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DJs mulheres se destacam em festivais e contam como conquistaram espaço

Eli Iwasa: "Ainda somos questionadas o tempo todo" - Divulgação
Eli Iwasa: 'Ainda somos questionadas o tempo todo' Imagem: Divulgação

Alan de Faria

Colaboração para Universa

29/05/2022 04h00

Uma breve análise no line-up de grandes festivais de música eletrônica, como o DGTL, a XXXperience, o Time Warp e a Tribe, que aconteceram em São Paulo entre abril e maio, pode, erroneamente, mostrar que há poucas mulheres DJs nesta cena musical. Também, pudera: enquanto a XXXperience, entre as quase 60 atrações, escalou apenas duas mulheres, a Tribe contou com quatro mulheres em meio a mais de 40 homens.

Por outro lado, há notas dignas de comemoração: o DGTL 2022 teve 33% de seu line-up composto por DJs mulheres —a quarta edição do festival de origem holandesa foi a de maior representatividade feminina de sua história em solo paulistano. Detalhe: duas que tocaram por lá, a belga Amelie Lens e a norte-americana The Blessed Madonna, fecharam a programação de dois palcos, mostrando a força e a popularidade —fãs das duas lotaram ambos os espaços— das mulheres na cena eletrônica. Já no Time Warp, entre os 27 artistas, sete eram mulheres, incluindo a russa Nina Kraviz e a belga Charlotte de Witte, que fizeram duas das performances mais comentadas do evento.

Tal discrepância pode induzir à ideia equivocada de que, de fato, há poucas DJs mulheres. No dia 17 de maio, uma declaração da DJ Bárbara Labres, com 3,2 milhões de seguidores no Instagram, no podcast Vaca Cast, afirmando que não há DJ mulher no Brasil, causou polêmica nas redes sociais.

Embora pudesse estar não se referindo à cena eletrônica —Bárbara fez vídeos explicando que falava do universo do funk—, tal frase deu margem a críticas pelo fato de, no mínimo, ter ignorado nomes históricos, como o de Sonia Abreu, considerada a primeira DJ do país, cuja carreira atrás das picapes começou nos anos 1970. Ou artistas de sua área de atuação, como Badsista, produtora do primeiro álbum de Linn da Quebrada, e Iasmin Turbininha.

Atualmente, na música eletrônica, destacam-se as DJs Anna, Curol e Ekanta Jake, entre outras. Isso sem citar nomes como o da DJ Anne Louise, que arrasta público em festas gays de tribal house, onde canções de Anitta e Ludmilla remixadas são hits há anos.

Para tentar entender a pouca presença feminina nos grandes festivais de música eletrônica, Universa conversou com quatro DJs mulheres de destaque na cena: as brasileiras Valentina Luz (escalada para o DGTL) e Eli Iwasa (que tocou na Tribe e no Time Warp) e as alemãs Melanie Ribbe (presente no DGTL e na Tribe) e Ann Clue (uma das estrelas da Tribe).

As quatro observam uma gradual (porém, lenta) mudança no mercado, mas reconhecem que as transformações devem passar por vários segmentos da cadeia musical, incluindo uma maior presença feminina na curadoria dos grandes eventos. "Mulheres constroem line-ups mais diversos e inclusivos", afirma Iwasa, há mais de 20 anos na cena eletrônica.

'Pessoas LGBTQIA+ também podem conquistar seu espaço'

Valentina - Divulgação - Divulgação
A DJ Valentina Luz foi escalada para o DGTL 2022
Imagem: Divulgação

Modelo, DJ e performer, Valentina Luz é um dos novos nomes da cena eletrônica nacional. Se antes era conhecida no universo underground, tocando em festas como a paulistana Mamba Negra, de um tempo para cá começou a ser chamada para tocar em grandes festivais como a edição 2022 do DGTL —ela, que é do Paraná, também vai se apresentar no Rock in Rio em setembro.

UNIVERSA - Sua carreira como DJ teve início na segunda metade dos anos 2010. O que significa ser escalada para tocar em um festival como o DGTL?
Valentina Luz - Comecei a tocar profissionalmente em 2017, antes eu era artista visual das festas da cena eletrônica alternativa de São Paulo. Fui me conectando com a música eletrônica e aprendendo a tocar, buscando meu espaço. Estar no DGTL significa a validação do meu trabalho, de que estou no caminho certo.

Reforçando a pergunta acima: o que significou ser escalada para um festival como o DGTL sendo uma artista mulher, preta e trans? Assisti a um documentário a seu respeito no qual você fala justamente sobre a importância de ser um espelho para outras meninas, que, ao te verem, podem sonhar em ser performer, DJ, artista, etc.
Me ver em uma posição de destaque é mostrar à sociedade de que sou capaz de estar neste lugar e também significa mostrar representatividade para a comunidade LGBTQIA+, de que pessoas desse grupo também podem realizar e conquistar seu espaço e seus sonhos, apesar de tantas dificuldades que a comunidade enfrenta.

