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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pessoas idosas brincam? É hora de falarmos mais sobre isso!

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

04/10/2021 04h00

É assim que começo esse texto. Será que pessoas idosas brincam? Não quero aqui me referir aos momentos nos quais eram crianças e brincar estava mais à disposição e havia uma maior aceitação da sociedade, por mais que irmãos e irmãs mais velhos já tinham que intercalar suas brincadeiras com outras atividades como cozinhar, lavar ou varrer, com ou sem a supervisão da mãe ou responsável.

A atualidade mostra um cenário bem diferente quando o assunto é pessoas idosas brincando. Talvez, o mais comum, a cena mais frequente, seja de pessoas idosas não brincando, ou seja, estão ali sentadas e observam outras pessoas brincando, sejam netas, netos, bisnetos e bisnetas.

Algumas vezes, seus filhos estão brincando, mas não tão intensamente quanto a geração mais nova. E, essa geração mais nova, brinca do jeito que dá. Não considerando apenas se há brinquedos à disposição, mas, principalmente, se há tempo disponível.

Pais e mães estão cada dia mais cansados e envolvidos com seus celulares e chega a ser uma competição desleal essa convocação para que brinquem. Com argumentos de que precisam trabalhar muito ou de que já é tarde para deixar crianças agitadas e com dificuldade para dormir, observa-se uma geração que envelhece brincando pouco. Serão velhas e velhos que ainda não estarão brincando.

Para especialistas, brincar é algo essencial para a vida. E não há dúvida sobre isso. Rubem Alves conta em um de seus livros que mães e pais, enquanto brincam com seus filhos, podem ensiná-los a andar, sem uma metodologia específica.

Cada pai ou mãe brincou-ensinou seu filho a andar de um jeito único. Nem andadores são mais recomendados tamanha a importância do deixar brincar e acontecer na hora exata, que só uma criança sabe. A atualidade nos mostra que, a partir das "brincadeiras" do videogame, muitos problemas de adultos são solucionados.

A pedagogia tem evidenciado que ambientes com um pouco de ludicidade que, indiretamente, é trazer um afeto que não da cobrança ou da disciplina obrigatória, ajuda no processo de ensino e aprendizagem.

Então, por que idosos, idosas e muitas pessoas adultas não brincam?

Talvez a resposta para isso possa estar bem lá atrás, quando nosso país foi invadido e, séculos depois, importamos um estilo de vida baseado na produção e no acúmulo. O professor e doutor Jessé de Souza argumenta que, junto com o nosso modelo econômico, incorporamos um estilo de vida que deprecia, invalida ou omite possibilidades de lazer e, na minha opinião, das oportunidades de brincar.

É o pensamento constante no trabalho, na busca pelo melhor emprego, no acúmulo de bens materiais, na aquisição de bens materiais mais caros e na valorização de itens nomeados como "essenciais" para enaltecer que prosperidade só pode ser vista na perspectiva capitalista, da valorização do bem individual e não coletivo.

Brincadeiras poderiam muito nos mostrar a importância de quando algo que faz bem para um grupo, faz ainda um bem maior para o indivíduo, vide pega-pega, esconde-esconde e jogos esportivos em grupo.

Daí toda uma vida é construída sem prestar atenção sobre quando se deixou de brincar e por quais motivos. Se adultas ou idosas, já brincaram nesses ciclos da vida? Será que pessoas idosas brincaram com outras pessoas depois que deixaram de ser crianças? Foi pelo trabalho precoce na adolescência e que não mais parou? Foram os inúmeros filhos que chegaram e o brincar ficou mais como uma atividade de filhos e filhas mais velhas que brincavam com irmãos e irmãs mais novos?

E agora que a velhice chegou? Pessoas mais velhas conseguem brincar diante da sua disposição, da sua saúde física e do quanto, socialmente, se permitem brincar? A sociedade julga pessoas idosas que brincam com outras pessoas mais jovens que ela? E uma outra pergunta: pessoas idosas de hoje aprenderam que brincar pode ser realizado com pessoas de outras gerações?

São poucas ou pouco divulgadas as imagens de velhas e velhos brincando com pessoas mais jovens. Há sim, muitas imagens de pessoas idosas ensinando algum ofício para as pessoas mais jovens que elas, ou em situações de cuidado, como arrumando a roupa, o cabelo, a alimentação. Mas parece que pessoas velhas não aprenderam a brincar e, por isso, não se permitem brincar e podem até ficarem bravas quando são, insistentemente, convidadas por netas e netos a brincar.

