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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A autonomia está garantida para idosas e idosos no Brasil de 2021?

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

07/06/2021 04h00

Você escolhe o que quer fazer na hora que deseja? Já pensou em passar uma vida toda sem esse direito de escolher o que quer? E as pessoas idosas? Será que respeitamos a autonomia delas? Será que elas sabem usufruir da própria autonomia? E será que se permitem usufruir dela?

E ainda: já pensou que esse seu direito ou condição de não ser autônoma ou autônomo sempre foi "modulado" por escolhas que você fez ao longo da vida, como escolher um certo prefeito, governador e presidente? E ter se omitido nesses momentos de escolha também pode ter afetado suas escolhas de vida?

Tantas perguntas e algumas respostas para um dos pontos mais importantes na área do envelhecimento: a autonomia. Essa condição caminha juntamente com a independência física e acaba constituindo uma das melhores formas para entender se uma pessoa idosa vive bem.

Para muitas pessoas e especialistas a autonomia pode ser entendida como a capacidade de tomada de decisão ativa ou uma percepção que envolve possibilidades de voluntariado, autodireção e individualidade. É um agir com liberdade e vontade própria, ter controle das suas vontades.

É complexo imaginar que uma pessoa idosa possa ser feliz mesmo nunca tendo vivido sua plena autonomia ou ainda viver um contexto social no qual acredita que tem livres escolhas, por mais que qualquer atividade, ação ou escolha é muita afetada por condições socioeconômicas, culturais e institucionais?

Uma pessoa idosa poderia dizer ou pensar:

- Posso sim fazer atividades físicas, mas não aquela que gostaria!

- Posso também manter uma vida afetiva e sexual, mas por que ainda com essa mesma pessoa?

- Posso viajar, mas por que sempre para os mesmos lugares?

- Posso ser uma pessoa querida nas festas, mas por que não nas festas de outras pessoas?

- Por que ainda preciso vestir esse tipo de roupa?

Veja que nem sempre essa autonomia é plena. Estar ou não em paz ou de bem com tudo isso passa a ser uma importante escolha e que fará ou não bem para a saúde de idosas e idosos, como também para familiares e pessoas amigas com quem convivem.

Muito do que pensamos sobre autonomia é influenciado diretamente pelas vulnerabilidades as quais as pessoas idosas são expostas durante a vida: física, social, financeira, de gênero, patrimonial, geográfica, sexual, psicológica ou emocional.

E tais vulnerabilidades podem afetar o indivíduo, ou seu grupo, ou ser praticado por instituições e ainda estruturar seu modo de vida (aqui colocando o idadismo com um fator historicamente presente na sociedade brasileira).

Pobreza, pouca ou nenhuma escolaridade, cor da pele, gênero, tipo de trabalho, alimentação inadequada, falta ou lazer escasso, tipo de moradia, mobilidade urbana, limitações dos espaços públicos, excessos de burocracia, necessidade de cuidar de pessoas mais jovens e local onde reside podem também afetar a autonomia, uma vez que geram "barreiras" e não convites para o acesso a situações de vida da qual muitas pessoas idosas gostariam de usufruir, como passeios, relacionamentos, convívios sociais ampliados, vida financeira melhor, maiores proteções sociais, previdenciárias e até físicas.

O quanto filhas, filhos, netas e netos estão certos ou perdidos no respeito às escolhas dos pais e avós? É uma escolha feita na emoção, na mais pura racionalidade ou sem qualquer motivo aparente? As escolhas dos mais velhos seguem uma lógica que, para os mais novos, fazem sentido? É muito emblemática essa situação na qual as pessoas mais jovens estão e, frequentemente, a proximidade do convívio diário, presencial ou virtual, ajuda a entender o jeito de ser e de agir da pessoa mais velha.

E a autonomia pode também ser compreendida dentro de um contexto específico, como trabalho ou saúde. Nesse último, a autonomia da pessoa idosa precisa ser construída com o engajamento de profissionais da saúde, da assistência social, da educação, da gestão, de representantes dos movimentos sociais, de pessoas de outras gerações e de uma comunicação muito efetiva e que sempre busca atender as demandas antigas e atuais da população idosa.

Empoderamento é a palavra-chave que ajuda na construção dessa autonomia.

Na perspectiva do direito à vida, faz parte da construção da autonomia da pessoa idosa a busca pela promoção da saúde e da qualidade de vida, ambas como construção e resultado do bem-estar coletivo e enfrentamento das barreiras, com profissionais ouvindo com respeito as vozes das velhas e dos velhos, considerando suas crenças, seus hábitos e seus comportamentos.

Ainda é forte na gerontologia a compreensão da autonomia na perspectiva da saúde, o que restringe uma ampla discussão na sociedade.

Como grupos sociais específicos de pessoas idosas entendem e usufruem de autonomia em tempos atuais, se percebemos que temos valores culturais sendo impostos e outros não respeitados? Se temos o mundo virtual cada dia mais constituinte das nossas vidas diárias e a inclusão digital ainda não é um fato concretizado amplamente entre velhos e velhas?

Quando o trabalho ainda tem papel central na vida das pessoas que envelhecem e essa importância é pouco respeitada nesse modelo econômico de acúmulo de bens e não necessariamente de conhecimento e de trocas?

As longevas e longevos também precisam entrar na discussão sobre suas autonomias, já que os problemas físicos que comprometem a funcionalidade do corpo podem, de certa forma, limitar sua autonomia e a dependência da presença de uma cuidadora, ou da disponibilidade de familiares, ou da rede de amigos, ou de pessoas residentes da sua rua ou do templo religioso que frequenta.

Ainda é necessário considerar os quadros demenciais que não são identificados e que colocam idosos, idosas e sociedade sem saber a dimensão do impacto dessa doença na autonomia deles.

Faltou incluir aqui os impactos diretos ou indiretos causados pela pandemia. Ausências de pessoas queridas, perdas materiais, de poder aquisitivo, sequelas, outras doenças já presentes na vida dessas pessoas que se agravaram e que também deixaram mais sequelas, uma saúde mental prejudicada, o desamparo do Estado e a desagradável informação de que muitos ministérios estão se empenhando para a realização da Copa América.

Autonomia pode ser entendida também como a livre vontade de pronunciar palavrões cabíveis e aceitáveis a esse contexto e não apenas lamentações e planos de articulações.

Mudanças na nossa forma de escuta, de fala e (novas) ações são necessárias para aprendermos a valorizar a autonomia das pessoas idosas.

Isso poderá ser estranho em um primeiro momento, mas o resultado será incrível porque o jovem de hoje poderá vislumbrar que, quando velho ou velha, poderá também ter suas vontades e anseios atendidos até os últimos dias de sua vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL