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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Doença não é sobrenome de pessoas idosas; por que insistimos nisso?

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

09/08/2021 04h00

Obaluaê é um dos orixás mais respeitados no candomblé. É o Senhor da Terra. Ele é um sábio conhecedor dos mistérios da morte e do renascimento. É ele quem diz que uma febre intensa pode esquentar os corpos ou matar os inimigos. Aquele que não o respeita, morre prematuramente pela manhã. É a divindade que controla a varíola, as epidemias e a cura delas todas.

Quando se olha para a história sobre a doença e a saúde, vida e morte, percebe-se momentos nos quais doença esteve associada a pecado e impurezas. Já saúde era a virtude, o bom comportamento moral e ético, segundo o que se acreditava naquele tempo. Além disso, não era comum que pessoas vivessem tanto tempo como nos dias de hoje. Quarenta anos já era considerada uma idade avançada.

Assim, considerando o tempo de vida do planeta Terra, é recente a presença de tantas pessoas velhas vivas no meio de tanta gente jovem. Países em desenvolvimento, como o Brasil, têm uma história ainda mais recente com grisalhos e grisalhas. Pessoas negras escravizadas no Brasil dificilmente eram negociadas ou morriam mais precocemente se comparadas às pessoas de pele clara.

Durante a estruturação da industrialização aqui, também não se tinha tantas pessoas velhas trabalhando e o modelo de estilo de vida importado pouco contribui para um rápido aumento de pessoas idosas. Nunca foi um plano real envelhecer a população brasileira. Foi uma das últimas políticas a serem pensadas já em dias de democracia, pois era necessário garantir proteção e direitos específicos para pessoas mais velhas.

A descoberta dos antibióticos e das medidas de saneamento básico foram essenciais para a redução de muitas mortes. Não é à toa que, em muitas regiões do nosso país, casais que tinham vários filhos e filhas, esperavam quem iria "vingar", ou seja, não morrer, para só então atribuir um nome a essa criança.

Nas últimas décadas, o fenômeno que se passou a observar foi o aumento das doenças crônicas não transmissíveis, ou seja, doenças que vão gradativamente afetando um ou mais sistemas fisiológicos e não causando mortes em um curto período, como envenenamento ou certas doenças infecciosas. São doenças como a osteoartrose que geram enormes incapacidades, abrindo portas para a instalação de outras doenças, como a depressão, obesidade, hipertensão arterial e até para doenças infecciosas.

Até algumas décadas atrás, essas doenças afetavam somente as pessoas mais velhas. Agora não mais. Os adultos e jovens também passaram a adoecer precocemente e, em algumas situações, apresentam uma saúde mais comprometida se comparada à saúde de seus pais, muitos já septuagenários ou octogenárias.

O ponto para a nossa reflexão é: por que ainda insistimos em falar sobre doença quando pensamos na saúde de pessoas idosas? Na construção social que fazemos das pessoas velhas sempre há sinais e sintomas de alguma doença associada.

Se é osteoartrose, as deformações possíveis em algumas articulações reforçam estereótipos de fragilidade e menor independência física. Se há déficit cognitivo presente, construímos um perfil no qual a irreversibilidade impede expectativas positivas e a doença venceu a vida, o propósito.

Quantas crianças, adolescentes, jovens e adultos têm doenças presentes nas suas vidas e isso não é enaltecido e não invalida suas competências? Conseguem viver sem muitas vezes ser percebida alguma limitação decorrente de uma ou mais doenças instaladas em seus corpos.

É estranho e, ao mesmo tempo, naturalizado, como fazemos o contrário para pessoas mais velhas. O nome da doença chega a tomar o lugar do sobrenome! Sim, é o sr. Fulano, aquele que manca, ou a sra. Fulana, aquela meio esquecida da cabeça!

O cuidado é o caminho a ser percorrido para a valorização da saúde e sobre como olhar diferente para os corpos envelhecidos. Será que conseguimos visualizar um corpo de um homem com 95 anos de idade e aceitarmos naturalmente o que encontramos?

