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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Heróis e heroínas envelhecem, mas seus poderes não podem ser esquecidos

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Imagem: iStock
Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

21/06/2021 04h00

Pandemia no Brasil de 2021. Duas irmãs com mais de 40 anos adoecem simultaneamente por covid-19. Uma delas trabalha no comércio e não tem qualquer condição de ir trabalhar. Sente angustiáveis crises de falta de ar, dores nas costas, cansaço e medo.

A outra, já mais velha, teme o pior, e a sensação de ter uma doença cuja evolução em cada corpo é bem particular gera a falta de ar, a ansiedade, a dor de cabeça e o medo.

O pai delas, um senhor de 70 anos, decide que conduzirá o comércio da filha, algo que nunca foi seu campo de atuação profissional, e fará turnos incansáveis, quase sem dormir, para que suas filhas fiquem bem. Seu poder é o do amor.

Já a outra senhora, com 75 anos, perdeu um filho pela violência causada nos grandes centros da cidade. Mais de 20 balas acharam o peito de seu filho, que roubou depois de ter seu futuro roubado pelas omissões sistemáticas de oportunidades de educação e de trabalho.

Com os três netos para cuidar, agora essa senhora decide que voltará a fazer coxinhas e outros salgadinhos para festas e outras celebrações. Ela precisa que o isolamento e o distanciamento social diminuam para vender mais. Seu poder é a determinação.

Outro casal de idosos, ele com 80 e ela com 82 anos, ficam a certa distância física do contato com o filho de 52 anos e com síndrome de Down. A covid-19 entrou na casa deles e ninguém entendeu como o casal não foi acometido, felizmente.

O filho está no quinto dia de tratamento e, na noite passada, começou a reclamar de falta de ar. Não possuem familiares próximos para ajudá-los. Conversam entre si, respiram, cuidam do filho e, quando se lembram, se alimentam. O poder deles é o da oração.

Os problemas sociais e de saúde no Brasil não param de aumentar e de acometer as pessoas sem qualquer distinção de idade.

A criança sem ir para escola e com carência de aprendizado e, muitas vezes, de comida saudável. Os adolescentes pensando o que não deveriam pensar, sem perspectivas quanto ao futuro. Jovens vivendo a falta das relações sociais e de concorrer de forma justa por uma vaga nas instituições de ensino públicas ou para arranjar um bom emprego.

Adultos cada vez mais no mercado informal, entendendo que, enganosamente, foram considerados como "novos" empreendedores. Tudo isso acontece sob os olhares de seus mais velhos e velhas que, sem muitas alternativas, precisam voltar a usar seus superpoderes, ou seja, voltam a ocupar papéis e atividades que já pensavam não mais realizar.

A postura mais ereta não existe mais, a força nos punhos agora tem um toque maior de leveza e um franzir na testa denunciando as dores nas articulações. Mas quem é herói é herói para sempre.

No país das desconstruções sistemáticas das vitórias políticas decorrentes de ação articulada e bem-sucedida de movimentos sociais, ativistas e políticos sérios, nossos heróis e heroínas começam a perceber que a luta está cada dia mais injusta. Hoje, a chance do inimigo ganhar é maior.

O inimigo de hoje mente, cria fake news, desmata o meio ambiente, atira sem precisar, mata inocentes, jura que não recebeu o e-mail da empresa que ofertava vacina, gera desemprego, promove a fome e a insegurança alimentar, mata e não deixa o luto acontecer. Enfim, temos um inimigo com muitos braços, pernas e cérebros atuantes, com um projeto necropolítico em andamento que, até agora, está sendo um sucesso.

São milhares de pessoas idosas que estão novamente vestindo seus trajes de heróis e de heroínas, ativando seus cintos de poderes e suas forças evocadas da natureza para dar força e sustentação para seus filhos, filhas, netas e netos. Seus descendentes agora estão adoecendo mais, morrendo mais que antes e sofrendo todas as iniquidades que já afetavam a população brasileira.

Estando ao lado dos nossos velhos heróis e heroínas, todas as filhas, filhos, netas e netos podem se mostrar fracos, com medo de morrer, de que acreditaram em quem não devia, de que juraram amor a quem nunca retribuiu, assumindo que erraram. Nessa hora, nossos mais velhos e velhas lançam o poder do abraço e do afago.

Há também nossos heróis e heroínas que já não conseguem mais voar em menos de um segundo de uma cidade para outra para estar ao lado de um familiar doente, tampouco ser o apoio financeiro para os momentos mais difíceis da vida.

Seu poder agora é o legado. Legado sobre como fazer ou não fazer para se chegar a um objetivo desejado. Gosto de pessoas com superpoderes que vêm acompanhados de uma trajetória de acertos e erros durante a vida. Outros heróis e heroínas tinham o poder do teletransporte, mas agora não se lembram mais como fazer este superpoder acontecer.

Existe uma boa parte da sociedade que não quer admitir que nossos idosos e idosas possam ainda ser heróis e heroínas envelhecidos. Muitos ainda insistem em querer vê-los com os mesmos traços de quando tinham seus 25, 30 anos e com a potência física e os não aprendizados que só com o tempo vivido se adquirem.

Socialmente, heróis e heroínas com rugas podem até não serem chamados para missões e batalhas, o que é um erro. A idade não pode ser uma inimiga. Já a doença, a falta de cuidado adequado e da assistência no momento certo podem enfraquecer pessoas idosas.

Falta, muitas vezes, a orientação e o dinheiro para a aquisição da bengala "mágica" ou da cadeira de rodas "nave".

Não se trata aqui de romantizar que idosas e idosos são perfeitos, que nunca erram e que são bons. Muito pelo contrário, esse texto está aqui para humanizar as pessoas que são "super" humanas, capazes de resgatar um sentimento necessário, uma força que servirá para manter as pessoas adultas e jovens em pé. Aprenderam tantas vezes a se levantar depois de caírem que agora é hora de ensinar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL