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Contra a chamada "cura gay", nasce 1ª rede que conecta LGBTs e psicólogos

O fundador Hamilton Kida vê dois fatores que afastam LGBTs do consultório: vulnerabilidade social e profissionais pouco preparados - iStock
O fundador Hamilton Kida vê dois fatores que afastam LGBTs do consultório: vulnerabilidade social e profissionais pouco preparados Imagem: iStock

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

24/09/2020 04h00

Se você é uma pessoa LGBT, é possível que já tenha pensado duas vezes antes de decidir o destino de uma viagem, o hotel em que ficará hospedado e até mesmo como proceder ao marcar uma consulta médica. Na hora de buscar tratamento psicológico, esse processo pode ser ainda mais tenso: pesquisar o nome do profissional nas redes sociais, pedir indicações de amigos e buscar formas de driblar situações constrangedoras e até agressões.

Para evitar que o medo afaste pacientes de psicólogos, nasceu há dois anos a Rainbow Psicologia, que há uma semana se tornou empresa — a primeira do Brasil a se dedicar especialmente à saúde mental de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros.

A empresa conta com 140 profissionais em 12 estados brasileiros e pelo menos 1.100 pessoas atendidas no país. Os sócios Hamilton Kida, psicólogo, e Alessandra Tobo, publicitária, esperam agora chegar a todas as capitais e dobrar o número de profissionais e pacientes que fazem parte da rede.

"No começo, era um coletivo de psicólogos. Eu cadastrava os profissionais de acordo com suas afinidades para atender à comunidade LGBT, sempre pensando em evitar cura gay, terapia de reversão, essas barbaridades que a gente sabe que alguns profissionais praticam. O critério básico sempre foi não julgar e não colocar as crenças dele no tratamento", conta Hamilton Kida, sócio fundador.

"Sempre existiram clínicas que se diziam 'LGBT friendly', mas nenhuma iniciativa com foco específico para esse público. Aqui, a gente trabalha o conceito de pertencimento. A pessoa já se sente acolhida quando ela entra em contato com a gente pela primeira vez e, com isso, a facilidade que têm para se abrir e de fato tratar suas questões é enorme".

Funciona assim: no site da rede, o paciente preenche uma ficha respondendo dados pessoais e disponibilidade de agendamento. Ele então é encaminhado para um profissional de acordo com a região em que mora e o preço médio que pode pagar — detalhes como valores e datas são acertados entre paciente e profissional, sem intermédio da Rainbow, mas todos os psicólogos ligados à empresa se comprometem a fazer pelo menos um atendimento semanal voluntário.

O momento de pandemia, em que todos os atendimentos estão sendo realizados à distância e por vídeo, trouxe uma vantagem: a possibilidade de ser atendido pela empresa mesmo se está em uma cidade onde não há nenhum profissional cadastrado.

Nada de cura gay

Hamilton teve o privilégio de ter tido acesso desde a adolescência a profissionais da psicologia qualificados e preparados para atendê-lo com respeito e acolhendo sua sexualidade — mas essa não é a regra.

Desde a graduação, ele ouve histórias de pessoas LGBTs que se depararam com psicólogos adeptos da reversão sexual, conhecida por "cura gay" e proibida no Brasil pelo STF (Supremo Tribunal Federal) há mais de um ano. Reportagens denunciam que pessoas submetidas ao dito tratamento sofreram tortura, receberam eletrochoque e tiveram coma induzido. Muitos pacientes são encaminhados pela própria família a consultórios que prometem transformá-los em heterossexuais.

"Eu não vivi esse problema, mas na época da faculdade vi amigos próximos caírem nessas curas gays, e hoje recebo vários pacientes que passaram por esses serviços. Tem um deles, por exemplo, que a mãe levou numa clínica que tinha plaquinha na rua oferecendo cura gay", diz.

Para evitar esse tipo de abordagem — e outras bem mais sutis que, mesmo sem intenção podem soar preconceituosas e afastam pessoas LGBTs do tratamento — Hamilton e Alessandra promovem um treinamento para profissionais interessados em compor a rede. Depois, a dupla acompanha o decorrer do tratamento, monitorando se os pacientes desistem de seguir com a terapia e por quê.

"Fazemos uma seleção bem criteriosa e, às vezes, a gente pega o preconceito em detalhes sutis. Depois da triagem, se o profissional for aprovado, fazemos o cadastramento e ele passa por um treinamento, que a gente chama de processo de sensibilização. Ali, ele conhece práticas de comunicação com linguagem neutra, aprende a se referir da forma correta a pessoas trans, a identificar o gênero pelo qual o paciente prefere ser chamado", explica. "Depois fazemos um acompanhamento para saber se a pessoa seguiu com o tratamento e, se decidiu parar, se foi movido por questões financeiras, por falta de identificação com a abordagem clínica?"

Esse treinamento é ministrado por Hamilton e Alessandra, dura de 6 a 10 horas, divididas em três encontros — durante a pandemia, tudo acontece de forma virtual.

Hamilton - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Hamilton Kida, psicólogo
Imagem: Arquivo pessoal

Alessandra - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Alessandra Tobo, publicitária
Imagem: Arquivo pessoal

Particularidades

Os pacientes que procuram a Rainbow têm perfil bastante diverso, explica Hamilton, são desde os mais jovens, passando pelas primeiras experiências de vida, até LGBTs idosos. Mas parte dos problemas que eles levam ao consultório tem um denominador comum: a LGBTfobia.

Durante a quarentena, conta Hamilton, o maior problema tem sido estar isolado com a família que muitas vezes não aceita. "É quase como se a pessoa voltasse para o armário. Além do isolamento social, o sentimento de solidão, de estar longe das pessoas em quem essa pessoa realmente se apoia".

Ele vê uma dificuldade maior de acesso a cuidados com a saúde mental para pessoas LGBTs pelo menos por dois fatores: falta de preparo dos profissionais e a vulnerabilidade social em que parte das pessoas LGBTs estão inseridas.

"Eu não conheço nenhuma graduação de Psicologia que trata a diversidade sexual na grade de ensino. E essa falta de preparo acontece na área da saúde toda. A gente ouve relatos de pessoas trans que precisam passar por ginecologistas e não são acolhidas, endocrinologistas que se recusam a fazer a hormonização, falta de informação sobre transmissão de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis)... O mesmo na psicologia", lamenta.

Hamilton continua: "A comunidade LGBT sofre com a vulnerabilidade social, a família muitas vezes não vai apoiar que a pessoa faça terapia por conta desse assunto, e também não são raros casos em que a pessoa é expulsa de casa e perde o suporte".

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