E uma idosa que teve, há mais dez anos, um AVC e depois não teve mais nada? Agora ela tem resultados dos exames de sangue melhores que de seus filhos. Qual o rótulo que a sociedade atribuiu a essas duas pessoas? Pessoas velhas doentes.

Passa por nós a necessidade de entender as dimensões que uma doença afeta em uma pessoa idosa e, esse familiar ou profissional que a acompanha, precisa ter a empatia de pensar nesse lugar da pessoa velha, para dar importância a busca pela saúde necessária. Não é apenas tratar com medicamentos ou um pouco de exercício físico ou outra terapia e deixar a cargo da pessoa idosa todos os outros cuidados necessários.

E, como se já não bastasse toda a discriminação existente pré-pandemia, idade maior de 60 anos passa a ser um "risco" para adoecer e morrer de covid-19, além da presença de hipertensão arterial e diabetes. Velhice é tratada como doença e que se concretiza pelos procedimentos técnicos da OMS que tentará codificar essa situação, velhos e velhas como doentes ou que essa fase seja considerada como um agravo, algo que faz mal.

E esquecemos de assumir nossa culpa nas ações e omissões que colocaram pessoas idosas na condição de risco para o adoecimento, cuidados interrompidos e barreiras que parecem intransponíveis para a busca pela saúde.

Obaluaê, em outra parte do mito, perdoa Nanã, a orixá velha e acolhedora, que o abandonou ainda criança e doente. Isso nos faz repensar passados que, gradativamente, foram adoecendo mãe, pai, filha ou filho. E, assim como uma doença que se transmite, maus sentimentos podem atravessar décadas e fazer de importantes datas de celebração, momentos eternos de reflexão, culpa e solidão por parte das pessoas envolvidas.

A rejeição presente entre pais e filhos adoece muito e dificulta qualquer oportunidade de saúde durante uma trajetória de vida de quem envelheceu sabendo disso e sem possibilidades de corrigir essa parte da sua história.

Essa necessidade de boa parte das instituições públicas e privadas, e de grupos sociais, a maioria jovem, de reforçar que pessoas idosas têm doenças e, por isso, precisam ser consideradas menos aptas ou preparadas para desafios da vida, reforça a discriminação pela idade, as práticas que afastam idosos e idosas do mercado de trabalho, da aprendizagem ao longo da vida, da prática esportiva com significado e não somente a conhecida caminhada leve, e o não convite para experiências de sexualidade e novas relações sociais.

Obaluaê mantém algumas feridas em constante cicatrização para nunca deixar de se compadecer com a dor do seu filho e da sua filha e, com isso, continua a ser importante no processo de cura ou de manejo de algum agravo à saúde.

E quando reflito nessas construções, incluo no debate como parte de profissionais da saúde, de docentes e estudantes estão aprendendo práticas ou reproduzindo saberes que retroalimentam a valorização da doença presente no corpo de pessoas idosas.

A nossa sociedade precisa aprender muito sobre como ouvir a pessoa idosa, para tentar sentir o que aquela doença significa na sua vida, se é um sinal para uma grande ajuda, para mudanças na rotina e até na moradia onde reside, ou se simplesmente é uma súplica para passar mais tardes tomando café juntos.

Há um outro mito que diz que Obaluaê é curado de todas as chagas e passa a ser tão bonito e cheio de energia e, por isso, brilha mais que o Sol, e que por essa razão passa a usar palhas. Talvez, quando nós enquanto sociedade deixarmos de valorizar a doença e cultuarmos mais a saúde e o bem-estar, poderemos identificar a beleza existente em muitas pessoas idosas, deixando de destacar negativamente rugas, cabelos grisalhos, articulações deformadas, orelhas e narizes que mudaram ou cresceram com o tempo.

Deixamos de olhar para a saúde como um direito ou uma definição que necessita considerar o território onde se reside e aspectos culturais. É um lugar ou construção que envolve vários atores sociais e que não pode deixar à margem a fala e a presença de pessoas com 60 anos ou mais.

A noção de beleza precisa mudar, se atualizar, bem como saúde ser mais falada, discutida nas mesas do almoço do domingo, nos bares, na TV e também nas redes sociais.

Que cenas de idosas e idosos com mais saúde sejam mais regra do que exceção.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL