrátil do músculo e reduz a qualidade muscular, mesmo que o músculo não possa diminuir visivelmente, sua capacidade de produzir força diminuirá.

Por isso, quanto mais tecido contrátil for constituído em um músculo, mais forte será e maior será a qualidade do músculo. Um estudo de Sébastien Barbat-Artigas et al. de 2014 reforça conclusões divergentes que emergem da literatura a respeito da relação entre qualidade muscular (definida como força muscular por unidade de massa muscular) e função física. Esses resultados contrastados podem ser devido à influência de fatores como idade, obesidade e massa muscular.

Os resultados mostram que a massa muscular, a obesidade e a idade influenciam a relação entre qualidade muscular e função física, sugerindo que esses fatores devem ser levados em consideração na interpretação da musculatura. Dessa forma, se os níveis de gordura corporal forem altos, o músculo terá uma qualidade muscular comprometida e, da mesma forma, o envelhecimento —com a sarcopenia — pode afetar negativamente a qualidade dos seus músculos de diferentes maneiras.

Em 10 anos de estudo, Hughes e colaboradores relataram que menos de 5% das alterações na força muscular eram atribuíveis a alterações no tamanho do músculo. Eles indicam um provável envolvimento de fatores neurais que contribuam parcialmente para a dissociação entre massa muscular e função muscular, mas a maior parte dessa dissociação pode ser explicada por fatores específicos do músculo e variações em sua capacidade intrínseca de gerar força —qualidade muscular.

Embora a qualidade muscular seja geralmente calculada como a razão da força muscular por unidade de quantidade muscular, na verdade reflete várias características musculares, como sua arquitetura, sua composição em termos de tipagem de fibras ou seu conteúdo lipídico, bem como a capacidade tecidos conjuntivos para transmitir a força produzida pelos tecidos contráteis, os quais requerem ferramentas e técnicas sofisticadas que não estão necessariamente disponíveis, especialmente em estudos de larga escala.

Variações em uma ou mais dessas características e, portanto, na qualidade muscular, podem explicar por que indivíduos com massa muscular semelhante não têm necessariamente força muscular semelhante e, consequentemente, não têm riscos semelhantes de apresentar prejuízos. Por esse motivo, a qualidade muscular está sendo cada vez mais reconhecida como um determinante importante da função muscular. O tamanho muscular, tipo de fibra, arquitetura, capacidade aeróbica, tecido adiposo intermuscular, fibrose e ativação neuromuscular contribuem potencialmente para a qualidade muscular.

As diferenças na qualidade muscular podem ocorrer não apenas entre indivíduos, mas também entre os mesmos músculos em diferentes lados do corpo. Se a qualidade muscular da perna direita for maior que a da perna esquerda, por exemplo, ela produzirá maior força durante a corrida. Isso pode resultar em sutis diferenças de alinhamento do quadril e pernas que podem reduzir a eficiência da corrida e, com o tempo, aumentar o risco de lesões. Embora a qualidade muscular não reflita necessariamente o seu nível de condicionamento físico, fortes evidências sugerem que equalizar diferenças entre as pernas aumentará o desempenho e reduzirá o risco de lesões.

Como saber sua qualidade muscular?

A qualidade muscular é difícil de ser mensurada, pois os cálculos típicos de qualidade muscular envolvem algum tipo de teste de força máxima da musculatura envolvida, bem como uma medida de sua massa muscular ou área transversal usando equipamento eletrônico sofisticado, caro e relativamente inacessível. O ultrassom é uma maneira cada vez mais disponível, conveniente e não invasiva de medir a qualidade muscular mais diretamente.

Para melhorar a qualidade da musculatura, você deve aumentar a força do tecido contrátil, reduzir a quantidade de tecido não contrátil ou fazer as duas coisas simultaneamente por meio do treinamento de força e reduzir o tecido adiposo intramuscular. Foque em treinamentos de força, na velocidade de execução —nada de fazer mil repetições mal feitas, melhor realizar a movimentação com uma carga que consiga controlar o movimento e realizar em uma velocidade lenta —, concentre-se na movimentação —não fique mexendo no celular e realizando a movimentação de qualquer jeito. Da mesma forma, a qualidade do treino importa muito mais que a quantidade.

Executando exercícios da forma correta e com supervisão profissional, você melhorará seu desempenho esportivo, reduzirá o risco de lesões e aumentará suas atividades diárias e seu estado de saúde, seja você um atleta ou não atleta, idoso ou jovem.

Referências:

- Barbat-Artigas, S. et al. Muscle Quantity Is Not Synonymous With Muscle Quality. JAMDA 14 (2013) 852.e1e852.e7.

- Heymsfield, S., Gonzalez, M., Lu, J., Jia, G., & Zheng, J. (2015). Skeletal muscle mass and quality: Evolution of modern measurement concepts in the context of sarcopenia. Proceedings of the Nutrition Society, 74(4), 355-366. doi:10.1017/S0029665115000129.

- Goodpaster, B.H. et al. The Loss of Skeletal Muscle Strength, Mass, and Quality in Older Adults: The Health, Aging and Body Composition Study. Journal of Gerontology: MEDICAL SCIENCES. 2006, Vol. 61A, No. 10, 1059-1064.

- McGregor RA, Cameron-Smith D, Poppitt SD. It is not just muscle mass: a review of muscle quality, composition and metabolism during ageing as determinants of muscle function and mobility in later life. Longev Healthspan. 2014;3(1):9. Published 2014 Dec 1. doi:10.1186/2046-2395-3-9.

- Vilaça, Karla H. C., Alves, Natália M. C., Carneiro, José A. O., Ferriolli, Eduardo, Lima, Nereida K. C., & Moriguti, Julio C.. (2013). Body composition, muscle strength and quality of active elderly women according to the distance covered in the 6-minute walk test. Brazilian Journal of Physical Therapy, 17(3), 289-296.

- Hughes VA, Frontera WR, Wood M, et al. Longitudinal muscle strength changes in older adults. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2001;56:B209eB217.

- Volpato S, Bianchi L, Lauretani F, et al. Role of muscle mass and muscle quality in the association between diabetes and gait speed. Diabetes Care 2012;35: 1672e1679.

- Newman AB, Kupelian V, Visser M, et al. Strength, but not muscle mass, is associated with mortality in the health, aging and body composition study cohort. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2006;61:72e77.

- Goodpaster BH, Carlson CL, Visser M, et al. Attenuation of skeletal muscle and strength in the elderly: The Health ABC Study. J Appl Physiol 2001;90:2157e2165.

- Newman AB, Haggerty CL, Goodpaster B, et al. Strength and muscle quality in a well-functioning cohort of older adults: The Health, Aging and Body Composition Study. J Am Geriatr Soc 2003;51:323e330.