Na edição 2022, as mulheres representaram 33% do line-up, um número que fez do DGTL 2022 o de maior representatividade feminina de sua história paulistana. Para você, por que as mulheres ainda são minoria em festivais de música como um todo?
Diante da existência do machismo institucional, que não está disposto a dialogar e fecha as portas para as mulheres, muitas desistem pelo caminho. Existe uma quantidade imensa de mulheres talentosas e espero que esse cenário mude e seja ampliado cada vez mais.

Uma de suas inspirações/influências é a DJ Honey Dijon, que, inclusive, já se apresentou em uma edição do DGTL paulistano. Que outras DJs mulheres te inspiram?
São várias. Posso citar, entre elas, Octo Octa & Eris Drew, Jasmine Infiniti, Natasha Diggs e ainda as brasileiras Cashu, Paulete LindaCelva e Eli Iwasa, entre outras.

'Mulheres constroem line-ups mais diversos e inclusivos'

Eli - Divulgação - Divulgação
A DJ brasileira Eli Iwasa, que tocou na Tribe e no Time Warp
Imagem: Divulgação

Se existe uma mulher que tem acompanhado o crescimento da participação feminina na cena eletrônica, esta é Eli Iwasa, que já soma mais de 20 anos de carreira. Além de ser convidada para tocar em grandes festivais, como a Tribe e o Time Warp (e também o Rock in Rio, em setembro), ela dá espaço a outras tantas na Caos, balada de Campinas, no interior de São Paulo, da qual é uma das sócias.

UNIVERSA - Você já soma mais de 20 anos de carreira como DJ. O que mudou de 2000 para cá?
Eli Iwasa - Enquanto mulher na cena, mudou muito. Éramos poucas DJs ou produtoras, e hoje vejo que alguns dos nomes mais importantes da cena mundial são mulheres, elevadas à posição de protagonistas, à frente de selos, clubes e festas e também encabeçando grandes festivais. O machismo ainda existe, ainda precisamos trabalhar muito duro para conquistar nossos espaços, ainda somos questionadas o tempo todo, mas, de uma maneira geral, o mercado está mais aberto para artistas femininas.

Em uma entrevista ao site RG, você comentou que tocar em grandes festivais é importante para se posicionar no mercado. O que significa ser escalada para eventos como a Tribe?
Acredito que chegar aos festivais é um momento importante para todo artista. Aquela sensação de "cheguei lá", sabe? Lembro de ver os anúncios da Tribe e aqueles line-ups de gigantes. Moro em Campinas (SP), e quase todo mundo que frequentava meus clubes vai ou foi para Tribe um dia, tamanha a relevância do festival aqui no interior de São Paulo. Eu não imaginava que um dia faria parte dele, parecia uma coisa tão distante, assim como de outros festivais dos sonhos em que toco hoje. Poder mostrar meu trabalho para um número tão grande de pessoas dá um sentimento de realização muito grande.

As mulheres ainda são minoria nos line-ups dos grandes festivais. Na sua opinião, por que isso ocorre?
O mercado musical ainda é predominantemente masculino, o poder e o dinheiro continuam centralizados entre os homens, é difícil transformar a mentalidade. Acredite: ainda tem muita gente resistente à ideia de line-ups com representatividade e diversidade. Enfrento isso todos os dias, e, muitas vezes, de uma forma velada. Quando defendo uma artista mulher, trans, negra, dentro do que faço, é porque sei o quanto compartilhar espaços e oportunidades pode fazer diferença. Apesar de ser um processo mais lento do que gostaríamos, as mulheres vêm conquistando cada vez mais espaço em papéis de liderança na sociedade, e isso se reflete em nossa cena. É um caminho sem volta.

De que modo pode ser alcançado o equilíbrio entre homens e mulheres no line-up dos eventos?
Primeiramente, tendo mais curadoras assinando a direção artísticas dos eventos: mulheres constroem line-ups mais diversos e inclusivos. Como público, cobrar dos produtores esse equilíbrio. E esse equilíbrio não é somente sobre o número de artistas, mas é também sobre equidade em relação aos cachês, aos slots [espaço e horário da apresentação], sobre dar oportunidades para mulheres pretas, asiáticas, periféricas e trans que sofrem ainda mais com a falta de espaço.