Filhos e filhas já aprenderam, antes mesmo de terem seus próprios filhos, de que os pais não gostam de certas brincadeiras. E certas brincadeiras costumam envolver o movimento físico, o contato, o riso, o ficar no chão, a horizontalização das relações intergeracionais, não apoiadas em valores morais e éticos rígidos e, por vezes, ultrapassados.

Veja que brincar é falar do lúdico e, para especialistas, atividades lúdicas envolvem o movimento, e temos já um problema para uma sociedade cada vez mais sedentária. São atividades que produzem prazer durante sua execução, é diversão pura. Não me parece que a grande maioria das pessoas idosas é livre para se divertir.

Avô, velho, idoso, com seu neto, abraço, vô e netinho - iStock - iStock
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Atividades do brincar têm regras mais livres, não as disciplinas que muitos idosos aprenderam com seus pais e mães. É realizar atividades com prazer e aqui um dos maiores problemas para uma sociedade historicamente desigual na oferta de oportunidades. E são atividades que propõe risadas, surpresas e desafios. Não sei o quanto pessoas velhas de hoje puderam ter essas possibilidades distribuídas nas suas décadas vividas até então.

Nossa sociedade também não brinca tanto quanto antes. E hoje, quando brinca, precisa render reais, curtidas ou engajamento. Não é o brincar pela simples ludicidade, pela simples risada, pele ralada ou roupa que fica suja.

Crianças de hoje já estão deixando de brincar com a mesma espontaneidade de décadas atrás. Aquelas que moram em regiões com bom sinal de internet, brincam de mostrar para outras crianças a brincadeira que estão fazendo. E a exibição chega a ser mais importante que os risos. É necessário cenário, frases treinadas. Elas se divertem assim, mas é algo novo, para não dizer estranho.

No mundo das redes sociais, chega a ser exótico quando crianças, em alguma parte do mundo, simplesmente brincam, inclusive imitando o uso das novas tecnologias. Inventam smartphones, notebooks, redes sociais, aparelhos eletrônicos ou TV. Enfim, tudo que deveria ser rotina para todas as faixas etárias, ganhou status de quadro de arte, que se admira e recomenda-se a contemplação.

Brincar é algo extraordinário que gera convívio social, que melhora os "pactos" seja de quem começa ou quando o outro não pode fazer uma jogada ou movimentação corporal. Além disso, brincar ajuda a ter mais respeito, concentração, o foco em estar mais presente em um só lugar e não em várias abas ou aplicativos abertos simultaneamente. E, de forma proposital aqui no texto, também melhora a saúde, em todos os aspectos. Brincadeira deveria ser prescrição pronta e já impressa que todas e todos os profissionais de saúde deveriam fazer para todas as pessoas, sem exceção.

Talvez a gente precise encontrar as tais evidências científicas que comprovem que brincar é necessário, que ajuda a prevenir quadros demenciais, que reduz o risco de quedas, que previne o avanço das doenças cardiovasculares e do diabetes.

Precisamos que algum político tenha como bandeira da sua gestão a implantação de um Programa Nacional de Brincadeiras para todas as idades, atrelada a um bom orçamento.

A exigência seria a descentralização das ações, ou seja, que o bairro de cada município tivesse autonomia de investir nas brincadeiras que quiser, sempre valorizando a cultura local. A verba dobraria se a prefeita ou prefeito comprovasse que houve a inclusão de brincadeiras de outras regiões, criando um repertório muito diversificado para todas as gerações de brincantes.

Mas há um lado positivo quando velhos e velhas se permitem brincar! Ah, aí o mundo é diferente! O sorriso de netos e netas vem fácil quando alguém fala que em breve avós e avós irão visitá-los! Filhos e filhas, agora na condição de pais mães, se lembram das inúmeras vezes que suas mães e seus pais brincaram com eles!

É um parágrafo que escrevo repleto de exclamações, porque pessoas idosas brincando é o mundo em sintonia, é o convívio intergeracional nos seus momentos mais íntimos, é a troca cultural mais enriquecedora, é a ancestralidade manifestada em corpos velhos, de adultos e de crianças juntos e criando lembranças eternas! É a neta pulando no colo de avô e avó para brincar, é pega-pega no quintal, o chute a gol, o jogar videogame, o pular corda e por aí vão as brincadeiras, já que a criatividade traz versões e inovações de uma brincadeira que sempre existiu.

A gerontologia anda muito séria e deixando pessoas idosas e pessoas envolvidas com elas perdendo, gradativamente, sua ludicidade. É hora de falarmos mais sobre isso! Brincadeiras são necessárias e fazem bem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL