PUBLICIDADE

Topo

Diversidade

'Me vi inteira': mulheres trans revelam como cirurgias vão além da estética

A modelo e atriz Mahogany Phillips é personagem do documentário "Born to be" e conta para Universa como transição de gênero mudou sua vida - Divulgação
A modelo e atriz Mahogany Phillips é personagem do documentário "Born to be" e conta para Universa como transição de gênero mudou sua vida Imagem: Divulgação

Nathália Geraldo

De Universa

28/09/2021 04h00

Quando marcamos entrevista para esta matéria, a designer gráfica Duda Téo, de São Paulo, já estava contando os dias para fazer a cirurgia de frontoplastia, que suavizará a expressão na área da testa e que a deixará com traços mais delicados. Travesti, não binária, ou seja, que não se limita aos conceitos de "feminino" e "masculino", ela quer se sentir mais "habitando sua própria pele".

Apesar de a frontoplastia não ser feita exclusivamente por mulheres trans, é um dos recursos estéticos usados para a "feminização" facial que elas procuram: saem elementos que masculinizam o corpo e o rosto e entra a autoestima para que se sintam mais confortáveis na própria pele. A atriz Mahogany Phillips, de Nova York (EUA), que aparece na foto que abre esta reportagem, também foi submetida a essa cirurgia.

Mahogany é uma das pacientes que contam suas histórias no filme "Born to Be" ("Nascido para Ser"). Lançado em 2019, ele concorre ao Prêmio Emmy de Notícias e Documentários, nesta quarta-feira (29), nas categorias de melhor documentário e direção. O filme é dirigido pela brasileira Tânia Cypriano. Ainda não tem previsão de estreia no Brasil, mas é possível ver o trailer no final deste texto.

Para as mulheres trans ouvidas por Universa — duas que moram nos Estados Unidos e aparecem no documentário de Tânia e duas que vivem no Brasil — transformar o rosto está ligado a escrever uma trajetória de reconhecimento de si mesma. Do mesmo modo acontece com as que fizeram a redesignação de sexo, também chamada de "procedimento de afirmação de gênero" ou de "transgenitalização". "Mudança de sexo", por sua vez, é um termo impreciso e pejorativo — por isso, não deve ser usado nestes casos. Vale dizer que a operação é oferecida pelo Sistema Básico de Saúde, o SUS, desde 2008.

A seguir, elas contam como as cirurgias impactaram na autoestima e na experiência de habitarem o próprio corpo se fortalecendo para serem exatamente quem nasceram para ser.

"Desde a transição, fui para um lugar tranquilo da minha mente"

mahogany - Divulgação - Divulgação
Mahogany Phillips fez três cirurgias para transição de gênero
Imagem: Divulgação

Mahogany Philips fez três cirurgias plásticas: aumento das mamas, em 2015, redesignação sexual, em 2016, e "feminização" facial, em 2017.

"O maior impacto que as cirurgias tiveram em mim foi me levar a um lugar tranquilo com minha mente, corpo e espírito. Antes da transição, o trauma começaria logo quando meus pés tocassem o chão pela manhã, depois de sair da cama, porque teria que tomar banho e olhar as partes do corpo que eram desagradáveis para mim.

Aí, teria que puxá-las e empurrá-las, colocando-as em roupas íntimas justas e indo no espelho para me certificar de que tudo estaria perfeito para agradar o resto do mundo. Então, teria que sair e lutar com estranhos só para chegar ao meu destino. Isso me causava muito trauma.

Desde a transição, me sinto mais viva do que nunca, porque ela me levou a um lugar de paz em que não estou mais enfrentando provações da sociedade. Além disso, sou amada em minha comunidade e isso têm sido um marco importante."

"Transição de gênero é uma busca meio sem fim"

duda - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A designer Duda Téo conta que fez rinoplastia...
Imagem: Arquivo pessoal
dudae - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
... e que está à espera da realização da cirurgia de feminização facial na região da testa
Imagem: Arquivo pessoal

Duda Téo fez uma cirurgia no nariz em 2019 e, em outubro, será submetida a uma frontoplastia em clínica particular. Para Universa, ela conta como foi seu processo de descoberta ligada à identidade de gênero e como prefere se identificar como travesti, por entender que é uma identidade política.

"Escolher fazer a frontoplastia se dá mais por proteção na sociedade, porque sabemos que quanto mais marcadores de masculinidade, mais chance de as pessoas deslegitimarem sua identidade. Desde que saí do armário como travesti, essa questão se tornou mais contundente para mim.

Minha história é de ter sido uma criança muito feminina, estava sempre maquiada, só usava os vestidos da minha mãe. Por isso, foi pautada em violência física e psicológica, principalmente na escola, um dos lugares de maior violação do meu corpo.

Quando fui morar na Austrália, em 2015, comecei a praticar a arte drag, que me fez entender que meus problemas centrais se tratavam de uma questão profunda de gênero. Ao mesmo tempo, trabalhava em um lugar em que tinha que performar uma identidade masculina normativa. E isso me fez quase entrar em paranoia: parecia ter perdido identidade no sentido de território e no meu corpo. Foi quando resolvi fazer terapia.

Cheguei na posição de que 'não sou homem nem mulher', mas percebi que quanto mais feminina eu estava, com mais senso de propósito e mais feliz me sentia. Então, entendi que a identidade que expressa o que sou desde a ambiguidade de gênero é a travestilidade.

Sei que a transição de gênero é uma busca meio sem fim. Mas também entendo que quero viver minha mulheridade dentro dos meus próprios termos, sem regras.