'Geralmente sou a única mulher no meio de 10 artistas homens'

Melanie Ribbe - Divulgação - Divulgação
A alemã Melanie Ribbe marcou presença nos festivais DGTL e Tribe
Imagem: Divulgação

A alemã Melanie Ribbe soma oito anos de carreira como DJ, tempo suficiente para já ter ganhado uma festa para chamar de sua na concorrida alta temporada de Ibiza. Formada pela London Academy of Music Production, ela, que também atua como modelo, foi convidada para tocar no DGTL paulistano, em abril, e nos 20 anos da Tribe, em maio.

UNIVERSA - Você "só" está há oito anos na estrada como DJ. O que significou ser escalada para tocar em festivais grandiosos como o DGTL?
Melanie Ribbe - Acredito que este tenha sido um dos destaques da minha carreira, que está apenas no começo. Foi uma grande honra fazer parte de alguns dos festivais mais respeitados do mundo. Minhas incontáveis horas de trabalho duro, dedicação, determinação, sacrifício e comprometimento me trouxeram até aqui hoje.

Qual a diferença entre tocar em um festival como a Tribe e tocar em uma festa em um clube fechado?
Tenho a impressão de que um grande festival é uma enorme vitrine e um excelente portfólio para quem atua nele, sejam eles os artistas ou quem está nos bastidores. Há também um maior cuidado na curadoria: os criadores dos festivais levam mais tempo para planejar um evento grandioso. Da mesma forma que os artistas parecem ter um cuidado maior no setlist que preparam para tocar por uma ou duas horas.

A edição 2022 do DGTL foi a que teve a maior presença de mulheres no line-up: 33%. O que esses números representam para você?
Isso foi incrível. É algo ainda muito incomum para mim. Geralmente sou a única artista feminina no meio de cinco, dez artistas homens. Fiquei feliz em saber que as coisas estão mudando e estou bastante orgulhosa em perceber como as garotas estão deixando suas marcas na indústria.

Na sua visão, qual a importância de equiparar o número de DJs mulheres e DJs homens em festivais?
Adoraria ver um line-up equilibrado. Trabalhando duro e fazendo lançamento frequentes, as mulheres DJs devem, sim, ser convidadas para tocar em festivais. Não acho que uma vaga no evento deva ser dada à mulher apenas para fazer um festival igual em gênero. De qualquer modo, é importante os grandes festivais estarem atentos às novas e antigas artistas femininas.

'Mulheres ainda não são levadas tão a sério na indústria'

A alemã Ann Clue foi uma das estrelas da Tribe - Divulgação - Divulgação
A alemã Ann Clue foi uma das estrelas da Tribe
Imagem: Divulgação

Bastou o nome de Ann Clue ser anunciado como uma das atrações da Tribe 20 anos para muita gente ficar eufórica. Uma das principais artistas a se apresentar no Palco Tribe Club, a alemã não só se destaca atrás das picapes como também produzindo faixas de diversos artistas. Atualmente, é uma das DJs que mais tocam em eventos ao redor do mundo: já visitou mais de 35 países.

UNIVERSA - Você toca tanto em clubes pequenos quanto em grandes festivais. Em qual desses lugares você prefere se apresentar?
Ann Clue - É difícil explicar, pois cada um tem seu charme e seus benefícios. O bacana de tocar em lugares menores é que você acaba tendo uma maior conexão com o público. Mas, claro, para qualquer artista, é sempre incrível alcançar uma plateia maior. Então, na verdade, nem tenho preferência: amo tocar em ambos os locais.

Além de DJ, você também é produtora. Que vantagens este papel trouxe para a sua carreira?
Acredito que o mais importante seja você produzir suas próprias músicas porque aquilo, de alguma maneira, te define como artista. Produzir me deu a oportunidade de me destacar mais na cena eletrônica, embora existam pessoas que acreditem que o Boris [Brejcha, um dos grandes nomes da cena eletrônica] seja o meu produtor fantasma. Adoro produzir, uma ação que é mais desafiadora do que tocar. Por outro lado, tocar é mais divertido.

As mulheres ainda são minoria nos line-ups dos grandes festivais. Por quê isso acontece, na sua opinião?
Bom, as coisas parecem estar mudando um pouco agora, tenho visto cada vez mais mulheres nos festivais, mas, claro, como em todos os trabalhos mais técnicos, vamos dizer, há mais homens desempenhando-os. A questão é que as mulheres ainda não são levadas tão a sério na indústria. Isso tudo porque ainda temos muitas DJs modelos que, na realidade, são produtos de marketing.

De que maneira pode haver um equilíbrio entre homens e mulheres na lista de atrações de grandes eventos?
Isso vai acontecer naturalmente. Tenho certeza disso. A qualidade vai falar mais alto na seleção dos artistas.

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