Nunca odiei meu p*, nem penso em redesignação. E não acredito que alguém será mais ou menos trans, mais ou menos mulher ou mais ou menos travesti com ou sem esses procedimentos. Para mim, eles atendem minhas necessidades, e não as demandas sociais.

"A redesignação de sexo foi para fortificar a mulher que sou"

bianca - Henrique Grandi/UOL - Henrique Grandi/UOL
Bianca foi a 1ª mulher trans a fazer redesignação sexual no SUS
Imagem: Henrique Grandi/UOL
bianca - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Para coach life, cirurgia fez com que ela se sentisse "inteira"
Imagem: Arquivo pessoal

A coach life Bianca Magro foi a 1ª mulher trans a passar por cirurgia de redesignação sexual pelo Sistema Básico de Saúde, o SUS, em 1998. Aos 13 anos, por distúrbios hormonais, viu os seios crescerem e as cólicas despontarem. Mais tarde, lutou por três anos para conseguir autorização na Justiça para fazer o procedimento.

"A cirurgia de redesignação de sexo para mim foi algo fantástico, porque veio para adequar a Bianca que já existia. Sempre me coloquei como Bianca, não tinha problema comigo mesma. O problema era o corpo que tinha coisas que não era de menina, e aquilo era um incômodo.

Por isso, a operação, que fiz na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), superou minhas expectativas. Não tive dor, nunca tive problema de dilatação... Só no primeiro mês, tinha medo de tocar e 'estragar'. Uma enfermeira é que lavava. Para esse medo do novo, aliás, não há terapia que nos prepare.

Sabia que a cirurgia não era a salvação, mas era a porta de entrada para o mundo, porque fiz uma coisa para fortificar a mulher que eu era. Depois que aconteceu, vieram outros momentos: a adequação de documentação de identidade, ser vista e me ver como inteira. Passei a não ter mais bloqueios em relacionamentos e amizades, porque tem certas coisas que a gente não sabe como é antes de se sentir inteira. Hoje, digo que fiz 50 anos de registro civil, mas 23 de vida, que é o tempo da cirurgia."

"Com ou sem cirurgias, sou uma mulher. Ponto final"

garnet - Divulgação - Divulgação
Garnet Rubio fez procedimentos de "afirmação de gênero" e identificou questões de ansiedade e depressão que ainda precisavam ser analisadas
Imagem: Divulgação

Garnet Rubio passou por cirurgias de afirmação de gênero (outro nome para os procedimentos ligados à identidade de gênero), mas prefere não compartilhar detalhes das operações, por entender que há um apelo da mídia e dos indivíduos sobre o interesse relacionado ao tema.

Essa obsessão sobre exatamente quais procedimentos as pessoas trans são submetidas é tão cansativa. Eu, com ou sem cirurgias de afirmação de gênero, sou uma mulher. Ponto final, fim da história.

"O impacto mais profundo de minhas cirurgias foi eu ser forçada a enfrentar a realidade de que a raiz da minha depressão e da minha ansiedade, resultado de um grave trauma de infância, não poderia ser resolvida com a cirurgia, mas, sim, trabalhando em mim mesma.

No entanto, minhas cirurgias de afirmação de gênero eram absolutamente necessárias do ponto de vista médico. Eles me permitiram finalmente ser capaz de viver a vida livremente, sem qualquer forma de restrição física.

A mudança mais significativa que proporcionou em minha vida diária é que agora me sinto muito mais segura, camuflada - "incógnita", se quiserem - como qualquer outro membro da sociedade, quase livre de assédio. É uma pena que nosso mundo despreze tanto as pessoas de experiência trans a ponto de procurarem especificamente meios físicos para nos identificar e instilar ódio profundo desde as gerações misóginas e racistas que vieram antes de nós."

Cirurgias, o impacto psicológico e a autoestima

Para psicóloga Petra Grünheidt, especialista em terapia comportamental pela USP e mulher trans, é senso comum que as questões mais difíceis das pessoas trans sejam ligadas ao corpo e à aparência. No entanto, um olhar mais sensível pode denotar demandas emocionais e psicológicas que devem ser acompanhadas por um profissional de saúde mental, para além das questões de transição de gênero.

"É comum que pessoas trans desenvolvam nas relações, por exemplo, padrões de esquiva que precisam ser trabalhados na terapia. São pessoas que sofrem exclusões sociais. Até por isso, quando decidem fazer uma cirurgia, precisam lidar com a expectativa de que não é só isso que vai resolver os problemas", explica a psicóloga, que trabalha em parceria com a Rainbow Psicologia, com foco em atendimento a pessoas LGBTQIA+.

"É sobre saúde mental e corporal", diz diretora do documentário

A diretora do "Born to Be" Tânia Cypriano, que é cisgênera, explicou para Universa que o documentário tem a intenção de colocar holofote sobre a saúde mental e corporal da população trans, e não contemplar a curiosidade do público geral a respeito das técnicas de transição de gênero.

"As pessoas precisam ser educadas sobre o assunto, porque temos medo e preconceito sobre o que não sabemos. O que acompanhei foram histórias incríveis e muito tristes, como de Garnet Rubio e de Mahogany Philips, e de muitas pessoas que era como se estivessem indo a seus próprios partos", contou a cineasta, que mora em Nova York e que, hoje, reforça que vê a necessidade de mais filmes sobre pessoas trans serem realizados por pessoas trans também atrás das câmeras.

O documentário foi gravado nas salas do Centro Mount Sinai de Medicina e Cirurgia para Transgêneros, em Nova York. O local é referência no atendimento a pessoas transgêneros desde 2016.

Veja o trailer, em inglês:

Diversidade